Setembro Amarelo: o que está por trás do aumento dos suicídios no Brasil?

Especialista explica os fatores que podem agravar o sofrimento emocional, os sinais de alerta e a importância de buscar ajuda diante de um cenário de crescimento dos casos no país
Redação NC News
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ATENÇÃO: Esta reportagem aborda saúde mental e suicídio, temas que podem ser sensíveis para algumas pessoas. Se você estiver passando por um momento de sofrimento emocional ou pensar em tirar a própria vida, procure ajuda. O Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia. Também é possível buscar atendimento na rede pública de saúde.

O mês de setembro chega acompanhado de uma discussão que ganhou espaço nos últimos anos, mas ainda está longe de ser encerrada: como prevenir o suicídio e fazer com que pessoas em sofrimento consigam pedir ajuda antes que a situação se agrave?

O Setembro Amarelo amplia essa conversa justamente em um momento em que os números mostram a dimensão do problema. Em 2025, 16.533 pessoas morreram por suicídio no Brasil, o equivalente a uma média de 45 mortes por dia. Em Minas Gerais, foram 1.987 registros, o segundo maior número absoluto entre os estados, atrás apenas de São Paulo.

Os dados também mostram que o problema não é recente. Entre 2020 e 2025, o número de mortes por suicídio no país aumentou 25,6%. O ano passado terminou com o maior número de registros da série analisada.

Em Minas, a taxa foi de 9,29 mortes por 100 mil habitantes, acima da média nacional, de 7,75. Quando o número de habitantes é levado em consideração, o estado aparece na oitava posição entre as 27 unidades da Federação.

Mas os números são apenas uma parte dessa história. Por trás de cada registro existe uma pessoa, uma família e, muitas vezes, um sofrimento que não foi percebido ou que não encontrou espaço para ser verbalizado.

É justamente nesse ponto que especialistas e organizações que trabalham com saúde mental tentam atuar: entender o que leva ao agravamento do sofrimento, reconhecer os sinais e facilitar o acesso à ajuda.

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O que está por trás dos números

Para entender por que os casos de suicídio continuam crescendo e quais fatores podem levar uma pessoa a chegar a uma situação de extremo sofrimento, é preciso olhar para além das estatísticas.

A psicóloga Ana Luiza Bolívar explica que não existe uma única causa por trás do agravamento do sofrimento mental. Segundo ela, o cenário envolve fatores individuais, familiares, sociais e até econômicos. A profissional também aponta que o período pós-pandemia trouxe mais espaço para falar sobre saúde mental e temas que antes eram tratados como tabus.

Entre os fatores citados pela psicóloga estão o aumento de transtornos emocionais, como ansiedade e depressão, a pressão por alta performance, problemas familiares, questões sociais e culturais e dificuldades relacionadas à renda.

“Hoje a gente vive num mundo muito acelerado, onde cobra uma alta performance, tanto no trabalho quanto na vida pessoal. Então são alguns pontos que a gente pode ir percebendo que vão de alguma forma afetando a saúde mental.”, explica

Ana também chama atenção para situações de ruptura, como luto, divórcio e perda de emprego, que podem aumentar a vulnerabilidade emocional.

“Tem também questões muito pessoais de rupturas, então, por exemplo, o luto de uma pessoa querida, isso traz um aumento de depressão muito grande, que eu acredito que seja intensificado por esse rompimento, divórcios, a gente sabe também que na pandemia o número de divórcio aumentou de uma forma considerável, as próprias mortes.”, afirma

A especialista explica ainda que a depressão não deve ser tratada como simples tristeza ou falta de vontade. Segundo ela, o quadro pode envolver alterações químicas no cérebro e, sem acompanhamento adequado, se intensificar.

“A depressão é um processo químico do cérebro mesmo, não é só apenas emocional, é algo que parte para o mental também. (…) Então, quando você está em um quadro deprimido, depressivo, é uma alteração química do cérebro, não é só um estado sentimental, não é só emocional, tem sim uma alteração química no cérebro.”, complementa

Com o agravamento do quadro, podem aparecer isolamento, sentimento de impotência, insegurança e baixa autoestima.

“E aí vem, junto com a depressão, vem o isolamento, o sentimento também de impotência, de insegurança, vem baixa autoestima, vem aquele sentimento de que você não dá conta.”, argumenta

A discussão é importante porque não existe uma causa única para o suicídio. Situações de crise podem envolver diferentes fatores e devem ser analisadas individualmente, sem julgamentos ou simplificações.

Minas tem segunda maior quantidade de mortes

Em números absolutos, Minas Gerais ficou atrás apenas de São Paulo em 2025. O estado paulista registrou 2.995 mortes, enquanto Minas teve 1.987. Na sequência apareceram Rio Grande do Sul, com 1.448; Santa Catarina, com 968; e Rio de Janeiro, com 943.

