Em plena forma aos 70 anos, Marina Lima percorre o país com a turnê “Marina 70”, que revisita sucessos da carreira e apresenta faixas do novo álbum “Ópera grunkie”. No palco, a cantora e compositora transforma a celebração de aniversário em balanço de vida, em uma fase em que a maturidade redefine sua relação com a própria obra e com o público.
Uma comemoração que vira rito de passagem
A turnê marca a celebração dos 70 anos completados em setembro do ano passado, às vésperas de Marina chegar aos 71. O clima, porém, é menos de retrospectiva protocolar e mais de rito de passagem. Ela assume em cena que hoje enxerga a própria trajetória com outro olhar.
“A idade te traz um distanciamento muito grande das coisas. Você revê a sua trajetória, onde tropeçou e por quê. O que poderia ter feito diferente se fosse hoje em dia? Quase tudo. Com a maturidade, você faria tudo diferente”, afirma. O tom é de autocrítica serena, sem nostalgia amarga.
Ao mesmo tempo, Marina evita cair na armadilha de julgar com dureza excessiva a jovem que foi. “Mas, com a idade, você tem um pouco mais de empatia por você mais jovem. E também mais exigência com o que vem e como você vai se colocar diante da sabedoria que o tempo te trouxe. Tem que ter responsabilidade com isso”, diz. Essa ideia de responsabilidade atravessa o show, que trata os hits como capítulos de uma história ainda em curso, não como peças de museu.
Palco como centro da vida artística
A cada nova cidade da turnê, Marina reencontra plateias que cantam palavra por palavra músicas lançadas décadas atrás. A artista, que no passado privilegiava o trabalho de estúdio, assume que essa equação se inverte.
“É muito emocionante para mim ter plateias no Brasil inteiro cantando junto comigo. Ser trilha sonora da vida das pessoas é uma relação muito íntima”, conta. Ela descreve o que passa pela cabeça quando as luzes se acendem: “(Quando estou no palco) passa um filme na minha cabeça, porque antigamente eu gostava mais de estúdio. Gosto de fazer arranjo, de compor com calma… sou muito detalhista. Então o show era legal, mas uma espécie de repetição do que eu havia atingido nas gravações. Agora não. Hoje, o elemento público é um elo com a minha existência.”
Esse deslocamento de eixo impacta diretamente a experiência de quem assiste. O repertório mistura sucessos como “Fullgás”, “Pra Começar” e “Acontecimentos” com novidades de “Ópera grunkie”, em arranjos que realçam a voz madura, mais concentrada e menos ansiosa por provar algo. O público veterano encontra a trilha sonora da própria biografia; gerações mais novas, mesmo em menor número, descobrem ao vivo uma obra que molda a música brasileira desde os anos 1980.
Rio de Janeiro, mar e memória
O show no Enel Festival de Inverno Rio, na Marina da Glória, tem sabor especial. A artista se apresenta cercada pelo mar que atravessa sua obra e sua biografia. Carioca radicada em São Paulo, ela não esconde que o Rio segue como porto afetivo e criativo.
“Alguns amigos me falam: ‘Marina, não tem mar só no Rio, você não precisa ir para lá para ver o mar’. Mas o mar que me permeia e que eu quero entrar é o do Rio”, diz, rindo. A frase revela mais que um capricho geográfico: sintetiza a relação entre cidade, memória e criação.
Marina lembra que o começo da carreira se confunde com a paisagem carioca. “Minha vida toda se passava no Rio (no começo da carreira), então, grandes sucessos atemporais da minha obra foram feitos lá, com o meu espírito carioca: ‘Fullgás’, ‘Pra começar’, ‘Acontecimentos’… o Rio me inspira até hoje.” Ao retornar à Marina da Glória, ela cruza fisicamente trechos da cidade que ajudou a eternizar em forma de canção.
Legado, luto e futuro
Por trás da celebração, a turnê também carrega sombras e homenagens. A morte recente do irmão Antonio Cicero, poeta e filósofo, seu grande parceiro musical, acrescenta camadas de melancolia e gratidão ao repertório. Boa parte das canções que o público canta em coro nasceu da parceria dos dois. O desejo de ter músicas “sempre presentes na vida do país” era partilhado por ambos.
A cada apresentação, o aplauso renova esse pacto. A presença forte de hits no repertório ajuda a movimentar casas de show, festivais e o próprio mercado fonográfico, que encontra em turnês como “Marina 70” um fôlego importante para artistas consagrados. Produtores apostam em públicos fiéis, dispostos a pagar por experiências afetivas e não apenas por novidades de temporada.
Ao mesmo tempo, o formato da turnê joga luz sobre um impasse do mercado: a dificuldade em aproximar segmentos mais jovens de uma obra que já nasce clássica para seus fãs originais. A resposta vem menos em números de streaming e mais na construção de uma memória coletiva. Ao manter-se em circulação e lançar um álbum novo, Marina afirma que não cabe nos rótulos usuais de artista “de catálogo”.
Prestes a completar 71 anos, ela segue compondo, gravando e subindo ao palco com a serenidade de quem já não precisa disputar relevância a cada título de parada. A aposta é em consistência e profundidade. Ao fim dos shows, a impressão é de que “Marina 70” não encerra um ciclo, mas inaugura uma fase mais reflexiva e, paradoxalmente, mais livre.
A continuidade da turnê pelo Brasil indica que esse diálogo ainda se expande. O sucesso de bilheteria e a resposta emocionada do público abrem espaço para novos projetos, parcerias e reedições que reforcem o legado de Marina. A artista, que transforma a própria maturidade em matéria-prima, ajuda a empurrar o debate sobre envelhecimento na música para longe dos estereótipos. E sugere, pelo exemplo, que experiência e curiosidade podem dividir o mesmo palco por muito tempo.