A Polícia Federal identificou uma estrutura dentro do Banco Master que utilizava ferramentas como Word, Excel, códigos de programação e edição de arquivos PDF para produzir e alterar documentos, segundo relatório técnico-pericial divulgado nesta segunda-feira (14). A investigação aponta que dados reais de clientes eram usados como base para criar documentos que deveriam sustentar operações de crédito consignado atribuídas à Tirreno Consultoria.
Entre os mecanismos encontrados pelos peritos está a produção de 2.700 procurações em lote por meio da ferramenta de mala direta do Microsoft Word. A PF também identificou alterações em documentos e tentativas de retirar informações que poderiam revelar quando e como os arquivos foram produzidos.
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Entenda o que aconteceu
Segundo a perícia, a estrutura funcionava como uma espécie de linha de montagem digital. Informações de clientes que já haviam realizado operações legítimas eram extraídas dos sistemas internos do banco e organizadas em planilhas.
Esses dados incluíam informações como nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe. Parte deles estava relacionada ao CredCesta, produto de crédito consignado destinado a servidores públicos, aposentados e pensionistas.
A partir dessas informações, funcionários de diferentes áreas produziam procurações, Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), Termos de Consentimento e outros documentos. As peças eram posteriormente reunidas em arquivos únicos que seriam utilizados para representar operações de crédito.
Word foi usado para produzir 2.700 procurações
Uma das etapas identificadas pela PF envolvia a ferramenta de mala direta do Microsoft Word.
O recurso permite conectar um modelo de documento a uma planilha e preencher automaticamente campos diferentes para cada pessoa. Segundo a perícia, a ferramenta foi utilizada para gerar 2.700 procurações de uma só vez, em junho de 2025.
Na prática, uma única estrutura podia ser transformada em milhares de documentos individualizados, acelerando a produção em escala.
Código separava páginas de assinaturas
A área de tecnologia também teria participado da montagem dos documentos.
A perícia encontrou aplicações desenvolvidas em C#, linguagem de programação da Microsoft. Uma das funções identificadas permitia retirar de arquivos PDF uma página específica, justamente a que continha a assinatura.
Os investigadores também localizaram um arquivo compactado com 1.833 PDFs contendo páginas de assinatura isoladas de Termos de Consentimento. Segundo a perícia, esse material poderia ser reutilizado na montagem de novos conjuntos de documentos.
Assinaturas digitais revelaram a cronologia
Um dos principais vestígios encontrados pela PF estava nas próprias assinaturas digitais.
Em alguns documentos, a data registrada no corpo da Cédula de Crédito Bancário indicava que a operação teria acontecido meses antes. Entretanto, o registro criptográfico da assinatura mostrava que o arquivo havia sido assinado posteriormente.
Em um dos exemplos analisados, a CCB apresentava a data de 21 de janeiro de 2025, enquanto o registro da assinatura indicava que o documento havia sido assinado em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s.
A diferença permitiu aos peritos identificar uma inconsistência entre a data apresentada no documento e o momento em que ele foi efetivamente assinado digitalmente.
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Documentos tiveram datas retiradas
A perícia também encontrou indícios de que informações capazes de revelar a origem dos arquivos foram removidas.
Em uma conversa analisada pelos investigadores, um funcionário escreveu que era necessário “excluir a data” de um Termo de Consentimento. Em outro caso, um documento que originalmente apresentava uma data de 2023 teve essa informação retirada posteriormente.
Mesmo com as alterações, os peritos conseguiram encontrar outros registros digitais capazes de ajudar na reconstrução da cronologia dos arquivos.
Comprovantes também foram alterados
A tentativa de modificar os documentos teria alcançado ainda comprovantes de transferências realizadas por Pix e pelo Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB).
Segundo a perícia, funcionários discutiram a retirada de informações como número de contrato, histórico e outros dados que poderiam relacionar os comprovantes às operações originais.
As mensagens analisadas pela PF mostram que a equipe também enfrentava dificuldades para realizar as alterações em milhares de arquivos, devido ao volume de documentos envolvidos.
Documentos seriam usados em operações com o BRB
Segundo a investigação, toda a estrutura tinha como finalidade sustentar documentalmente a existência de uma carteira de créditos consignados atribuída à Tirreno Consultoria.
A PF aponta que a empresa teria funcionado como uma estrutura utilizada para formalizar operações fictícias. De acordo com o material pericial, foram formalizados R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de crédito consignado com o Banco Master, que posteriormente utilizou essas carteiras em negociações com o Banco de Brasília (BRB).
A investigação sobre as operações e a responsabilidade individual dos envolvidos continua em andamento.
Daniel Vorcaro recebeu documentos, segundo a PF
A investigação também identificou o envio de parte da documentação ao então controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Segundo o relatório, em junho de 2025, Vorcaro teria solicitado um “kit dos 300 com assinatura digital”. Funcionários então providenciaram documentos e links relacionados às CCBs, procurações e assinaturas.
O material indica, segundo a PF, que os documentos não ficaram restritos aos funcionários responsáveis pela produção.
Entenda o contexto
O caso faz parte das investigações envolvendo o Banco Master e operações de crédito que passaram a ser questionadas pela Polícia Federal.
O relatório pericial descreve uma estrutura na qual dados reais eram utilizados como matéria-prima para a produção de documentos, enquanto ferramentas digitais eram empregadas para alterar arquivos, separar assinaturas, retirar datas e reunir diferentes peças em novos PDFs.
Para os investigadores, os registros técnicos acabaram sendo fundamentais para identificar inconsistências. Mesmo quando informações visíveis eram apagadas ou modificadas, assinaturas digitais, horários e outros elementos dos arquivos preservaram parte do histórico de produção.
As conclusões apresentadas pela PF fazem parte da investigação e ainda serão analisadas pelas autoridades responsáveis pelo caso.
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