A quantidade absoluta, porém, precisa ser analisada com cautela. Estados mais populosos naturalmente podem apresentar mais registros mesmo quando a proporção de mortes em relação à população é menor.

Por isso, a taxa por 100 mil habitantes também é importante.

Em Minas Gerais, foram 9,29 mortes por 100 mil habitantes em 2025, acima da média brasileira de 7,75.

O Rio Grande do Sul apresentou a maior taxa do país, com 12,89 mortes por 100 mil habitantes, seguido pelo Piauí, com 12,56, e Santa Catarina, com 11,82.

Brasil registrou 16.533 mortes por suicídio em 2025, maior número da série histórica; Minas Gerais teve 1.987 casos e ficou em segundo lugar entre os estados. | Arte: NC News / Fonte: DATASUS

O que os dados revelam sobre o Brasil

O cenário nacional também chama atenção pela evolução dos últimos anos.

Em 2020, o Brasil registrou 13.163 mortes por suicídio. Cinco anos depois, o número chegou a 16.533, um aumento de 25,6%.

O crescimento ocorreu praticamente de forma contínua. Em 2024, houve uma pequena redução, com 16.412 registros. No ano seguinte, porém, o número voltou a subir e alcançou o maior patamar da série.

A taxa também aumentou: passou de 6,29 mortes por 100 mil habitantes em 2020 para 7,75 em 2025, uma alta acumulada de 23,2%.

Regionalmente, o Sudeste concentrou o maior número absoluto de mortes, com 6.284 registros. Depois aparecem Nordeste, com 4.027; Sul, com 3.142; Centro-Oeste, com 1.686; e Norte, com 1.394.

Quando a população é considerada, o Sul passa a apresentar o maior índice regional, com 10,03 mortes por 100 mil habitantes.

Setembro amplia a conversa sobre prevenção

O Setembro Amarelo surgiu no Brasil como uma campanha voltada à conscientização sobre saúde mental e prevenção do suicídio. As ações realizadas no país desde 2015 envolvem o Centro de Valorização da Vida (CVV), a Associação Brasileira de Psiquiatria e o Conselho Federal de Medicina.

A proposta é colocar o tema em discussão, combater o silêncio e estimular a busca por ajuda.

A campanha também reforça que cuidar da saúde mental não deve ser uma atitude tomada somente diante de uma emergência. O acompanhamento pode começar quando uma pessoa percebe que não está conseguindo lidar sozinha com aquilo que está vivendo.

A procura por ajuda também aumentou

Enquanto os registros de suicídio preocupam, outro movimento chama atenção: o aumento da procura por apoio emocional.

Em Belo Horizonte, dados do SOS Preces, associação sem fins lucrativos que oferece apoio emocional, mostram que a média diária de ligações passou de 55 no segundo semestre de 2020 para 166 em 2026.

O crescimento é de pouco mais de 200%.

Buscar ajuda e encontrar um espaço de escuta qualificada pode ser um passo importante para quem enfrenta sofrimento emocional. | Foto: Reprodução

Pedir ajuda também é prevenção

A procura continua aumentando. Em 2025, a entidade recebeu 44.308 ligações durante todo o ano. Nos primeiros sete meses de 2026, já foram registradas 29.921 chamadas.

A média diária nesse período está 35,1% acima da registrada em 2025. Minas Gerais representa a maior parcela das ligações recebidas pelo SOS Preces, com 72% dos atendimentos. Na sequência aparecem Rio de Janeiro, com 11%; Bahia, com 6%; Sergipe, com 4%; e São Paulo, com 3%.

Os números mostram uma demanda crescente por espaços onde as pessoas possam falar sobre aquilo que estão vivendo. As ligações são atendidas por voluntários capacitados para realizar uma escuta sem julgamentos, permitindo que quem procura o serviço fale sobre sentimentos, medos e angústias.

A busca por apoio pode acontecer antes que uma situação se transforme em uma emergência.

Para Ana, reconhecer que é preciso pedir ajuda pode ser difícil, principalmente porque o processo terapêutico exige que a pessoa olhe para questões que nem sempre são fáceis de enfrentar.

“É muito difícil falar de si. Quando a gente fala do processo terapêutico, parece que é muito fácil você chegar, falar com o psicólogo e, olha, tô passando por esse momento. Mas é muito difícil, né? Então, a gente precisa entender que o encontro com o próprio eu, que é o processo terapêutico, ele é muito doloroso, porque a gente também se depara com uma parte da gente, com uma parte de si mesmo, que às vezes a gente não gosta.”, explica

A psicóloga reforça que procurar ajuda não deve ser encarado como sinal de fraqueza e que existem profissionais preparados para acolher situações de sofrimento.

