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Mensagens revelam que Hugo Motta discutiu sociedade milionária com Vorcaro e pediu ajuda em negócio na Paraíba

Conversas apreendidas pela PF mostram negociação de terreno de R$ 45 milhões, financiado em parte pelo Banco Master, além de contatos sobre projetos no Congresso; presidente da Câmara nega irregularidades
Redação NC News
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Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, mostram que o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), participou de negociações envolvendo uma possível sociedade em um empreendimento imobiliário milionário na Paraíba. O negócio, relacionado à compra de uma antiga fábrica de cimento em João Pessoa, envolveu um terreno adquirido por R$ 45 milhões e um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões concedido pelo banco a uma empresa controlada pela cunhada do parlamentar.

Os diálogos, divulgados inicialmente em setembro e retomados em reportagens nesta semana, revelam que Motta procurou Vorcaro para discutir os detalhes da operação e recebeu orientações sobre a estruturação da sociedade. As conversas também registram contatos sobre assuntos de interesse do setor financeiro e projetos em discussão no Congresso Nacional. O presidente da Câmara reconhece os contatos, mas nega qualquer irregularidade ou favorecimento.

Mensagens de Hugo Motta a Vorcaro citam “sociedade” em negócio e projeto na Câmara

Hugo Motta pediu ajuda a Vorcaro para concluir negociação

As conversas começaram em março de 2024, quando Motta ainda não ocupava a Presidência da Câmara. Naquele período, o deputado acompanhava uma negociação para adquirir uma área onde funcionava uma antiga fábrica de cimento na capital paraibana.

Em mensagem enviada em 9 de março, o parlamentar informou ao banqueiro que estava reunido com pessoas envolvidas na compra e que a empresa utilizada na operação estava sendo transferida para o nome de sua cunhada.

Motta também mencionou que uma das participantes das negociações, identificada como Adriana, poderia não ter conhecimento do formato de sociedade que havia sido combinado anteriormente.

O deputado pediu orientação sobre como proceder, porque havia um prazo curto para concluir o pagamento à InterCement, empresa ligada à antiga fábrica.

Vorcaro respondeu que faria uma operação rápida com Adriana e que organizaria, paralelamente, a questão societária.

A troca de mensagens indica que o ex-controlador do Master participava das tratativas financeiras do empreendimento. O material divulgado, entretanto, não comprova que Hugo Motta tenha se tornado sócio formal do negócio.

Empresa da cunhada recebeu empréstimo de R$ 22 milhões

A negociação envolvia a ETC Participações, empresa controlada por Bianca Medeiros, cunhada do presidente da Câmara.

Segundo documentos e informações divulgados sobre a operação, a companhia obteve um financiamento de pelo menos R$ 22 milhões do Banco Master em março de 2024.

O dinheiro foi utilizado na aquisição de um terreno de mais de 400 hectares, localizado em João Pessoa, onde anteriormente funcionava uma fábrica de cimento.

A área foi comprada por R$ 45 milhões. Documentos imobiliários citados nas reportagens indicam que o imóvel possuía valor fiscal de aproximadamente R$ 101 milhões.

Essa diferença não representa, isoladamente, uma irregularidade, já que a avaliação fiscal utilizada para fins tributários não corresponde necessariamente ao preço praticado em uma negociação privada.

A proposta empresarial previa o aproveitamento da área para um empreendimento imobiliário, com loteamento e desenvolvimento de um novo bairro.

A participação de familiares do parlamentar na operação e os contatos diretos com Vorcaro passaram a ser questionados após a divulgação das mensagens encontradas pela Polícia Federal.

Mensagens mostram agradecimento por confiança e parceria

Depois dos primeiros contatos, Motta voltou a procurar Vorcaro em 13 de março de 2024 e informou que as assinaturas necessárias para dar continuidade ao pagamento haviam sido resolvidas.

Dois dias depois, agradeceu ao banqueiro pela confiança e pela parceria, afirmando que a negociação havia sido concluída dentro do prazo.

Na conversa, Motta também mencionou a intenção de realizar uma nova reunião para discutir os próximos passos do projeto.

Vorcaro respondeu demonstrando satisfação com a parceria e fez referências à continuidade da relação entre os dois.

As mensagens mostram uma aproximação que ultrapassava contatos eventuais entre um parlamentar e um representante do setor financeiro.

Apesar disso, os registros conhecidos não permitem afirmar que Motta tenha recebido participação societária, recursos pessoais ou benefícios financeiros ilegais.

A definição sobre eventuais irregularidades depende da análise de contratos, registros empresariais, movimentações financeiras e outros elementos que possam esclarecer a estrutura real da operação.

Conversas também envolveram projeto de lei e Fundo Garantidor de Créditos

A relação entre Motta e Vorcaro não ficou restrita à negociação imobiliária.

