Demanda por fertilizantes pode cair até 16% no Brasil em 2026, aponta mercado

Após recorde de 49,1 milhões de toneladas em 2025, setor enfrenta custos elevados, restrição de crédito e redução das compras pelos produtores rurais.
Redação NC News
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O mercado brasileiro de fertilizantes caminha para encerrar 2026 com uma das maiores retrações recentes na demanda. Depois de registrar 49,1 milhões de toneladas em 2025, o setor trabalha com estimativas de queda entre 10% e 16% neste ano. Nas projeções mais pessimistas, o volume pode ficar abaixo de 42 milhões de toneladas, retornando a patamares próximos aos observados em 2022.

A redução ocorre em meio ao aumento dos custos dos insumos, à restrição de crédito rural e às incertezas provocadas pelos conflitos internacionais. Com margens de rentabilidade pressionadas, agricultores estão adiando compras e diminuindo a aplicação de fertilizantes em algumas lavouras, movimento que preocupa a indústria e levanta dúvidas sobre os impactos na safra 2026/27.

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Projeções para fertilizantes pioraram nos últimos meses

Em agosto, a consultoria Argus estimava que a demanda brasileira ficaria próxima de 45 milhões de toneladas em 2026. A expectativa, entretanto, foi revista diante do ritmo mais fraco das compras para o plantio da soja e da desaceleração das importações de fertilizantes nitrogenados.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) considera possível que o consumo nacional termine o ano abaixo de 42 milhões de toneladas.

A multinacional Mosaic trabalha com uma estimativa de retração entre 10% e 15% nas entregas de fertilizantes, o que colocaria o mercado brasileiro em uma faixa aproximada de 42 milhões a 44 milhões de toneladas.

As projeções ainda dependem do comportamento das compras nos últimos meses do ano, especialmente dos insumos destinados ao milho segunda safra de 2027.

Entregas já caíram 8,8% no acumulado do ano

Os números da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) mostram que a desaceleração já aparece nas entregas efetivas ao mercado brasileiro.

Entre janeiro e julho de 2026, foram entregues aproximadamente 22,9 milhões de toneladas de fertilizantes, volume 8,8% inferior ao registrado no mesmo período de 2025.

A retração foi ainda mais expressiva em julho, quando as entregas somaram cerca de 3,9 milhões de toneladas, queda de 22,3% na comparação anual.

A produção nacional de fertilizantes intermediários também diminuiu. Nos primeiros sete meses do ano, foram produzidas aproximadamente 3,3 milhões de toneladas, recuo de 19,7%.

Os resultados mostram que a crise não está restrita às expectativas do mercado. Ela já afeta a movimentação comercial e a atividade industrial.

Enxofre caro provoca paralisações na indústria

Um dos principais fatores de pressão é o custo do enxofre, matéria-prima utilizada na fabricação de fertilizantes fosfatados.

O encarecimento do produto elevou as despesas industriais e contribuiu para interrupções de produção em unidades brasileiras.

A Mosaic anunciou paralisações temporárias ou parciais em cinco plantas industriais no país, além da redução das atividades em duas unidades de mistura.

Embora o preço do enxofre tenha apresentado queda de 23% nas últimas sete semanas, segundo a consultoria StoneX, o insumo continua caro em comparação com os níveis históricos.

A combinação entre custos elevados e menor procura pelos fertilizantes compromete a rentabilidade das empresas e dificulta o planejamento da produção.

Produtores reduzem adubação para controlar despesas

Com fertilizantes mais caros e acesso ao financiamento mais difícil, parte dos produtores rurais tem buscado maneiras de reduzir os gastos da safra.

Uma das estratégias é aproveitar nutrientes acumulados no solo em ciclos anteriores, especialmente o fósforo, para diminuir temporariamente a necessidade de novas aplicações.

A prática, entretanto, exige planejamento agronômico. A redução indiscriminada da adubação pode comprometer a produtividade e prejudicar a fertilidade das áreas agrícolas nos anos seguintes.

O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Mauricio Buffon, reconhece que a redução do uso de fertilizantes pode afetar a produção, mas aponta a necessidade de controlar os custos para evitar maior endividamento dos agricultores.

O comportamento das compras também depende da rentabilidade esperada para cada cultura, dos preços dos grãos e das condições de financiamento disponíveis.

Dependência das importações amplia vulnerabilidade

O Brasil depende do mercado internacional para abastecer grande parte de sua demanda por fertilizantes. Essa característica deixa o agronegócio exposto às oscilações do dólar, aos custos de transporte e às restrições de oferta em outros países.

As tensões no Oriente Médio aumentaram as dificuldades de fornecimento de matérias-primas e elevaram a volatilidade dos preços internacionais.

Dados de comércio exterior também indicam desaceleração das importações brasileiras. Em setembro, o país comprou aproximadamente 3,1 milhões de toneladas de adubos e fertilizantes químicos do exterior, redução de 27,9% em relação ao mesmo mês do ano passado.

Em agosto, a queda anual das importações havia chegado a 43,7%.

A diminuição das compras externas não significa, isoladamente, que haverá desabastecimento, mas reforça a necessidade de acompanhar os estoques e o ritmo de reposição dos insumos.

Safra 2026/27 pode sentir os efeitos da crise

A retração no consumo de fertilizantes ocorre justamente durante a preparação de uma nova safra agrícola.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta crescimento de 1,4% na área plantada com soja no ciclo 2026/27, um dos menores avanços das últimas duas décadas.

A expectativa de produção é de aproximadamente 181,6 milhões de toneladas, mas o resultado dependerá das condições climáticas, do desenvolvimento das lavouras e das práticas de manejo adotadas pelos produtores.

A possível influência do fenômeno El Niño também está entre os fatores acompanhados pelo setor.

Para 2027, uma das preocupações da indústria é a possibilidade de o mercado iniciar o ano com estoques menores, importações reduzidas e limitações na produção doméstica.

O comportamento das compras destinadas à segunda safra de milho será determinante para avaliar a intensidade da retração e os riscos para o abastecimento.

Mercado acompanha preços e crédito rural

A recuperação da demanda dependerá principalmente de uma melhora na relação entre os preços dos fertilizantes e o valor recebido pelos produtores na venda de suas safras.

Além disso, condições de crédito mais favoráveis poderão contribuir para a retomada das compras e dos investimentos nas propriedades.

Por enquanto, as estimativas indicam que 2026 deve terminar com uma redução significativa no consumo de fertilizantes, após o recorde registrado no ano anterior.

A queda projetada, contudo, ainda não representa um resultado consolidado. Os números definitivos dependerão das entregas realizadas até dezembro e da evolução das compras para o próximo ciclo agrícola.

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