O Brasil passa a autorizar, a partir desta sexta-feira (21), o uso do chamado “drogômetro” nas blitze da Lei Seca, permitindo a detecção rápida de drogas em motoristas por meio de saliva.
Os equipamentos entram como complemento ao bafômetro e prometem atacar um ponto cego da fiscalização atual: o condutor que não bebe, mas dirige sob efeito de substâncias psicoativas.
O que muda nas blitze e por que isso importa
O drogômetro é um dispositivo portátil que realiza uma triagem toxicológica a partir do fluido oral. O agente de trânsito coleta a saliva com um pequeno dispositivo descartável, que é encaixado no aparelho para leitura imediata.
A diferença central em relação aos testes tradicionais, como o de urina, está no tempo. A saliva registra o consumo recente de drogas com janela de detecção próxima à do sangue, mas sem agulhas ou coleta invasiva. Na prática, a fiscalização ganha agilidade e precisão.
Para especialistas em segurança viária e saúde pública, a mudança reduz o risco de motoristas sob efeito de maconha, cocaína e outros entorpecentes seguirem ilesos pelas operações da Lei Seca. A aposta é que a sensação de impunidade diminua, especialmente em rodovias e grandes centros urbanos.
Prática já consolidada em outros países
O drogômetro não nasce no improviso. O equipamento já integra rotinas de fiscalização em países como Estados Unidos, Canadá, Espanha, França, Noruega, Bélgica, Alemanha, Itália e Reino Unido, entre outros.
Thiago Itida, psicólogo especialista em dependência química e cofundador do Grupo Prev One Diagnóstico e Prevenção, lembra que o Brasil chega atrasado, mas se alinha a uma tendência consolidada.
“Hoje, esse tipo de rastreamento de substâncias psicoativas no trânsito já é uma realidade em diversos países, como Itália, Reino Unido e Estados Unidos. Portanto, não é uma metodologia experimental, mas um procedimento que já faz parte das estratégias de fiscalização e segurança viária em diferentes mercados”, afirma.
A Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet) destaca que, no Reino Unido, o teste salivar funciona como triagem: se o resultado dá positivo, o condutor é encaminhado para coleta de sangue, usada como prova em eventual processo judicial.
No Canadá, a lógica é semelhante. O teste com fluido oral feito na beira da estrada ajuda a embasar medidas seguintes, como avaliação por policial especializado em reconhecimento de drogas ou exigência de amostra sanguínea.
Tecnologia avançada, custo alto
A resolução que atualiza a Lei Seca não fixa um modelo específico de equipamento. O mercado oferece diferentes tecnologias, com variação no número e no tipo de substâncias detectadas. Entre as fornecedoras presentes no país estão multinacionais que já abastecem forças policiais de vários continentes.
O ponto sensível é o preço. O custo de cada drogômetro pode chegar a cinco vezes o valor de um bafômetro, o que coloca pressão sobre orçamentos estaduais e municipais de trânsito. Em um cenário de restrição fiscal, a adoção tende a ser gradual, com prioridade para grandes cidades, rodovias federais e operações especiais.
Secretarias de Segurança e de Transportes estudam modelos de financiamento para ampliar o alcance da nova tecnologia. Parcerias com o setor privado, uso de verbas de multas e linhas de crédito específicas aparecem entre as alternativas discutidas por gestores.
Benefícios esperados e desafios práticos
A chegada do drogômetro é vista por especialistas como um reforço importante à política de tolerância zero ao volante. O principal beneficiado é o usuário da via, que passa a contar com uma fiscalização mais próxima do risco real causado por substâncias psicoativas.
Hospitais e serviços de emergência podem sentir, a médio prazo, impacto positivo na redução de internações e mortes ligadas a acidentes com condutores drogados. A expectativa é que a medida ajude a frear colisões noturnas e em fins de semana, quando o consumo recreativo costuma ser maior.
O outro lado dessa equação envolve treinamento e protocolos. Agentes de trânsito precisarão ser capacitados para operar os equipamentos, interpretar resultados e conduzir procedimentos de confirmação laboratorial quando necessário. Órgãos de trânsito discutem parâmetros para garantir cadeia de custódia das amostras e validade jurídica das provas.
A Abramet cobra definições claras sobre quando o teste salivar basta como indício e em quais situações será obrigatória a coleta de sangue. A precisão técnica do equipamento e a forma de armazenamento dos dados também entram no debate, para evitar contestações em massa na Justiça.
Alinhamento internacional e próximos passos
A atualização da Lei Seca aproxima o Brasil de padrões internacionais de segurança viária, inclusive em países que legalizam ou descriminalizam o uso recreativo de maconha, mas mantêm rigor absoluto contra dirigir sob efeito da droga.
A decisão tende a movimentar o mercado de tecnologia para fiscalização de trânsito. Com a demanda oficializada, empresas podem investir em versões mais baratas e adaptadas à realidade brasileira, reduzindo gradualmente a diferença de custo em relação ao bafômetro.
Nos próximos meses, órgãos federais, estaduais e municipais precisam detalhar protocolos operacionais, definir metas de aquisição e integrar o drogômetro a campanhas educativas. A eficácia da medida vai depender menos do anúncio e mais da escala: quantos aparelhos chegarão às ruas, e com que frequência serão usados.
O resultado prático só aparece com tempo, estatística e transparência. A partir de agora, o desafio é transformar um instrumento tecnológico caro em política pública consistente, capaz de reduzir acidentes e mortes e de provar, com dados, que o reforço na Lei Seca vale o investimento.