A forte queda dos juros futuros registrada depois do primeiro turno das eleições pode representar um impacto de aproximadamente R$ 65,8 bilhões na dívida pública caso uma redução equivalente de 1 ponto percentual na taxa Selic seja mantida por 12 meses.
O movimento ocorreu na segunda-feira (5), primeiro pregão após Flávio Bolsonaro (PL) terminar o primeiro turno da eleição presidencial à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Contratos de juros futuros para os próximos quatro anos recuaram cerca de 1 ponto percentual, ou 100 pontos-base.
A expressão “efeito Flávio” tem sido usada para descrever a reação dos mercados ao resultado eleitoral. Parte dos investidores passou a precificar a possibilidade de uma política fiscal mais restritiva em um eventual governo do candidato do PL. Essa leitura, no entanto, representa uma expectativa do mercado e não garante que a queda dos juros será mantida ou que a economia projetada efetivamente ocorrerá.
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De onde vêm os R$ 65,8 bilhões?
A estimativa está relacionada à sensibilidade da dívida pública às mudanças na taxa básica de juros.
Dados do Banco Central mostram quanto a dívida pode variar diante de uma redução de 1 ponto percentual na Selic mantida durante 12 meses.
Com base nessa relação, uma queda dessa magnitude teria impacto estimado em R$ 65,8 bilhões sobre a dívida.
É importante diferenciar, porém, a queda observada nos contratos de juros futuros de uma redução efetiva da Selic.
Os juros futuros são negociados no mercado e refletem as expectativas dos investidores para as taxas nos próximos anos. A Selic, por outro lado, é definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central.
Portanto, os R$ 65,8 bilhões representam uma estimativa potencial caso uma redução equivalente de 1 ponto percentual da Selic seja mantida por 12 meses, e não uma economia já realizada pelo governo.
Juros futuros caíram cerca de 1 ponto
A mudança de percepção ficou evidente nos contratos de Depósito Interfinanceiro, conhecidos como DI futuro.
O contrato com vencimento em janeiro de 2028, por exemplo, passou de 13,69% na sexta-feira anterior à eleição para aproximadamente 12,71% na segunda-feira.
Outros vencimentos também registraram quedas expressivas.
A movimentação foi tão intensa que o Tesouro Direto chegou a suspender temporariamente negociações de alguns títulos diante da volatilidade do mercado.
Quando as taxas futuras diminuem, o mercado passa a exigir remuneração menor para determinados investimentos e títulos públicos.
Por que juros menores ajudam a dívida?
O governo federal precisa constantemente emitir novos títulos para financiar despesas e refinanciar papéis que chegam ao vencimento.
Quanto maiores as taxas exigidas pelos investidores, maior tende a ser o custo para financiar a dívida pública.
No cenário inverso, juros menores podem permitir que novos títulos sejam emitidos com remuneração mais baixa, reduzindo gradualmente o custo do endividamento.
O impacto não acontece de uma única vez. Ele depende do comportamento das taxas ao longo do tempo, da composição da dívida, dos vencimentos dos títulos e das decisões do Banco Central sobre a Selic.
Mercado reagiu ao resultado do primeiro turno
A queda dos juros fez parte de uma reação mais ampla dos ativos brasileiros depois da votação de domingo (4).
Além do recuo das taxas futuras, o Ibovespa disparou no primeiro pregão após a eleição e ultrapassou os 207 mil pontos, enquanto o dólar caiu para menos de R$ 5.
Parte do mercado atribuiu o movimento à expectativa de mudanças na política econômica caso Flávio vença o segundo turno.
A equipe econômica ligada à campanha do candidato estuda uma nova regra fiscal com mecanismos de contenção de despesas em momentos de endividamento elevado. O desenho divulgado até agora, entretanto, ainda não permite determinar qual seria o impacto efetivo sobre as contas públicas.
Queda pode ser revertida
A reação registrada depois do primeiro turno não significa que os juros permanecerão nos atuais níveis.
A curva futura muda diariamente conforme novas informações sobre inflação, atividade econômica, contas públicas, decisões do Banco Central e cenário político entram nos cálculos dos investidores.
Durante o segundo turno, propostas econômicas apresentadas por Flávio e Lula, pesquisas eleitorais e sinalizações sobre as equipes dos candidatos também podem provocar novas oscilações.
Uma deterioração das expectativas fiscais ou inflacionárias pode fazer os juros futuros voltarem a subir. Uma melhora adicional das expectativas pode provocar movimento na direção contrária.
Por isso, o impacto estimado de R$ 65,8 bilhões deve ser entendido como uma simulação baseada na manutenção de uma redução de 1 ponto percentual da Selic durante 12 meses, e não como um valor que já tenha sido economizado pelo país.