Crise bilionária na Postal Saúde ameaça 189 mil usuários do SUS

Plano dos Correios enfrenta perdas graves, colocando em risco atendimento de milhares de usuários do SUS.
Redação NC News
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O plano de saúde dos Correios, a Postal Saúde, fecha 2025 com um rombo de R$ 844 milhões e dívidas de R$ 1,1 bilhão, enquanto o Ministério da Saúde expande, a partir desta terça-feira (4), o teleatendimento em saúde mental para dependentes de apostas, com capacidade de até 100 mil atendimentos mensais pelo SUS.

Os dois movimentos correm em sentidos opostos. A crise da operadora ligada a uma estatal ameaça o acesso à saúde de 189 mil trabalhadores e dependentes. A ampliação do serviço remoto de cuidado psicológico tenta dar resposta a um problema em alta: o avanço dos transtornos ligados a jogos e apostas digitais.

Rombo bilionário atinge 189 mil usuários do plano dos Correios

Os demonstrativos da Postal Saúde mostram um plano asfixiado pela dependência financeira dos Correios, que acumulam 15 trimestres seguidos de prejuízo. A estatal interrompeu e atrasou repasses em 2025, e a operadora decidiu reconhecer como perda R$ 865 milhões que não espera mais receber da mantenedora.

Esse ajuste contábil fez explodir a despesa com provisão para perdas. “No exercício de 2025, a despesa com provisão de perda alcançou R$ 857.466.468 milhões contra R$ 350.341 mil de 2024. A variação no grupo deve-se, sobretudo, à ausência de repasses financeiro por parte do Mantenedor, obrigando a Operadora reconhecer a possível perda”, registra a administração da Postal Saúde.

O baque aparece no balanço patrimonial. Os ativos – dinheiro em caixa, aplicações e valores a receber – despencam 65%, de R$ 557 milhões para R$ 193 milhões. No mesmo período, o passivo salta 85%, de R$ 568 milhões para R$ 1,1 bilhão. Parte dos recursos disponíveis foi consumida para pagar a rede credenciada e manter a operação funcionando, apesar do corte nos aportes.

O alerta interno é claro. “Observando o atual cenário econômico do Mantenedor [Correios], é imprescindível” reavaliar se os riscos estão de fato cobertos, afirma a direção da operadora. No mesmo trecho, a administração sustenta que a empresa pública “deve garantir legalmente e financeiramente os riscos da Postal Saúde perante a Autarquia reguladora”.

Correios socorrem plano, mas risco de colapso persiste

Diante da deterioração, os Correios fazem neste ano um aporte equivalente a cerca de 50% dos passivos em aberto da Postal Saúde. O dinheiro alivia a pressão imediata e abre negociação com hospitais, laboratórios e clínicas que não recebiam em dia. Ainda assim, a situação segue frágil e cercada de incertezas.

Beneficiários relatam dificuldade para marcar consultas e procedimentos em parte da rede credenciada. As queixas ganham corpo na Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS): as reclamações contra a Postal Saúde crescem 44% no primeiro semestre de 2026, em comparação com igual período do ano passado.

O risco maior é de um círculo vicioso. Se os repasses voltarem a falhar, a operadora projeta aumento nas despesas assistenciais, mais ações judiciais e intensificação da fiscalização da ANS, o que pode comprometer sua estrutura de atendimento. Em última instância, trata-se da continuidade do plano de saúde de quase 190 mil pessoas, muitas delas com doenças crônicas ou em tratamento contínuo.

Esse quadro também ameaça sobrecarregar o sistema público. Quanto mais frágil o plano de uma estatal, maior a probabilidade de migração de demandas para o SUS, sobretudo em regiões onde os Correios são um dos principais empregadores formais.

SUS abre frente digital no cuidado a dependentes de apostas

Enquanto a saúde suplementar ligada a estatais patina, o SUS lança uma nova frente de atuação em saúde mental. O Ministério da Saúde amplia, a partir desta terça, de 600 para até 100 mil por mês a capacidade de teleatendimentos para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas.

O serviço, que começou em fase piloto em março em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, passa a atender em escala nacional por meio do aplicativo Meu SUS Digital. “O serviço inclui atendimento remoto, sigiloso e acolhedor, com orientação e acompanhamento profissional, além de suporte a familiares”, descreve a pasta.

O salto na oferta tenta acompanhar a explosão da demanda. Mais de 1 milhão de brasileiros já pediram autoexclusão de plataformas de apostas, bloqueando o próprio CPF. Entre eles, 35% relatam perda de controle sobre o jogo, um dos critérios para suspeita de transtorno.

