Mesmo encerradas no Brasil desde setembro, as bets proibidas continuam encontrando caminhos para atrair apostadores pela internet. Uma investigação divulgada neste domingo (8/11) identificou 87 endereços diferentes de plataformas de apostas anunciados em apenas seis canais do Telegram, que somam mais de 43 mil inscrições. As mensagens oferecem bônus, comissões por indicação e até prometem saques sem cobrança de taxas.
A descoberta acontece mais de um mês depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) editar a Medida Provisória 1.394/2026, que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa em todo o país. Apesar das restrições, grupos e canais continuam divulgando cassinos virtuais, jogos como o popular tigrinho e plataformas que funcionam por endereços alternativos.
Segundo a investigação publicada pelo Metrópoles, alguns usuários afirmaram que foram incluídos em canais de apostas sem autorização. Outros relataram ter perdido dinheiro em sites divulgados pelo aplicativo. O Ministério da Fazenda informou que mais de 47 mil sites ilegais foram bloqueados desde a edição da medida provisória, mas a circulação de novos links mostra a dificuldade de conter esse mercado.
Bets e ‘jogo do tigrinho’ são proibidos no Brasil; veja o que muda em 11 pontos
Como as bets continuam funcionando no Telegram mesmo após a proibição?
O Telegram se tornou um dos espaços utilizados para divulgar plataformas que continuam oferecendo apostas ao público brasileiro.
Na investigação, realizada em seis canais, foram encontrados 87 domínios diferentes anunciados em mensagens que prometiam vantagens aos apostadores.
As publicações incluíam ofertas de bônus por convite, comissões diárias e promessas de saques sem taxas. Também havia divulgação de jogos de cassino on-line, incluindo o chamado jogo do tigrinho.
Uma das estratégias identificadas foi a publicação de vários endereços de uma mesma operação.
Quando um site apresentava problemas de acesso, os administradores orientavam os participantes a procurar outro link divulgado no canal.
Dessa maneira, a troca constante de endereços pode dificultar o trabalho de fiscalização e permitir que a divulgação continue mesmo quando determinados domínios são bloqueados.
Nenhum dos 87 endereços identificados terminava em .bet.br, extensão utilizada pelas casas de apostas que possuíam autorização federal antes da proibição geral.
É importante destacar que, com a entrada em vigor da nova medida provisória, a antiga autorização para operar deixou de permitir a continuidade das atividades. Portanto, a presença ou ausência dessa extensão não torna uma plataforma legal atualmente.
Usuários relatam entrada em grupos de apostas sem autorização
Um dos pontos mais preocupantes da investigação envolve pessoas que afirmam ter sido adicionadas a canais de apostas sem solicitar participação.
Segundo a reportagem, alguns usuários participavam anteriormente de grupos políticos de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e acabaram incluídos em canais de divulgação de jogos.
Uma das pessoas ouvidas relatou ter sido adicionada a mais de cinco canais em um único dia.
Essa situação amplia o alcance das publicações e coloca anúncios de apostas diante de pessoas que não necessariamente estavam procurando esse tipo de conteúdo.
Ao contrário de uma página que precisa ser acessada voluntariamente, um canal pode enviar publicações simultaneamente para milhares de contas inscritas.
Os seis canais examinados reuniam mais de 43 mil inscrições. Esse número não corresponde obrigatoriamente a 43 mil pessoas diferentes, porque um mesmo usuário pode participar de vários canais.
Bônus e promessas de dinheiro são usados para atrair apostadores
Para convencer usuários a acessar as plataformas, alguns canais utilizam promoções e promessas de vantagens financeiras.
Entre os anúncios identificados estavam:
- Bônus por indicação: ofertas de vantagens para quem convida amigos a participar.
- Comissões diárias: promessas de remuneração vinculada à divulgação ou à entrada de novos usuários.
- Saques sem taxas: mensagens que afirmam facilitar a retirada de valores.
- Endereços alternativos: divulgação de novos links para substituir páginas bloqueadas.
