O comerciante Wanderson da Costa Silva, 43, dono do Bar do Zam, é preso em flagrante em Franca acusado de tentar matar um casal que vendia churros após um desentendimento ligado a uma suposta denúncia à Prefeitura. A mulher, de 55 anos, sofre traumatismo craniano e segue em estado grave.
Discussão em estacionamento termina em atropelamento
O ataque ocorre à noite, em um estacionamento às margens da avenida Chico Júlio, na região da Vila Exposição, área de grande circulação em Franca, no interior paulista. Ali, o casal Márcio Luciano de Souza, 49, e Irislene Costa de Macêdo, 55, trabalha com um carrinho de churros e utiliza o espaço como ponto fixo de venda.
Segundo depoimento prestado por Márcio à Polícia Civil, Wanderson chega ao local acompanhado da mulher e da filha. Ele aponta o celular, começa a filmar e acusa o casal de ter denunciado seu bar à Prefeitura, o que, na visão dele, teria provocado o fechamento do estabelecimento no Parque São Jorge.
Márcio nega qualquer participação na denúncia. A negativa, porém, não acalma os ânimos. Testemunhas relatam que a discussão se intensifica e que o dono do bar permanece exaltado, insistindo que perdeu o sustento por causa do casal.
Três investidas com o carro contra o carrinho e as vítimas
Após a troca de acusações, Wanderson entra em seu VW Fox prata. Em vez de deixar o local, ele passa a avançar com o carro contra a estrutura de trabalho das vítimas. De acordo com relatos colhidos pela Polícia Militar e pela Polícia Civil, são pelo menos três investidas contra a carretinha e o carrinho de churros.
Testemunhas descrevem que o motorista faz manobras de retorno e volta a acelerar na direção do carrinho, destruindo o equipamento de trabalho do casal. Em seguida, direciona o veículo diretamente contra as pessoas.
Márcio consegue saltar para o lado e escapar da trajetória principal do automóvel, mas ainda assim se fere em uma das pernas. Irislene não tem a mesma chance de reação. O Fox atinge a vendedora em cheio e a arremessa ao chão, diante de outros frequentadores do estacionamento.
“Ela permaneceu desacordada até a chegada do socorro”, relatam testemunhas à polícia. Populares correm para tentar ajudá-la e cercam o local, enquanto alguém aciona o Samu.
Vítima em estado grave e prisão em flagrante
Uma equipe do Samu leva Irislene à Santa Casa de Franca. Ela é encaminhada inicialmente à Sala Vermelha, área destinada a casos mais graves. Informações médicas repassadas ao delegado responsável indicam traumatismo craniano, episódios de vômito e risco de morte, com possibilidade de cirurgia a depender do resultado de exames.
Para o delegado Rafael de Paula Leão Andreo, os relatos e o quadro clínico afastam a tese de acidente. “Os elementos reunidos apontam claramente para uma tentativa de homicídio”, afirma. Ele destaca que a sucessão de manobras com o carro, primeiro contra os instrumentos de trabalho e depois contra as pessoas, reforça a intenção de matar.
Após o atropelamento, Wanderson deixa o estacionamento sem prestar socorro. Quando a Polícia Militar chega, encontra o carrinho destruído, marcas de frenagem e um grupo de pessoas tentando identificar o motorista responsável pelo ataque.
Pouco tempo depois, a Central de Operações da PM é informada de que o comerciante se apresenta espontaneamente à Central de Polícia Judiciária, acompanhado do advogado Roosevelt Antonio Ferreira Neto. No interrogatório, ele não descreve a sua versão. “Wanderson, assistido pelo advogado Roosevelt Antonio Ferreira Neto, exerceu seu direito constitucional e optou por permanecer em silêncio sobre os fatos”, registra a autoridade policial.
Crime inafiançável e tensão entre comércio formal e informal
O delegado autua o comerciante por tentativa de homicídio qualificado por motivo fútil e decreta a prisão em flagrante. O crime, nessa etapa do inquérito, é considerado inafiançável. Levantamento da própria Polícia Civil aponta que Wanderson não tem antecedentes criminais, mas isso não impede a manutenção da prisão preventiva, dada a gravidade do caso.
O veículo usado no atropelamento, o VW Fox prata, é apreendido para perícia. A Polícia Civil requisita também exames no local para reconstruir, com base em marcas de pneus, distância de impacto e posição dos destroços, a dinâmica exata das investidas do carro.
O episódio expõe um ponto de fricção conhecido em cidades médias como Franca: a convivência nem sempre pacífica entre comerciantes estabelecidos e trabalhadores informais. De um lado, bares e lanchonetes sujeitos a fiscalização rígida e dependentes de licenças para funcionar. De outro, vendedores ambulantes que disputam espaço e clientela, muitas vezes sem a mesma formalização.
No caso de Márcio e Irislene, o carrinho de churros representa a principal fonte de renda da família. Com o equipamento destruído e a vendedora internada em estado grave, o impacto econômico é imediato. A família perde o meio de trabalho e enfrenta despesas médicas crescentes.
Para outros ambulantes que atuam na região, o atropelamento tem efeito de alerta. O medo de retaliações em disputas por ponto de venda aumenta e se soma à insegurança já enfrentada por quem trabalha à noite, em áreas abertas e sem proteção.
Comunidade cobra resposta e caso pode virar precedente
O caso corre na esfera policial e deve ser analisado pelo Ministério Público, que decide se apresenta denúncia formal contra Wanderson pelos mesmos termos do flagrante ou por crime ainda mais grave, caso o quadro de saúde de Irislene piore. Até aqui, o delegado enfatiza que o motivo do ataque é “fútil e desproporcional”, ligado a desentendimentos comerciais e à suspeita de uma denúncia administrativa.
O processo tende a ser acompanhado de perto pela comunidade de Franca, acostumada a frequentar a região da avenida Chico Júlio para lazer e compras. A violência extrema em um espaço de uso cotidiano amplia a sensação de insegurança e pressiona autoridades municipais e estaduais a discutir medidas de prevenção.
Especialistas ouvidos pela Polícia Civil defendem que conflitos como esse não sejam tratados apenas como problemas individuais, mas como sintomas de uma relação mal resolvida entre fiscalização, sobrevivência econômica e ocupação do espaço público. Políticas de mediação, canais claros para denúncias e maior presença do poder público em áreas de comércio informal aparecem como caminhos possíveis para evitar novas tragédias.
Enquanto Irislene segue internada e a perícia trabalha para fechar o quebra-cabeça técnico do atropelamento, Wanderson permanece preso à disposição da Justiça. O desfecho do caso pode se transformar em referência para outras investigações que envolvam o uso de veículos como arma em disputas locais, dentro e fora do interior paulista.