A pressão comercial de Washington sobre o comércio exterior brasileiro ganhou mais um capítulo crítico. A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, confirmou nesta quinta-feira (23) que o representante comercial dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, fará o anúncio oficial de novas tarifas de importação. A medida será oficializada antes da caducidade da taxa global temporária de 10%, prevista para esta sexta-feira (24).
A nova rodada de sanções deve atingir cerca de 60 economias com alíquotas adicionais entre 10% e 12,5%. Para os produtos oriundos do Brasil, a sobretaxa prevista é de 12,5%.
O acúmulo de tarifas e o peso sobre o exportador
A nova alíquota gera um efeito cascata que encarece drasticamente a presença de mercadorias brasileiras no mercado norte-americano:
- Tarifaço de quarta-feira (22): Início da cobrança de 25% sobre uma cesta de produtos nacionais;
- Nova sobretaxa anunciada (23): Adicional de 12,5% resultante de investigações sobre trabalho forçado;
- Carga Total: Parte das exportações brasileiras passa a enfrentar uma tarifação combinada de 37,5% para entrar nos EUA.
- A medida substitui a cobrança temporária de 10% aplicada em fevereiro com base na Seção 122 da lei americana, cujo prazo legal de 150 dias expira nesta semana.
A justificativa de Washington x A contestação do Itamaraty
O argumento do governo Donald Trump apoia-se em uma investigação iniciada em março sob o respaldo da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O inquérito do USTR concluiu em junho que cerca de 60 países — incluindo aliados como Canadá, Reino Unido, União Europeia, Israel, além do Brasil, China e Rússia — falharam em proibir e fiscalizar a entrada de itens produzidos com trabalho escravo moderno em suas cadeias globais.
O governo brasileiro reagiu de forma contundente às alegações americanas. Em carta formal enviada ao USTR, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou os argumentos dos EUA como “errôneos”, “arbitrários” e sem respaldo factual.
“A Seção 301 não permite que o USTR ignore evidências incontestadas (…) Infelizmente, foi precisamente isso que o USTR propôs.” — Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil, em mensagem enviada a Washington.
O diplomata enfatizou que o Brasil possui um aparato legal robusto no combate ao trabalho análogo à escravidão, citando a fiscalização ativa, responsabilização criminal e a atualização periódica da Lista Suja do Trabalho Escravo.
Plano Brasil Soberano injeta R$ 18,5 bilhões para conter danos
Diante do cenário desfavorável no comércio com os EUA, o governo federal acionou a terceira etapa do Plano Brasil Soberano. A medida liberou R$ 18,5 bilhões em linhas de crédito emergencial para socorrer empresas nacionais e incentivar a conquista de novos mercados compradores.
A injeção de recursos beneficia diretamente setores industriais estratégicos atingidos pelas sanções dos EUA, como as indústrias farmacêutica, têxtil e de fertilizantes. Parte das verbas também é voltada para auxiliar exportadores afetados pelas instabilidades operacionais na região do Golfo Pérsico e no Estreito de Ormuz, rota comercial afetada pelos conflitos no Oriente Médio.