- Supostos registros oficiais: publicações que tentam transmitir aparência de autorização ou segurança.
Essas promessas fazem parte da propaganda divulgada pelos próprios canais e não representam garantias de pagamento ou de funcionamento regular.
A investigação também encontrou mensagens que alegavam a existência de registros oficiais, embora a exploração das apostas de quota fixa esteja proibida no Brasil.
O risco para o consumidor é encontrar uma plataforma que aparenta ser confiável, mas não possui identificação clara de seus responsáveis nem mecanismos regulares de proteção aos usuários.
Quem aposta em sites clandestinos pode perder dinheiro?
Sim. Além das perdas provocadas pelos próprios jogos, o apostador pode enfrentar dificuldades para recuperar valores depositados.
Antes da proibição, as empresas autorizadas precisavam cumprir exigências de identificação, fiscalização, certificação dos jogos e pagamento de prêmios.
Nas plataformas clandestinas, essas garantias podem não existir.
Duas pessoas ouvidas na investigação afirmaram ter realizado apostas em sites anunciados no Telegram e perdido dinheiro.
O problema não se limita à possibilidade de perder uma aposta. Mesmo quando o usuário acredita ter conquistado um prêmio, pode encontrar dificuldades para solicitar o saque.
Também existe o risco de fornecer dados pessoais e bancários a operadores cuja identidade não é conhecida.
O cenário reforça a preocupação com empresas que utilizam nomes semelhantes aos de plataformas anteriormente autorizadas para transmitir uma falsa sensação de segurança.
Mais de mil grupos de apostas já foram identificados pelo governo
A atuação das bets no Telegram não começou agora.
Logo após a publicação da medida provisória, em setembro, o Ministério da Justiça e Segurança Pública identificou 43 canais e grupos relacionados à divulgação de apostas e cassinos virtuais.
O monitoramento foi ampliado e, até 9 de outubro, o governo havia solicitado a remoção de 1.027 grupos e canais do Telegram, que somavam aproximadamente 18,4 milhões de inscrições.
O número representa a soma dos integrantes registrados nos espaços identificados, não necessariamente a quantidade de pessoas únicas alcançadas.
A fiscalização também identificou anúncios e perfis em outras plataformas digitais, como Facebook, Instagram, TikTok, WhatsApp e Discord.
Segundo o Ministério da Fazenda, o combate às operações clandestinas envolve o bloqueio de sites, a identificação dos meios de pagamento e a interrupção de contas financeiras relacionadas às apostas ilegais.
Até a divulgação da investigação deste domingo, a pasta contabilizava mais de 47 mil sites ilegais bloqueados desde a entrada em vigor da MP.
Operação investigou movimentação de R$ 1 bilhão em apostas ilegais
A dificuldade de combater as plataformas clandestinas também aparece em investigações policiais recentes.
Na quinta-feira (5), a Polícia Civil do Distrito Federal deflagrou a Operação Azzardo para investigar um esquema suspeito de movimentar aproximadamente R$ 1 bilhão por meio de plataformas de apostas ilegais.
A investigação apontou a utilização de empresas de fachada e uma fintech localizada na Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, para movimentar valores recebidos dos apostadores.
Segundo a polícia, pagamentos realizados por Pix eram direcionados a empresas que declaravam atividades sem relação com jogos on-line.
A Justiça determinou o bloqueio de contas e ativos financeiros dos investigados até o limite de R$ 3,483 bilhões.
Esse limite judicial não significa que todo o montante tenha sido efetivamente localizado ou bloqueado.
O NC News mostrou os detalhes da operação e a atuação das empresas investigadas.
Operação contra bets ilegais mira empresas de fachada no DF e fintech na Faria Lima
O que Lula proibiu e quando as bets saíram do ar?
A proibição das apostas de quota fixa foi estabelecida em 25 de setembro de 2026, quando Lula assinou a Medida Provisória 1.394.
