Em uma eleição marcada pela insatisfação com os políticos, os eleitores de São Paulo encontraram uma maneira inusitada de protestar: escreveram o nome de um rinoceronte nas cédulas de votação.
O nome era Cacareco. A rinoceronte, uma das principais atrações do recém-inaugurado Zoológico de São Paulo, virou candidata informal a vereadora nas eleições municipais de 1959. O resultado surpreendeu até quem havia ajudado a lançar a ideia: estimativas apontam que ela recebeu entre 95 mil e 100 mil votos.
Oficialmente, porém, Cacareco não foi eleita. Como seu nome não constava entre os candidatos registrados, os votos foram considerados nulos. Mesmo assim, a quantidade estimada revela o tamanho do protesto: seria suficiente para eleger os 15 candidatos mais votados daquele pleito e representar cerca de um terço da Câmara Municipal.
Como um rinoceronte virou candidato a vereador?
A história começou quase como uma brincadeira.
Cacareco havia chegado a São Paulo emprestada pelo Zoológico do Rio de Janeiro para ser uma das atrações do novo zoológico paulistano, na região da Água Funda. Com cerca de cinco anos e aproximadamente 230 quilos, o animal rapidamente chamou a atenção do público.
Foi nesse ambiente que o jornalista Itaboraí Martins, teve a ideia de lançar Cacareco como candidata.
A proposta surgiu durante uma conversa entre Martins, amigos e estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. A brincadeira rapidamente ganhou adesão e deixou de ser apenas uma provocação entre amigos. Começaram a aparecer santinhos com o nome do animal, espalhados pela cidade.
E Cacareco ganhou até jingle eleitoral.
A música dizia:
“Cansados de tanto sofrer/ E de levar peteleco/ Vamos agora responder/ Votando no Cacareco”.
A campanha, que começou de maneira informal, acabou transformando a rinoceronte em um dos personagens mais comentados daquela eleição.

Por que tanta gente votou em Cacareco?
A resposta está menos no animal e mais no sentimento dos eleitores. Cacareco funcionou como uma forma de voto de protesto.
Naquele período, as eleições eram feitas com cédulas de papel. Para escolher um vereador, o eleitor precisava escrever o nome do candidato de sua preferência.
Isso abriu espaço para que os eleitores insatisfeitos registrassem nomes que não estavam oficialmente na disputa. Cacareco acabou se tornando o principal símbolo desse movimento.
Em vez de escolher um candidato tradicional, parte dos eleitores preferiu escrever o nome do rinoceronte como forma de demonstrar descontentamento com os políticos e com a própria Câmara Municipal.
A brincadeira ganhou uma dimensão política que ninguém parecia ter previsto.
Quase 100 mil votos: o tamanho da surpresa
A apuração oficial não registrou Cacareco como candidata. Os votos destinados ao animal foram considerados nulos., mas fiscais acompanharam a votação em diferentes urnas e fizeram estimativas.
O resultado projetado ficou entre 95 mil e 100 mil votos. Para entender o tamanho do fenômeno, basta olhar para os números daquela eleição.
Segundo levantamento histórico, 542 nomes disputavam as vagas de vereador. O candidato mais votado, Manoel de Figueiredo Vaz, do PSP, recebeu 10.214 votos.
Ou seja: a estimativa atribuída a Cacareco seria muitas vezes maior que a votação do candidato que liderou oficialmente a disputa.
Mais do que isso, a quantidade de votos atribuída ao rinoceronte seria suficiente para eleger os 15 primeiros colocados na eleição.
Na prática, Cacareco teria votos para formar uma bancada inteira na Câmara Municipal de São Paulo, cerca de um terço dos vereadores.
Cacareco recebeu votos até fora de São Paulo. O fenômeno não ficou restrito à capital paulista, o nome de Cacareco apareceu em cédulas de outros municípios.
Isso mostra que a história ultrapassou rapidamente os limites da eleição paulistana e se transformou em uma espécie de fenômeno nacional.
A rinoceronte, que havia chegado a São Paulo para participar da inauguração do zoológico, passou a ser conhecida também por uma razão completamente diferente: sua candidatura simbólica.
Mas Cacareco realmente foi eleita?
Não. Apesar da enorme quantidade de votos estimada, Cacareco não assumiu uma cadeira na Câmara Municipal. Os votos foram considerados nulos porque o animal não era uma candidata oficialmente registrada.
Naquele sistema eleitoral, o eleitor escrevia o nome desejado na cédula. Isso permitia manifestações de protesto, mas não transformava automaticamente qualquer nome escrito em uma candidatura válida.
Por isso, Cacareco ficou marcada na história não como uma vereadora de fato, mas como um dos maiores símbolos de voto de protesto da política brasileira.
O governo de São Paulo tentou comprar Cacareco
A história ainda ganhou outro capítulo curioso. Depois da repercussão da votação, o governo de São Paulo tentou comprar o animal. A proposta, porém, não avançou.
O Zoológico do Rio recusou a negociação e Cacareco acabou sendo devolvida ao Rio de Janeiro.
A rinoceronte chegou a ser notícia internacional
O caso chamou tanta atenção que ultrapassou as fronteiras brasileiras. O jornal americano The New York Times publicou informações sobre a votação de Cacareco. A repercussão chegou até a Organização das Nações Unidas.
Em uma crônica publicada em outubro de 1959, o poeta Augusto Frederico Schmidt, que era então embaixador do Brasil na ONU, relatou o espanto de diplomatas e representantes de outros governos diante da história.
Para ele, o episódio representava mais do que uma brincadeira eleitoral: era uma manifestação de inconformismo popular.

