Cancelamento do debate da Globo vira nova disputa entre Lula, Flávio e adversários na reta final

Presidente comemorou escolha pelo Flow, Flávio acusou o Judiciário de favorecer o petista e Caiado, Zema, Cury e Renan criticaram a ausência do último confronto antes do primeiro turno
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O cancelamento do último debate presidencial da TV Globo antes do primeiro turno abriu uma nova frente de confronto entre os candidatos nesta sexta-feira (2). Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tratou como acertada a decisão de participar do Flow Podcast, Flávio Bolsonaro (PL) acusou o Judiciário de favorecer o presidente. Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão) lamentaram a perda do último embate televisivo antes das urnas.

A disputa de versões começou ainda na noite de quinta-feira (1º), quando decisões do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal alteraram regras e a composição do encontro poucas horas antes do início. Lula já havia informado que não compareceria. Flávio, que estava confirmado, desistiu depois de uma decisão do TSE sobre o tratamento dado ao candidato ausente. Diante das mudanças, a Globo cancelou o programa alegando “insegurança jurídica”.

LEIA TAMBÉM

Globo cancela debate presidencial após desistências de Lula e Flávio Bolsonaro

Lula comemora escolha pelo Flow

Lula já havia decidido trocar o debate por uma entrevista ao Flow Podcast antes de a Globo anunciar o cancelamento. Durante a transmissão, o presidente brincou ao explicar a escolha e disse ao apresentador Igor Coelho: “Gosto mais de você do que da Globo”.

Depois, apresentou uma justificativa política para a ausência. Lula afirmou considerar o atual formato dos debates “infrutífero” e criticou confrontos que, na avaliação dele, dão espaço para candidatos tentarem fazer “gracinha” ou “lacrar”, em vez de aprofundar a discussão sobre o país.

O presidente também questionou a presença, no mesmo palco, de candidatos com desempenhos muito diferentes nas pesquisas eleitorais e defendeu algum tipo de divisão dos participantes.

Nos bastidores, integrantes da campanha petista passaram a interpretar o cancelamento e a repercussão da entrevista como uma confirmação de que a estratégia de não comparecer ao debate havia sido acertada.

Essa é uma avaliação da campanha de Lula. O cancelamento foi anunciado pela Globo após as decisões judiciais e a desistência de Flávio, e não como consequência da escolha do presidente de participar do podcast.

Flávio acusa Judiciário de agir para beneficiar Lula

Do outro lado, Flávio Bolsonaro transformou o episódio em crítica direta ao Judiciário.

O candidato do PL havia mantido a participação confirmada mesmo depois de Lula comunicar a ausência. A situação mudou após a ministra Estela Aranha, do TSE, atender a um pedido da coligação do presidente e impedir a Globo de manter identificado o púlpito vazio de Lula e de permitir perguntas direcionadas ao candidato ausente.

Flávio classificou a determinação como “censura” e anunciou que não participaria mais do encontro.

Depois do cancelamento, durante uma transmissão ao vivo, o candidato acusou Lula de recorrer a integrantes do Judiciário para interferir no debate.

“Lula só não vai ao debate como ele usa seus amigos do Judiciário para impor a censura ao debate da Globo”

A declaração é uma acusação de Flávio. Não há, nas informações divulgadas sobre o episódio, comprovação de que Lula tenha orientado magistrados ou controlado as decisões tomadas pelo TSE e pelo STF.

A decisão do TSE foi provocada juridicamente pela coligação do presidente, mas coube à ministra analisar e decidir o pedido.

Renan Santos entrou no debate por decisão do STF

Enquanto uma decisão judicial alterava as regras relacionadas à ausência de Lula, outra modificava a lista de participantes.

O ministro Gilmar Mendes, do STF, determinou que Renan Santos participasse do encontro. O candidato do Missão havia tentado anteriormente garantir presença no debate e recebido decisões desfavoráveis.

A determinação ocorreu poucas horas antes da transmissão e colocou Renan entre os candidatos que poderiam participar do programa.

