Recuperação judicial cresce 20% no varejo; consumidor pode ficar no prejuízo?

Casas Bahia, Marabraz, Tok&Stok e Mobly estão entre as grandes empresas que enfrentam dificuldades financeiras; número de varejistas em recuperação judicial cresceu mais de 20% em um ano
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Quem acompanha as notícias sobre economia pode ter a impressão de que, de uma hora para outra, grandes empresas começaram a pedir socorro à Justiça.

Primeiro, foi o Grupo Toky, dono da Tok&Stok e da Mobly. Em agosto, vieram os pedidos das Lojas Marabraz e do Grupo Casas Bahia, que reúne marcas conhecidas dos brasileiros, como Casas Bahia e Ponto Frio.

Não são casos isolados. O varejo brasileiro encerrou o primeiro semestre de 2026 com 986 empresas em recuperação judicial, número 20,4% maior do que o registrado 12 meses antes. O setor responde por 12,4% das empresas que estão nessa situação no país.

E o movimento chama ainda mais atenção quando se olha para os pedidos registrados no segundo trimestre: foram 986 contra 819 no mesmo período de 2025, segundo o levantamento utilizado como base para esta reportagem , uma alta de cerca de 20%.

Mas o que está por trás dessa onda de pedidos? E, principalmente: o que muda para quem comprou de uma empresa que entrou em recuperação judicial?

Varejo enfrenta uma combinação de problemas

A dificuldade enfrentada pelas empresas não tem uma única causa. Juros elevados encarecem empréstimos e financiamentos. O consumidor também sente o impacto, já que o crédito fica mais caro e uma parcela maior da renda pode ser comprometida com dívidas.

No varejo, o problema é ainda maior para empresas que dependem de vendas parceladas e precisam financiar estoques e operações. Além disso, houve uma mudança profunda no comportamento de quem compra.

A pandemia também acelerou uma transformação no varejo. O consumidor passou a comprar mais pela internet e descobriu a praticidade de pesquisar preços e receber produtos em casa.

Para as redes tradicionais, isso significa manter estruturas físicas e, ao mesmo tempo, investir na operação digital para disputar espaço com concorrentes que já nasceram no ambiente on-line.

Segundo o advogado especialista em recuperação judicial Bernardo Bicalho, o aumento dos pedidos é resultado de uma combinação de fatores econômicos e estruturais.

“Em 2026, o Brasil vem enfrentando um aumento significativo do número de pedidos de recuperação judicial no país. Isso tem causas variadas, não focadas única e exclusivamente em um motivo, mas são multifatoriais.”, afirma

O especialista cita entre os fatores a carga tributária, os juros elevados, a escassez de mão de obra, a volatilidade das commodities e do câmbio e os impactos da guerra na Ucrânia sobre insumos e matérias-primas.

Juros altos também apertam o consumidor

A dificuldade das empresas também passa pelo bolso das famílias. Quando o crédito fica mais caro e o orçamento doméstico está comprometido, compras de maior valor, como móveis, eletrodomésticos e eletrônicos, podem ser adiadas.

Esse cenário atinge especialmente empresas que construíram seus negócios com base em compras parceladas e crediário. No caso da Casas Bahia, por exemplo, o pedido de recuperação judicial envolve uma dívida de aproximadamente R$ 17,3 bilhões. A companhia também anunciou medidas de redução de custos, incluindo fechamento de lojas e cortes no quadro de funcionários.

Afinal, o que é recuperação judicial?

Apesar de o termo assustar, recuperação judicial não significa que a empresa fechou as portas ou que a falência já foi decretada.

O mecanismo existe justamente para tentar evitar esse desfecho. A empresa que enfrenta uma crise financeira pode recorrer à Justiça para reorganizar as dívidas e apresentar uma proposta de pagamento aos credores.

Segundo Bernardo Bicalho, a recuperação judicial funciona como uma ferramenta para permitir que a empresa ganhe tempo e reorganize a própria atividade.

“A recuperação judicial é, nada mais, nada menos do que uma ferramenta jurídica utilizada pelo empresário para reorganizar a sua atividade empresarial e propor aos seus credores um plano de pagamento que, se aprovado na Assembleia de Credores, fará com que o empresário tenha um fôlego para reorganizar a sua empresa e retomar a sua atividade econômica.”, explica o advogado

A legislação brasileira estabelece que a recuperação judicial busca permitir a superação da crise econômico-financeira da empresa, preservando a atividade empresarial, os empregos e os interesses dos credores.

Pedir recuperação não é o mesmo que ter o pedido aceito

Aqui existe uma diferença importante. Quando uma empresa anuncia que entrou com pedido de recuperação judicial, isso não significa que a Justiça já autorizou o processo.

Primeiro, a companhia precisa apresentar a documentação exigida e demonstrar que atende aos requisitos previstos na legislação. A Justiça então analisa o caso e decide se defere o processamento da recuperação.

Foi exatamente essa diferença que chamou atenção no caso da Casas Bahia: o pedido foi protocolado e passou a ser analisado pela Justiça. Depois do deferimento do processamento, a empresa precisa apresentar um plano de recuperação.

É nesse documento que ela mostra como pretende reorganizar as contas e pagar os credores. A proposta pode envolver mudanças nos prazos e condições de pagamento.

Segundo Bicalho, é comum que os planos apresentados pelas empresas proponham alterações significativas na forma de pagamento das dívidas.

“Nesse plano de recuperação judicial, na grande maioria das vezes, o empresário propõe uma redução do valor da dívida, uma carência para pagamento e um prolongamento desse pagamento ao longo dos anos.”, detalha

O plano precisa seguir as regras previstas na legislação e, conforme o caso, ser submetido aos credores.

E o consumidor? Pode sair prejudicado?

Essa é uma das principais dúvidas de quem comprou de uma empresa que entrou em recuperação judicial. Imagine, por exemplo, uma pessoa que pagou por um móvel, um eletrodoméstico ou outro produto e não recebeu a mercadoria.

Ou alguém que tem um valor para receber de uma empresa que entrou em recuperação.

Nessas situações, o consumidor pode ter um crédito contra a companhia e precisa entender como esse valor será tratado dentro do processo. Por isso, guardar os documentos da compra é fundamental.

A recuperação judicial não significa que a empresa está proibida de vender produtos ou prestar serviços. Pelo contrário: a proposta do mecanismo é justamente permitir que ela continue funcionando enquanto tenta reorganizar as finanças.

Mas isso não significa que o consumidor deva ignorar os sinais de dificuldade.

Em compras de valor elevado, é importante verificar as condições de entrega, guardar comprovantes e evitar assumir compromissos que possam gerar problemas caso a empresa tenha dificuldades para cumprir o contrato.

E se a empresa não conseguir se recuperar?

A recuperação judicial é uma tentativa de evitar a falência, mas não existe garantia de que o negócio será salvo.

Se a empresa não conseguir cumprir o plano ou se ficar demonstrado que não há condições de recuperação, o processo pode chegar à falência, conforme as situações previstas na legislação.

Por isso, o momento da recuperação judicial é justamente uma tentativa de reorganizar a empresa antes que a crise se torne irreversível.

Como o consumidor deve se proteger?

Para quem já comprou de uma empresa que enfrenta dificuldades, a recomendação é reunir toda a documentação.

Nota fiscal, comprovante de pagamento, contrato, pedido de compra, protocolos de atendimento, e-mails e mensagens podem ser importantes para comprovar a relação com a empresa.

E, caso exista um produto não entregue ou um valor a receber, é importante buscar orientação para entender se existe um processo de recuperação judicial e como aquele crédito deve ser apresentado.

 

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