No auge recente da exposição ao tema, durante o Mundial de Seleções, foram 387.645 pedidos de bloqueio de CPF. Os dados ajudam a dimensionar o tamanho do fenômeno e explicam a decisão do governo de montar um corredor direto entre o aplicativo e a Rede de Atenção Psicossocial (Raps), que reúne 3.120 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) em funcionamento no país.

Videochamadas semanais e porta de entrada para a rede

O desenho do programa aposta na combinação de tecnologia e capilaridade do SUS. Pela tela do celular, o usuário agenda sessões semanais de cerca de 50 minutos, em videochamadas, com equipe treinada em dependência de jogos e apostas. Em casos mais graves ou com outras comorbidades, o profissional encaminha o paciente para atendimento presencial na Raps.

Embora a campanha foque apostadores, o atendimento inclui familiares, que costumam ser os primeiros a notar sinais de alerta: alterações bruscas de sono e humor, ansiedade intensa, dificuldade em reduzir o tempo de jogo, culpa persistente e rombos financeiros que se repetem. A lógica é intervir antes que dívidas e conflitos escalem para situações-limite.

A aposta do Ministério da Saúde é que o teleatendimento reduza barreiras clássicas de acesso ao cuidado em saúde mental, como vergonha, medo de exposição e falta de serviços especializados em cidades pequenas. A oferta remota e sigilosa mira também públicos que dificilmente procurariam um Caps logo de início, em especial homens jovens que apostam pelo celular.

Saúde mental em foco após caso Darino Sena

O reforço das políticas públicas ocorre em meio a episódios que recolocam a saúde mental no centro do debate público. Nos últimos dias, imagens do ex-apresentador da TV Globo Darino Sena, aparentemente desorientado no Centro Histórico de Salvador, se espalham por redes sociais. Ele é atendido pelo Samu após um aparente surto psicológico.

A família divulga nota pedindo respeito e descrevendo o acompanhamento médico. “Problemas de saúde mental podem afetar qualquer ser humano, e é em nome dessa humanidade que pedimos a devida seriedade, acolhimento e empatia de todos — seja dos colegas jornalistas, seja das pessoas que acompanham a sua carreira de mais de 20 anos na imprensa”, afirma o texto.

O caso funciona como lembrete de que crises emocionais não se restringem a dependentes de drogas, álcool ou apostas. O recado da família, ao recusar o sensacionalismo, converge com o discurso oficial de que cuidar da mente é tarefa de saúde pública, não tema de fofoca.

Nos Correios, na rede privada credenciada à Postal Saúde, nos Caps ou nas videochamadas do Meu SUS Digital, a pressão tende a aumentar. A crise financeira da estatal ainda deve alimentar negociações sindicais e discussões sobre novos aportes. A expansão do teleatendimento, por sua vez, inaugura um laboratório em larga escala: o resultado pode definir se a saúde mental digital se consolida como política de Estado ou fica restrita a resposta emergencial a um vício da moda.

O que causou o prejuízo de R$ 844 milhões no plano de saúde dos Correios em 2025?

O prejuízo de R$ 844 milhões da Postal Saúde em 2025 decorre principalmente da interrupção e atraso nos repasses dos Correios, que levaram a operadora a reconhecer como perda R$ 865 milhões que não espera mais receber, fazendo as provisões para calotes saltarem e derrubando seus ativos em 65%.

Qual é o estado atual de saúde do ex-apresentador da Globo após o surto?

O ex-apresentador Darino Sena está sob cuidados médicos e recebendo o suporte necessário, segundo nota divulgada pela família, após um aparente surto psicológico registrado em Salvador, e seus parentes pedem seriedade, acolhimento, empatia e respeito à privacidade na divulgação de informações sobre sua condição de saúde mental.

Como o Ministério da Saúde está ampliando o teleatendimento para dependentes de apostas?

O Ministério da Saúde amplia a partir desta terça (4) a capacidade de teleatendimentos em saúde mental para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas de 600 para até 100 mil consultas mensais, usando o aplicativo Meu SUS Digital como porta de entrada para atendimentos sigilosos e encaminhamentos à Rede de Atenção Psicossocial.

Como funciona o novo app do Ministério da Saúde para atendimento a viciados em jogos e apostas?

O atendimento a pessoas com problemas ligados a apostas funciona pelo app Meu SUS Digital, onde o usuário agenda sessões semanais de cerca de 50 minutos por videochamada com profissionais capacitados, recebe orientação sigilosa, suporte a familiares e, quando necessário, é encaminhado para atendimento presencial na Rede de Atenção Psicossocial.


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