Menor área de trigo em nove anos aumenta dependência do Brasil das importações

Produção nacional menor pode elevar necessidade de compras externas e deixar farinha, pão, massas e biscoitos mais expostos ao mercado internacional
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A área destinada ao cultivo de trigo no Brasil em 2026 é a menor desde 2017, segundo levantamento do Cepea. A redução da área, somada a uma perspectiva de menor produção, deve aumentar a dependência brasileira do mercado internacional na temporada 2026/27.

O cenário chama atenção porque o trigo é um dos produtos agrícolas mais importantes para a alimentação brasileira. Ele está presente diretamente na farinha utilizada em pães, massas, biscoitos, bolos e diversos produtos industrializados.

Ou seja: uma mudança que começa no campo pode chegar à padaria, ao supermercado e ao orçamento das famílias.

Menos trigo produzido aqui, mais trigo vindo de fora

A Conab estima uma produção brasileira de aproximadamente 5,8 milhões de toneladas de trigo em 2026, uma redução expressiva em relação à safra anterior. A área plantada também recuou, refletindo menor interesse dos produtores diante das condições de mercado e das incertezas climáticas.

Ao mesmo tempo, a necessidade de importação aumenta.

Para a temporada 2026/27, a estimativa citada pelo Cepea, com base em projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), aponta para 7,5 milhões de toneladas de trigo importadas pelo Brasil entre outubro de 2026 e setembro de 2027. Nesse cenário, o país poderia chegar à quarta posição entre os maiores importadores mundiais do cereal.

A própria Conab trabalha com uma estimativa de importações próxima disso: 7,1 milhões de toneladas na temporada, o maior volume desde 2006/07, segundo as projeções mais recentes divulgadas neste mês.

O que isso pode significar para o preço do pão?

É importante evitar uma conclusão automática: menor produção brasileira não significa que o pão vai subir imediatamente de preço.

O preço que chega ao consumidor depende de vários fatores: custo do trigo, câmbio, frete, energia, moagem, embalagens, mão de obra, impostos e margem dos diferentes elos da cadeia.

Mas a maior dependência das importações aumenta a exposição do mercado brasileiro às oscilações internacionais.

Se o trigo subir no exterior ou o real se desvalorizar frente ao dólar, por exemplo, o custo de reposição para os moinhos brasileiros pode aumentar.

Esse impacto tende a aparecer primeiro na cadeia industrial e, dependendo da intensidade e da duração do movimento, pode chegar aos produtos feitos com farinha.

Uma questão que vai além do preço

O ponto mais importante é que o Brasil não é autossuficiente em trigo.

Historicamente, o país precisa importar parte significativa do cereal que consome. Por isso, a produção doméstica funciona como uma espécie de primeira camada de proteção: quanto maior a oferta nacional, menor tende a ser a necessidade de recorrer ao mercado externo.

Quando essa produção diminui, a dependência aumenta.

E aí entra a geopolítica.

Argentina continua sendo peça-chave

O Brasil possui uma vantagem estratégica por estar inserido no Mercosul, especialmente pela proximidade com a Argentina, tradicionalmente seu principal fornecedor de trigo.

Dados do USDA mostram que, no primeiro semestre de 2026, cerca de 73% das importações brasileiras de trigo vieram da Argentina. Na sequência apareceram Paraguai, com 14%, e Uruguai, com 6%.

Essa concentração tem uma explicação econômica: proximidade geográfica, custos logísticos menores e a relação comercial estabelecida entre os países.

Mas também significa que problemas na produção argentina — como clima adverso, queda de produtividade ou mudanças nas condições de exportação — podem repercutir diretamente no mercado brasileiro.

Rússia e outros fornecedores ganham espaço

Com a necessidade crescente de importações, o Brasil também vem ampliando a diversificação de fornecedores.

A Rússia, por exemplo, ganhou espaço no mercado brasileiro de trigo nos últimos anos. Outros países também podem participar desse abastecimento, dependendo de preço, qualidade, logística e condições comerciais.

Essa diversificação pode ser positiva porque reduz a dependência de um único fornecedor.

Ao mesmo tempo, amplia a exposição do Brasil a acontecimentos que acontecem muito longe daqui: guerras, sanções econômicas, restrições de exportação, problemas climáticos, custos de frete e variações cambiais.

O trigo, portanto, é um bom exemplo de como uma commodity agrícola pode conectar diretamente o campo brasileiro à geopolítica mundial.

Do campo brasileiro ao supermercado

Para o consumidor, toda essa discussão pode parecer distante, mas ela está presente em produtos cotidianos.

Um aumento do custo do trigo pode pressionar despesas de padarias, fábricas de massas, biscoitos, bolos e outros alimentos industrializados.

Mas o movimento contrário também é possível. Se houver maior oferta mundial, preços internacionais mais baixos e um câmbio favorável ao real, a importação pode ajudar a conter os custos mesmo com uma produção nacional menor.

Por isso, não é possível afirmar neste momento que a menor área de trigo vai provocar, sozinha, uma alta no preço do pão.

O que os dados mostram é que o Brasil estará mais exposto ao comportamento do mercado internacional na próxima temporada.

O desafio para o produtor brasileiro

A redução da área cultivada também traz uma questão estratégica para o próprio agronegócio.

O trigo compete por área com outras culturas e precisa oferecer ao produtor uma combinação atrativa de preço, produtividade, risco e rentabilidade.

Se o produtor encontra condições melhores em outras culturas, pode reduzir a área de trigo. O resultado é uma oferta doméstica menor — e, consequentemente, uma necessidade maior de importação.

Para ampliar a produção nacional no longo prazo, portanto, não basta simplesmente aumentar a área. É preciso melhorar produtividade, genética, manejo, adaptação climática, rentabilidade e previsibilidade de mercado.

Um mercado para acompanhar

O cenário da safra 2026/27 coloca o trigo no radar de produtores, moinhos, indústria de alimentos e consumidores.

O Brasil continuará produzindo trigo, mas deverá precisar de uma parcela ainda maior do mercado internacional para completar seu abastecimento.

E isso transforma uma questão aparentemente agrícola em uma questão de segurança alimentar, inflação, comércio exterior e estratégia econômica.

No prato do brasileiro, essa discussão pode aparecer de uma forma bastante simples: no preço da farinha, do pão, da massa e do biscoito.

Fonte: Cepea/Esalq-USP, Conab e USDA.

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