O atacante David Corrêa, do Vasco, entregou seu passaporte à Polícia Civil do Rio de Janeiro nesta sexta-feira (30), por determinação da Justiça do Espírito Santo. Conhecido como DVD, o jogador de 30 anos é réu em uma investigação sobre suspeitas de financiamento do tráfico de drogas e participação em organização criminosa. O atleta nega as acusações e permanece em liberdade, sujeito a medidas cautelares.
O documento foi entregue por seu advogado na 14ª Delegacia de Polícia, no Leblon, Zona Sul do Rio. Além de ficar proibido de deixar o Brasil, David não poderá manter contato com testemunhas e outros investigados e deverá comparecer periodicamente à Justiça. O descumprimento injustificado dessas condições poderá levar à decretação de prisão preventiva.
Ex-agente de David Corrêa, do Vasco, é apontado pela polícia como chefe do tráfico no ES
Por que David Corrêa está sendo investigado?
A investigação começou após uma tentativa de homicídio registrada em 15 de março de 2024, na cidade da Serra, na Grande Vitória.
Na ocasião, um jovem foi sequestrado no bairro Serra Dourada 3, sob a suspeita de repassar informações sobre o tráfico de drogas a integrantes de uma facção rival.
A vítima foi levada em um carro clonado até o bairro Novo Porto Canoa, onde acabou atingida por disparos de arma de fogo nas costas.
Durante as investigações, a Polícia Civil do Espírito Santo apreendeu o celular de um dos suspeitos e encontrou conversas que levaram os agentes a identificar possíveis conexões entre integrantes do grupo criminoso e jogadores profissionais de futebol.
Entre os nomes identificados estava o de David Corrêa, que nasceu e cresceu na Serra.
A análise das mensagens levou os investigadores a suspeitar que o atleta poderia ter uma relação com pessoas envolvidas no tráfico de drogas e armas na região.
Ex-empresário do jogador é apontado como chefe do tráfico
Um dos principais investigados é Edson Vander da Silva Júnior, de 32 anos, apontado pela Polícia Civil como integrante da liderança do tráfico de drogas no bairro Serra Dourada 3.
Segundo os investigadores, Edson era amigo de infância de David e também teria atuado como seu empresário, administrando parte das finanças do jogador.
A relação entre os dois passou a ser analisada após a identificação de conversas consideradas suspeitas pela polícia.
Os agentes procuram esclarecer se o vínculo era exclusivamente pessoal e profissional ou se havia participação do atacante no financiamento das atividades criminosas atribuídas ao grupo.
A Polícia Civil também analisa movimentações financeiras e possíveis transferências de recursos.
A existência de amizade ou de uma relação profissional com um investigado não comprova, isoladamente, participação em crimes.
Mensagens encontradas pela polícia levantaram suspeitas
Segundo o delegado Rodrigo Sandi Mori, responsável pelas investigações na Serra, três conversas atribuídas ao atacante chamaram a atenção dos agentes.
Em uma delas, Edson teria enviado informações sobre a vítima da tentativa de homicídio, incluindo detalhes sobre o ataque e o estado de saúde do jovem.
De acordo com a Polícia Civil, David teria respondido:
“Mereceu tomar uns tiros mesmo.”
Em outro diálogo, o ex-empresário teria encaminhado uma fotografia de uma pistola. A resposta atribuída ao jogador foi:
“Tem que matar um para ver de qual é.”
Uma terceira conversa envolve a possível negociação de um veículo por intermédio do jogador.
Para os investigadores, o conteúdo das mensagens levantou dúvidas sobre a proximidade de David com as atividades do grupo e a possibilidade de participação financeira no esquema.
As conversas integram os elementos analisados pela polícia, mas sua interpretação e eventual relevância criminal deverão ser examinadas pela Justiça.
Operação A Tropa cumpriu mandados em quatro unidades da Federação
A Operação A Tropa foi deflagrada em 31 de agosto de 2026 pela Polícia Civil do Espírito Santo.