Flávio anunciou sua desistência no mesmo período, mas atribuiu publicamente a decisão ao que classificou como “censura” do TSE.

Renan, por sua vez, relacionou a saída de Flávio à confirmação de sua própria presença e provocou o adversário depois do cancelamento. Essa interpretação foi apresentada pelo candidato do Missão e não é a justificativa dada por Flávio para a desistência.

Caiado fala em “atentado à democracia”

Ronaldo Caiado já estava nos Estúdios Globo quando soube que o debate não seria realizado.

O candidato do PSD criticou duramente o episódio e classificou o cancelamento como um “atentado à democracia brasileira”.

Caiado também responsabilizou Lula politicamente pela situação e criticou a atuação do TSE e do STF. Para ele, o encontro representaria uma das últimas oportunidades para os candidatos apresentarem propostas diretamente aos eleitores antes da votação.

As declarações representam a avaliação do candidato sobre o episódio.

Zema critica mudança das regras

Romeu Zema também estava na emissora e afirmou não ser contrário à participação de outros candidatos, mas criticou alterações judiciais feitas às vésperas do encontro.

O candidato do Novo disse que as regras estabelecidas anteriormente deveriam ter sido preservadas e acusou integrantes do Judiciário de atuação política.

A presença do próprio Zema no debate também havia sido garantida após uma decisão judicial. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, alterou o entendimento aplicado à contagem da representação parlamentar do Novo e determinou sua inclusão.

Cury diz que cancelamento foi uma “frustração tremenda”

Augusto Cury também lamentou a decisão da Globo. O candidato do Avante afirmou ter se preparado durante meses para o encontro e classificou o cancelamento como uma “frustração tremenda”.

Cury criticou Lula e Flávio por não participarem do confronto e também questionou o protagonismo assumido pelo Judiciário na definição das regras dos debates.

O candidato defendeu ainda uma mudança constitucional para estabelecer mandato de oito anos para ministros do Supremo Tribunal Federal. Atualmente, os integrantes da Corte permanecem no cargo até a aposentadoria compulsória aos 75 anos, salvo outras hipóteses de saída.

Globo cita “insegurança jurídica”

A Globo afirmou que recebeu duas notificações judiciais relacionadas ao debate pouco antes do horário previsto para a transmissão.

A primeira tratava da decisão do TSE sobre o púlpito destinado a Lula e as perguntas que poderiam ser feitas ao candidato ausente. A segunda foi a determinação de Gilmar Mendes para que Renan Santos fosse incluído.

A emissora afirmou que as sucessivas decisões provocaram “insegurança jurídica” e representaram, na avaliação da empresa, uma interferência indevida na liberdade dos veículos de comunicação para organizar debates.

Com isso, o encontro marcado para as 21h30 foi cancelado.

Campanha termina com disputa sobre quem esvaziou o debate

Sem o confronto na televisão, cada candidatura passou a apresentar sua própria interpretação sobre o episódio.

Lula defendeu a escolha de participar do Flow e voltou a criticar o modelo dos debates. Flávio afirmou que desistiu diante do que considera interferência do Judiciário. Caiado, Zema e Cury criticaram as mudanças de última hora e lamentaram a perda do espaço para apresentar propostas. Renan, que havia conseguido uma decisão para participar, questionou o cancelamento e atacou os dois principais adversários.

As versões carregam interesses eleitorais distintos e acusações que não devem ser tratadas como fatos sem atribuição.

O ponto objetivo é que o debate deixou de acontecer após uma sequência de acontecimentos: Lula comunicou previamente que não iria; o TSE modificou as regras aplicáveis à ausência do presidente; o STF determinou a entrada de Renan Santos; Flávio desistiu; e a Globo decidiu cancelar o programa.

Assim, o último debate presidencial previsto pela emissora antes do primeiro turno não ocorreu. Os candidatos chegam às últimas horas de campanha tentando transformar o próprio cancelamento em argumento político diante dos eleitores que vão às urnas neste domingo (4).

Carregar Comentários