Instituto ligado a Mendonça recebeu empréstimo de R$ 5,2 mi de ex-sócio de Vorcaro

Repasse à entidade foi acertado em 2024 e interrompido em janeiro deste ano, um mês antes de o ministro ser sorteado relator do caso Master; Iter nega irregularidades e diz que Vorcaro não participou das tratativas.
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O Instituto Iter, entidade vinculada ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro Participações, holding com foco em mineração. O dono da empresa, Lucas Kallas, foi parceiro de negócios do banqueiro Daniel Vorcaro antes da prisão dele. As informações foram reveladas pelo UOL.

O repasse foi acertado em abril de 2024, por meio de um contrato de mútuo conversível — modelo em que a empresa que empresta o dinheiro pode transformar o crédito em participação societária ou receber o valor de volta. O contrato total previa R$ 5,9 milhões.

Veja também:

Mendonça rebate Gilmar e afirma que Judiciário não pertence aos ministros

O Iter decidiu interromper os repasses e iniciar a devolução dos valores à Cedro em janeiro deste ano. No mês seguinte, em fevereiro, André Mendonça foi sorteado relator das investigações sobre o Banco Master no STF.

Em nota, o instituto afirma que encerrou o empréstimo porque “já se encontrava em situação de sustentabilidade financeira”. Segundo a entidade, foi assinado um termo aditivo com vencimento antecipado da dívida, corrigida pela taxa Selic, e cerca de 5,3% do total já teria sido pago até agora.

Quem negociou o empréstimo

A negociação foi conduzida pelo presidente do Iter e ex-ministro da Educação, Victor Godoy Veiga, com dois representantes da Cedro. O instituto afirma que Mendonça e Lucas Kallas não discutiram os termos da transação e nega que Daniel Vorcaro tenha participado das tratativas.

O Iter diz ainda que todos os recursos foram depositados diretamente na conta da pessoa jurídica e aplicados exclusivamente na estruturação e nas atividades da entidade, sem distribuição de lucros ou dividendos a acionistas. Mendonça deixou o instituto no início de setembro; segundo a nota, sua atuação se limitava ao “âmbito acadêmico como docente”. Procurado, o ministro não se manifestou sobre a reportagem.

A relação entre Kallas e Vorcaro

Lucas Kallas é um empresário mineiro dono da Cedro Participações, holding que atua em mineração, agronegócio e logística e que informa em seu site faturamento anual de R$ 2,5 bilhões.

A Cedro tinha, no fim de 2023, 8% da empresa de biotecnologia Biomm. Em fevereiro de 2024, a gestora WNT, ligada a Vorcaro e ao empresário Nelson Tanure, comprou ações da mesma companhia, chegando a 25% de participação em janeiro de 2025. Kallas também adquiriu, em 2025, 33% da gestora Latache Capital, que era acionista da Oncoclínicas — empresa que aplicou R$ 478 milhões em CDBs do Master e viu suas ações despencarem após a liquidação do banco, em novembro de 2025.

E-mails extraídos do celular de Vorcaro mostram ainda que os dois viajaram juntos a Caracas, na Venezuela, no fim de novembro de 2023, para prospectar negócios no setor petroleiro. A hospedagem, em suítes separadas, custou US$ 23 mil (cerca de R$ 121 mil), pagos por Vorcaro. Três dias depois da última diária, em 4 de dezembro de 2023, ambos tiveram entrada registrada no Palácio do Planalto no mesmo minuto, às 15h43.

Indiciamento na Serra do Curral

O empresário foi indiciado pela Polícia Federal em junho por suspeita de irregularidades na exploração da Mina Granja Corumi, na Serra do Curral, ao sul de Belo Horizonte (MG). Segundo a investigação, empresas contratadas identificaram potencial econômico de minério na área e o exploraram de forma ilegal, entre 2014 e 2018. A PF aponta suspeita de crimes ambientais, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e pagamento de vantagem indevida a agente público.

A defesa de Kallas afirmou ter “plena confiança na demonstração de inocência”, sustentando que o indiciamento retoma fatos antigos já investigados e arquivados pela Justiça, e que o empresário não tem relação com a empresa investigada desde 2017.

Encontros entre Mendonça e Vorcaro

Mensagens extraídas do celular do banqueiro indicam que André Mendonça e Daniel Vorcaro se encontraram ao menos uma vez, em 14 de março de 2025, na sede do Instituto Iter.

Em nota divulgada em 2 de setembro, o ministro afirmou que a conversa tratou de precatórios, em agenda solicitada pelo próprio banqueiro, e que sua atuação no processo foi contrária à posição defendida por Vorcaro.

No julgamento da Suspensão de Tutela Provisória 976, sobre precatórios do setor sucroalcooleiro, o Supremo decidiu de forma unânime contra a posição do banqueiro.

Entenda o contexto

A revelação chega em um dos momentos mais delicados da crise interna do STF, com a Corte dividida sobre abrir ou não investigações contra Alexandre de Moraes e o próprio André Mendonça a partir do material extraído do celular de Vorcaro.  O caso do Iter não integra, até aqui, nenhum inquérito formal, e nem o instituto nem a Cedro figuram como alvos das investigações sobre o Banco Master.

Em nota, a Cedro afirma que Vorcaro “jamais teve qualquer relação societária ou vínculo empresarial” com a holding ou suas controladas e que a compra de participações em companhias de capital aberto não configura sociedade comercial.

 

Carregar Comentários