A ação teve como objetivo investigar uma organização criminosa suspeita de envolvimento com tráfico interestadual de drogas e armas, além de lavagem de dinheiro.
Ao todo, foram expedidos 15 mandados de busca e apreensão e quatro mandados de prisão temporária, com diligências no Espírito Santo, Rio de Janeiro, Goiás e Distrito Federal.
No Rio, os policiais cumpriram mandados na residência de David, na Barra da Tijuca, e no centro de treinamento do Vasco.
Na casa do atacante, foram apreendidos dois aparelhos celulares.
Os agentes também realizaram buscas no vestiário do clube, mas não encontraram materiais para apreensão no local.
Outro jogador investigado na operação foi Hayner Willian Monjardim Cordeiro, lateral-direito do Vila Nova, emprestado pelo Santos.
A situação jurídica dos atletas, entretanto, é diferente. David foi denunciado por suspeitas de financiamento do tráfico e participação em organização criminosa, enquanto Hayner não foi denunciado por esses mesmos crimes.
Justiça negou prisão preventiva, mas impôs restrições
A Polícia Civil do Espírito Santo solicitou a prisão preventiva de David e o bloqueio de seus bens.
O Ministério Público apresentou denúncia contra o atacante e pediu a aplicação de medidas cautelares.
A Justiça recebeu a acusação, mas não autorizou a prisão preventiva nem o bloqueio patrimonial solicitado pela polícia.
Em vez disso, determinou que David entregasse o passaporte e cumprisse outras restrições enquanto o processo avança.
O recebimento da denúncia significa que a Justiça considerou presentes os requisitos para iniciar a ação penal. Isso não representa uma condenação.
O jogador poderá apresentar sua defesa, contestar as provas e participar dos demais atos processuais.
O que diz a defesa de David Corrêa?
David prestou depoimento durante as diligências realizadas em agosto e reconheceu que conhece pessoas investigadas pela Polícia Civil.
O atacante afirmou que os contatos estão relacionados ao fato de ter crescido na mesma região da Serra, no Espírito Santo.
Ele negou envolvimento com tráfico de drogas, tráfico de armas ou lavagem de dinheiro.
O advogado Silmar Correa Junior afirmou que a relação com um dos investigados é uma amizade de infância e que o jogador não participou de atividades criminosas.
“David segue colaborando com a Justiça, como fez desde o início. Cumprirá as determinações judiciais e, ao final, restará demonstrada sua total inocência, com a consequente absolvição.”
A defesa também informou que o atleta contesta integralmente as acusações apresentadas.
O Vasco declarou que colabora com as autoridades e mantém David à disposição do clube durante o andamento das investigações.
Jogador pode continuar atuando pelo Vasco?
As medidas cautelares determinadas pela Justiça não impedem, neste momento, que David continue exercendo suas atividades profissionais no futebol brasileiro.
A principal restrição relacionada à carreira é a proibição de deixar o território nacional.
Como o Vasco não possui partidas internacionais previstas no calendário imediato, a entrega do passaporte não interfere diretamente nos próximos compromissos da equipe.
David participou da derrota do Vasco por 4 a 1 para o Flamengo, na quinta-feira (29), pelo Campeonato Brasileiro.
O clube tem compromisso previsto contra o Palmeiras no domingo (1º), pelo jogo de ida da semifinal da Copa do Brasil.
A participação do atacante nas partidas continuará dependendo das decisões da comissão técnica e de eventuais novos desdobramentos judiciais.
Próximos passos
Com o recebimento da denúncia, o processo criminal contra David Corrêa deverá seguir para as próximas etapas, incluindo a apresentação da defesa e a análise das provas.
A Polícia Civil e o Ministério Público também poderão aprofundar a apuração sobre movimentações financeiras, mensagens e possíveis vínculos entre os investigados.
O atacante deverá cumprir as medidas cautelares impostas pela Justiça do Espírito Santo.
Até o momento, David não foi condenado pelos crimes investigados e permanece em liberdade.