O que aconteceu com Cacareco depois da eleição?
A fama política não mudou o destino da rinoceronte. Depois da tentativa frustrada de compra pelo governo paulista, Cacareco retornou ao Zoológico do Rio de Janeiro. Ela morreu em 27 de novembro de 1962, aos oito anos. Décadas depois, a história continuaria viva como um dos episódios mais curiosos da política brasileira.
Cacareco inspirou outros votos de protesto?
Sim. O caso mais famoso depois dela aconteceu quase 30 anos mais tarde.
Em 1988, o chimpanzé Macaco Tião foi lançado como candidato simbólico à Prefeitura do Rio de Janeiro pela revista humorística Casseta Popular, com apoio de Fernando Gabeira.

Segundo estimativas da época, Tião teria recebido cerca de 400 mil votos e ficado em terceiro lugar caso sua candidatura tivesse sido válida. Assim como Cacareco, porém, os votos não produziram uma eleição oficial.
Cacareco e Macaco Tião acabaram se tornando referências de uma tradição peculiar da política brasileira: usar o voto para mandar um recado aos candidatos e aos partidos.

O que a história de Cacareco revela sobre a política brasileira?
Mais de seis décadas depois, a história continua chamando atenção justamente porque não era apenas uma piada. O rinoceronte não tinha propostas, partido, comício ou programa de governo. Mas tinha algo que os eleitores queriam demonstrar: insatisfação.
A candidatura nasceu de uma brincadeira, mas encontrou terreno fértil em um ambiente de descontentamento político.
Ao escrever “Cacareco” na cédula, o eleitor não estava necessariamente defendendo o animal como governante. A mensagem era outra: entre os nomes disponíveis, havia quem preferisse votar em um rinoceronte ou em um macaco, no caso do Rio de Janeiro.
O episódio mostrou que uma eleição também pode ser utilizada para protestar, ironizar e demonstrar rejeição. E fez isso muito antes de as redes sociais transformarem memes políticos em fenômenos capazes de alcançar milhões de pessoas em poucas horas.
ENTENDA O CONTEXTO
Cacareco era uma rinoceronte fêmea nascida em 1954 no Zoológico do Rio de Janeiro. Ela foi emprestada para São Paulo e se tornou uma das atrações do recém-inaugurado zoológico da cidade.
Em 1959, jornalistas, estudantes e outros apoiadores lançaram informalmente seu nome para a disputa pela Câmara Municipal como forma de protesto contra os políticos.
A ideia ganhou força e Cacareco apareceu em cédulas de votação.
As estimativas apontam entre 95 mil e 100 mil votos, mas oficialmente todos foram anulados. O volume estimado seria suficiente para eleger os 15 candidatos mais votados daquela eleição.
Cacareco voltou ao Rio de Janeiro, morreu em 1962 e ficou conhecida como um dos maiores símbolos de voto de protesto da política brasileira.
A história também ajudou a criar um precedente para outros episódios semelhantes, como o do Macaco Tião, lançado como candidato simbólico à Prefeitura do Rio em 1988