Em novembro de 2024, o então controlador do Banco Master procurou o deputado para conversar sobre um projeto de lei relacionado ao mercado de créditos de carbono.

Vorcaro perguntou se poderia encontrá-lo naquele dia. Motta respondeu que estava buscando o texto da proposta para encaminhá-lo ao empresário.

As mensagens mostram uma interlocução sobre o assunto, mas não demonstram que o parlamentar tenha alterado o conteúdo da legislação para beneficiar o banco.

Outro diálogo, registrado em março de 2024, menciona o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo utilizado para proteger depositantes e investidores em determinadas situações envolvendo instituições financeiras.

Na conversa, Motta pediu que Vorcaro solicitasse à equipe do banco um estudo sobre o tema, para que ambos pudessem retomar a discussão em Brasília.

O conteúdo despertou questionamentos porque o Banco Master tinha interesses diretamente relacionados ao funcionamento e às regras do sistema financeiro.

Ainda assim, a existência de conversas sobre temas legislativos não comprova, por si só, interferência indevida na atividade parlamentar.

Registros apontam mais de 100 telefonemas e encontros

Outras mensagens analisadas pela imprensa indicam que a relação entre Hugo Motta e Daniel Vorcaro era frequente.

Entre março de 2024 e outubro de 2025, os registros apontam pelo menos 100 ligações concluídas entre os dois, além de outras 102 chamadas não completadas.

As conversas também mencionam ao menos 19 encontros combinados durante o período.

Em diversas ocasiões, Motta e Vorcaro utilizavam expressões como “amigo” e “irmão” para se referir um ao outro.

Os registros incluem ainda pedidos de transporte em aeronaves, convites para encontros e solicitações relacionadas a camarotes de eventos.

Uma das conversas, de abril de 2024, mostra Motta perguntando ao banqueiro sobre a saída de uma aeronave que faria o trajeto entre Guarulhos, em São Paulo, e Brasília.

Vorcaro respondeu que o avião estaria esperando pelo parlamentar.

Os contatos passaram a ser analisados publicamente no contexto das investigações envolvendo o Banco Master, mas a proximidade pessoal entre os dois não constitui, isoladamente, prova de prática criminosa.

Hugo Motta nega favorecimento e diz que conversas foram descontextualizadas

Em manifestação divulgada por sua assessoria, o presidente da Câmara rejeitou a interpretação de que os diálogos indiquem interesses ilegais ou favorecimento ao Banco Master.

Motta afirmou que, durante seus mandatos parlamentares, manteve contatos com representantes de diferentes setores econômicos e da sociedade brasileira, como parte de sua atividade política.

“Enfatizo que não há nenhum ilícito retratado nos diálogos publicados e repudio a tentativa de atribuir conversas descontextualizadas a qualquer relação de interesse espúrio ou de favorecimento por minha parte.”

Sobre o empréstimo concedido à empresa de sua cunhada, o deputado sustentou que a operação foi realizada entre duas empresas privadas.

Também argumentou que, quando o contrato foi firmado, ainda não eram conhecidos os fatos que posteriormente levaram às investigações sobre o Banco Master.

A empresa ligada a Bianca Medeiros já havia informado que a contratação do financiamento ocorreu em condições usuais de mercado, com garantias compatíveis com a operação.

Segundo essa versão, a companhia não possuía relação societária, comercial ou de gestão com Hugo Motta.

O parlamentar declarou confiar nas autoridades responsáveis pelas investigações e defendeu que a avaliação de eventuais irregularidades seja feita pelos órgãos competentes.

Entenda o contexto do caso Banco Master

As mensagens fazem parte de um conjunto de registros extraídos do celular de Daniel Vorcaro, que se tornou uma das principais fontes de informação nas investigações sobre o Banco Master.

O material inclui conversas com empresários, políticos e autoridades, além de referências a operações financeiras e interesses da instituição.

No caso de Hugo Motta, a documentação divulgada apresenta duas frentes de questionamento: a participação do parlamentar em tratativas sobre um empreendimento financiado pelo banco e seus contatos com Vorcaro sobre temas discutidos no Congresso.

Os registros mostram que as conversas ocorreram antes e depois da eleição de Motta para a Presidência da Câmara, em fevereiro de 2025.

A apuração precisa distinguir a existência de relações pessoais ou comerciais de eventuais condutas ilícitas. Até o momento, as mensagens divulgadas não constituem, isoladamente, comprovação de que o parlamentar tenha recebido vantagem ilegal ou interferido em decisões legislativas em troca de benefícios.

A relação de Hugo Motta com Vorcaro continua sujeita ao escrutínio público, enquanto as investigações sobre o Banco Master seguem em andamento.

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