O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que enfrentou resistência à decisão de proibir as bets no Brasil e revelou que participantes de uma reunião sobre o tema eram contrários à medida por razões políticas. A declaração foi feita nesta quinta-feira (1º), durante entrevista ao Flow Podcast.
“Tinha muita gente na reunião que eu fiz que não queria que acabasse por conta da política”, afirmou Lula.
O presidente não identificou quem eram essas pessoas nem especificou quais delas integravam o governo.
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Lula relata resistência ao fim das bets
Ao explicar os bastidores da decisão, Lula relacionou as resistências aos interesses econômicos e políticos que se formaram em torno das plataformas de apostas. Durante a entrevista, mencionou clubes de futebol, parlamentares e empresas que recebem recursos do setor por meio de publicidade.
O presidente também citou a TV Globo ao falar sobre o impacto econômico da proibição da publicidade das casas de apostas. “A Globo vai ficar chateada”, declarou.
Lula não apresentou nomes de parlamentares, integrantes do governo ou dirigentes que teriam se posicionado contra a medida durante a reunião mencionada.
Por isso, a declaração permite afirmar que houve resistência segundo o relato do presidente, mas não permite atribuí-la especificamente a ministros ou outros integrantes do governo sem informações adicionais.
“Doa a quem doer”
Lula afirmou que decidiu avançar com a proibição depois de conhecer relatos de pessoas que perderam dinheiro e se endividaram com apostas.
“Eu tomei minha decisão: eu vou acabar com as bets, doa a quem doer”, declarou.
Questionado sobre por que a decisão não havia sido tomada anteriormente, o presidente respondeu: “Por que eu não fiz antes? Porque eu não sabia”.
Segundo Lula, a tentativa de regulamentar o mercado não foi suficiente para controlar os problemas associados às apostas.
“Não conseguiram controlar. Não conseguiram regular. Cada vez que você regula, aparece mais uma. Tem que acabar mesmo”, afirmou.
Presidente prevê “guerra” em torno da medida
Apesar do tom definitivo adotado durante a entrevista, Lula reconheceu que a disputa política e econômica em torno da proibição ainda não terminou.
“Ainda não acabou, não, porque vai ser uma guerra. Vai ter gente que vai tentar fazer de fora. Nós sabemos que é uma guerra”, disse.
A avaliação de que haverá resistência também aparece nos bastidores do Palácio do Planalto. O governo trabalha com a possibilidade de pressão no Congresso para modificar a medida, especialmente diante da presença e da influência econômica das empresas de apostas no futebol, na publicidade e em outros setores.
Governo proibiu oferta e publicidade de bets
A proibição foi formalizada pelo governo federal em 25 de setembro. A medida alcança a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no território nacional.
Por se tratar de uma medida provisória, o texto entrou em vigor após a publicação, mas depende da análise do Congresso Nacional para permanecer válido de forma definitiva.
A decisão provocou reação especialmente no futebol. Clubes que mantinham contratos de patrocínio com empresas do setor passaram a discutir alternativas para compensar a perda dessa fonte de receita.
Palmeiras entrou na explicação
Foi nesse contexto que Lula também recorreu ao futebol para defender sua posição. Torcedor declarado do Corinthians, o presidente afirmou ter ouvido que acabar com as bets poderia prejudicar os clubes e respondeu lembrando conquistas anteriores à expansão das casas de apostas.
“Os times falaram assim pra mim, que se eu acabasse com as bets, ia acabar com o futebol. Eu falei pra eles: não, o Brasil foi campeão do mundo sem bet. Flamengo foi campeão em 81 sem bet. São Paulo foi três vezes campeão sem bet. Grêmio foi campeão sem bet. Corinthians foi campeão sem bet. Só o Palmeiras que não ganhou nada”, disse.
A provocação ao Palmeiras apareceu, portanto, como parte de um argumento mais amplo usado pelo presidente para rebater a ideia de que o futebol brasileiro dependeria das receitas provenientes das plataformas de apostas.
A entrevista ao Flow ocorreu na noite em que estava previsto o último debate presidencial da TV Globo antes do primeiro turno. Lula já havia decidido não participar do encontro antes de a emissora anunciar o cancelamento do programa.