O brasileiro recebeu um alívio inesperado no bolso em agosto. O IPCA, índice oficial de inflação do país, registrou deflação de 0,32%, segundo dados divulgados nesta sexta-feira (11) pelo IBGE. Foi a maior queda do indicador em quatro anos e a primeira taxa negativa em um ano.
O resultado, porém, exige cautela. Uma parcela importante da queda veio de um fator extraordinário: o Bônus de Itaipu, que reduziu temporariamente o valor das contas de energia elétrica de milhões de consumidores.
Na prática, a inflação ficou negativa no mês, mas economistas alertam que parte desse alívio pode desaparecer rapidamente.
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A conta de luz foi decisiva
O principal impacto sobre o IPCA veio da energia elétrica residencial, que ficou 7,63% mais barata em agosto.
A queda ocorreu justamente pela aplicação do bônus de Itaipu nas faturas. O desconto beneficiou cerca de 83,8 milhões de consumidores e teve forte peso no resultado mensal do índice.
O mecanismo, no entanto, não representa uma redução permanente do custo da energia.
Com o fim do desconto, a tarifa tende a voltar a incorporar os valores regulares. Por isso, o resultado de agosto não deve ser interpretado isoladamente como sinal de uma queda estrutural da inflação.
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Passagens e alimentos também ajudaram
O resultado negativo não veio apenas da conta de luz.
O grupo de Transportes também contribuiu para a deflação, com queda de 0,86%. As passagens aéreas recuaram 13,17%, enquanto combustíveis também registraram reduções.
A gasolina caiu 0,59% e o etanol teve queda ainda mais expressiva, de 3,95%.
Alimentação e bebidas também ajudaram. O grupo registrou deflação de 0,34%, com recuos importantes em alguns produtos básicos.
Batata, cenoura, cebola e tomate ficaram mais baratos no período, embora outros alimentos, como leite, frutas e carnes, tenham apresentado alta.
O cenário mostra que a queda do IPCA foi distribuída por diferentes setores, mas teve como principal elemento individual um desconto que não deve se repetir indefinidamente.
Inflação em 12 meses fica abaixo do teto da meta
Com o resultado de agosto, o IPCA acumulado em 12 meses caiu para 4,22%, contra 4,44% registrados até julho.
O número ficou abaixo do teto da meta de inflação, estabelecido em 4,5% para o período.
Também houve desaceleração no acumulado do ano. Ainda assim, o comportamento dos preços continua sendo acompanhado com atenção pelo Banco Central, principalmente porque alguns componentes da inflação permanecem pressionados.
Entre eles estão os serviços, que possuem maior resistência à queda e são influenciados por salários e pelo nível de atividade econômica.
Setembro pode trazer uma virada
O alívio de agosto pode não se repetir no mês seguinte.
A principal razão é justamente o fim do efeito extraordinário do bônus de Itaipu. Com a retirada do desconto, a energia elétrica tende a deixar de contribuir negativamente para o índice.
Além disso, os economistas acompanham os possíveis efeitos do El Niño sobre alimentos e energia. Um clima mais adverso pode afetar safras e reduzir a oferta de determinados produtos, aumentando a pressão sobre os preços.
O cenário internacional também preocupa. A trajetória do petróleo e as tensões geopolíticas podem afetar combustíveis e outros custos da economia brasileira.
Juros entram novamente no radar
A desaceleração da inflação aumenta a possibilidade de continuidade do ciclo de redução dos juros.
A Selic está atualmente em 14% ao ano, e o mercado passou a trabalhar com a possibilidade de um novo corte de 0,25 ponto percentual, levando a taxa para 13,75%.
A leitura do Banco Central, porém, não depende apenas do IPCA cheio.
Para definir os juros, a autoridade monetária também acompanha medidas de núcleo da inflação, serviços, expectativas futuras, atividade econômica e fatores que podem pressionar os preços nos próximos meses.
Por isso, uma deflação provocada em parte por um desconto temporário não significa automaticamente que os juros poderão cair de maneira acelerada.
O que o resultado significa para o consumidor
Na prática, a deflação significa que o conjunto de preços pesquisados pelo IBGE ficou, em média, 0,32% menor em agosto.
Isso não quer dizer que todos os produtos ficaram mais baratos.
Enquanto a conta de luz, passagens aéreas e diversos alimentos recuaram, outros itens continuaram subindo. O consumidor também pode perceber uma inflação diferente daquela apresentada pelo índice oficial, dependendo dos produtos que mais pesam em seu orçamento.
Para famílias que receberam o desconto de Itaipu, entretanto, o efeito sobre a conta de energia foi real e ajudou a reduzir a inflação medida no mês.
O desafio será saber quanto desse alívio permanecerá depois que o benefício deixar de produzir efeito.
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Entenda O Contexto
O IPCA é o principal indicador utilizado para medir a inflação oficial brasileira e acompanha a variação de preços de uma cesta de produtos e serviços consumidos pelas famílias. Em agosto de 2026, o índice caiu 0,32%, depois de ter avançado 0,07% em julho. Foi a primeira deflação em 12 meses e a maior queda mensal desde agosto de 2022. O resultado levou o acumulado em 12 meses para 4,22%, abaixo do teto de 4,5% da meta de inflação.
O grande destaque do resultado foi a energia elétrica. A conta de luz residencial recuou 7,63% com a aplicação do Bônus de Itaipu, que beneficiou dezenas de milhões de consumidores. Como se trata de um mecanismo temporário, economistas alertam que o efeito positivo sobre a inflação tende a perder força nos meses seguintes. Passagens aéreas, combustíveis e alimentos também ajudaram a reduzir o índice, mostrando que houve outros fatores de alívio, mas nenhum com o mesmo peso da energia elétrica.
O cenário para os próximos meses permanece misto. De um lado, a inflação perdeu força e ficou abaixo do teto da meta, o que reforça as apostas em novos cortes da Selic. De outro, serviços continuam apresentando resistência, enquanto fatores como o El Niño, o comportamento dos alimentos e os preços internacionais do petróleo podem voltar a pressionar o índice. O resultado de agosto, portanto, representa um importante alívio, mas ainda não garante uma trajetória permanente de queda da inflação.
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