“O importante é se acolher também e reconhecer que é preciso, às vezes, pedir essa ajuda mesmo, sabe? Que não está sozinho, que tem canais de escuta, que tem profissionais que podem acolher.”, afirma

Segundo ela, o acompanhamento especializado pode ser fundamental porque psicólogos, psiquiatras e outros profissionais da área da saúde são treinados para lidar com esse tipo de situação.

“A gente tem uma técnica, nós somos treinados para ter esse tipo de escuta. Não é simplesmente… Eu vejo muito quando chega o Setembro Amarelo, né? ‘Me mande na DM que a gente conversa’. (…) Não é simples assim.”, argumenta

A orientação é que pessoas que percebam mudanças importantes em seu estado emocional não esperem chegar a uma situação limite para procurar atendimento.

A rede pública oferece diferentes portas de entrada para quem precisa de cuidado em saúde mental, incluindo Unidades Básicas de Saúde, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Unidades de Pronto Atendimento, pronto-socorros e hospitais.

Em Minas Gerais, a Rede de Atenção Psicossocial contava com 402 CAPS habilitados no terceiro quadrimestre de 2025, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde.

 Quais sinais merecem atenção?

Identificar que alguém está sofrendo nem sempre é simples. O Ministério da Saúde destaca que não existe uma fórmula capaz de prever com certeza quando uma pessoa está passando por uma crise suicida.

Por isso, mudanças importantes devem ser observadas, principalmente quando aparecem de forma simultânea ou representam uma alteração significativa no comportamento habitual.

Entre os sinais que merecem atenção estão:

  • manifestações relacionadas à morte ou à falta de perspectiva;
  • mudanças importantes de comportamento;
  • agravamento do sofrimento emocional;
  • isolamento;
  • situações de crise;
  • alterações que chamem atenção de familiares, amigos ou colegas.

O mais importante é não ignorar uma mudança significativa.

A abordagem deve ocorrer com escuta, acolhimento e sem julgamentos. Em uma situação de risco imediato, a recomendação é não deixar a pessoa sozinha e procurar atendimento de emergência.

O papel de quem está por perto

Nem sempre quem está sofrendo consegue dizer claramente que precisa de ajuda. Por isso, familiares, amigos, colegas de trabalho e outras pessoas próximas podem ter papel importante.

Mais do que tentar encontrar respostas ou oferecer soluções prontas, a orientação é ouvir, demonstrar preocupação e estimular a busca por atendimento profissional.

Ana explica que os sinais podem aparecer de maneiras diferentes e que é importante observar mudanças em relação ao comportamento habitual daquela pessoa.

“O importante é que cada pessoa, seja familiar, seja amigo, pessoa do trabalho, que conheça de alguma forma aquela pessoa, consiga identificar alguns sinais que essa pessoa vai mandando, né? Então, cada um é de um jeito, cada ser humano é único no mundo.”

A psicóloga cita como exemplo uma pessoa que sempre foi extrovertida e sociável e passa a se isolar ou demonstrar esforço para participar de atividades que antes faziam parte da rotina.

“Então, se você é uma pessoa mais extrovertida, mais sociável, mais ativo, e de repente isso começa a mudar, a pessoa começa a ficar um pouco mais isolada, a ir por obrigação nos eventos sociais, você vê que a pessoa está fazendo esforço, ou passou por alguma ruptura nesse processo, divórcio, luto, perda de emprego também.”

Segundo Ana Luiza, nem sempre o sofrimento aparece como tristeza evidente. Por isso, alterações de comportamento e de humor podem ser sinais importantes.

“Porque isso pode vir de outra forma, nem sempre vai ser uma tristeza, mas vai ser essas pequenas percepções que a gente tem no nosso dia a dia, né? Mudança de comportamento, mudança ou oscilação de humor, um isolamento mais frequente, essa mudança do que a pessoa era e o que a pessoa está sendo agora.”

A escuta não substitui o tratamento, mas pode ser o primeiro passo para que uma pessoa aceite procurar ajuda.

Onde buscar ajuda?

Quem estiver passando por sofrimento emocional pode procurar uma Unidade Básica de Saúde, CAPS, Unidade de Pronto Atendimento, pronto-socorro ou hospital.

Em situações de emergência, o SAMU pode ser acionado pelo telefone 192.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia, em todo o país. O serviço também disponibiliza atendimento por chat e e-mail.

A procura por ajuda não precisa esperar uma crise. Conversar com alguém de confiança e buscar atendimento profissional pode ser um primeiro passo.

Em uma situação de risco imediato, a recomendação é procurar um serviço de emergência e não deixar a pessoa sozinha.

 

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