A norma atingiu tanto as apostas esportivas quanto os jogos virtuais de cassino, incluindo modalidades conhecidas como jogos de tigrinho.
A proibição alcançou a exploração, oferta, intermediação, publicidade e patrocínio dessas atividades, inclusive quando oferecidas por empresas sediadas no exterior para pessoas localizadas no Brasil.
As regras começaram a valer com a publicação da MP, mas estabeleceram um período de transição para o encerramento das operações.
O cronograma divulgado pelo Ministério da Fazenda determinou:
- 25 de setembro: início da proibição de novos depósitos nas plataformas.
- Até 5 de outubro: prazo para os apostadores solicitarem voluntariamente a retirada dos saldos.
- A partir de 6 de outubro: indisponibilidade dos sites e aplicativos de apostas.
- De 9 a 14 de outubro: período previsto para devolução de valores pelas instituições financeiras.
- A partir de 15 de outubro: atuação da Caixa Econômica Federal nos casos em que a devolução não pudesse ser concluída pelos bancos.
As demais modalidades lotéricas autorizadas por lei, como a Mega-Sena e a Lotofácil, não foram atingidas pela proibição.
Para entender os efeitos da medida sobre apostadores e empresas, o NC News publicou um guia completo sobre a proibição das bets e a devolução dos valores mantidos nas plataformas.
Proibição das bets enfrenta resistência de empresas e clubes de futebol
Embora a medida esteja em vigor, seu futuro continua sendo discutido no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal (STF).
O governo Lula sustenta que a proibição é necessária para enfrentar problemas relacionados ao endividamento das famílias, ao comprometimento da renda e à dependência em jogos de apostas.
Representantes do setor, por outro lado, argumentam que o encerramento das empresas anteriormente autorizadas pode favorecer justamente o mercado clandestino.
Essa preocupação também foi apresentada por clubes de futebol durante uma audiência pública realizada no STF, na terça-feira (3).
Dirigentes de Flamengo, Fluminense, Corinthians, São Paulo e Botafogo defenderam a retomada de um mercado regulamentado, alegando riscos para contratos de patrocínio e receitas das equipes.
O Flamengo estimou que poderia perder aproximadamente R$ 430 milhões em receitas anuais relacionadas a patrocínios e outros contratos.
O valor é uma projeção apresentada pelo clube, não um prejuízo já confirmado.
O NC News acompanhou a discussão e mostrou como os clubes pressionam o STF pela volta das bets e alertam para perdas financeiras.
STF analisa se proibição das bets deve continuar
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) questiona a constitucionalidade da medida provisória no Supremo.
A entidade defende que a proibição viola princípios de segurança jurídica e prejudica empresas que haviam recebido autorização do governo para operar.
Durante a audiência pública de 3 de novembro, o ministro Luiz Fux ouviu representantes do Executivo, empresas, associações e clubes esportivos.
Fux manifestou posição pessoal favorável ao banimento das bets, mas ressaltou que os argumentos apresentados serão considerados no julgamento.
Na mesma audiência, a primeira-dama Janja Lula da Silva entregou ao magistrado um relatório sobre os impactos das apostas.
O NC News detalhou a manifestação de Fux e a entrega do relatório de Janja durante a audiência sobre as plataformas de apostas.
Até este domingo (8), o STF não havia anunciado uma decisão definitiva que autorizasse a retomada geral do setor.
Justiça chegou a liberar três bets, mas decisão foi suspensa
O impasse também chegou à Justiça Federal em São Paulo.
Uma decisão da desembargadora Adriana Pileggi, do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), havia autorizado a retomada das operações de três marcas vinculadas à empresa CDA Gaming: Casa de Apostas, Betsul e Jogo Online.
A magistrada questionou o encerramento das autorizações sem compensação financeira às empresas, considerando os investimentos realizados durante o período em que a atividade era permitida.
Entretanto, a autorização foi suspensa na sexta-feira (6), após recurso da Advocacia-Geral da União (AGU).
O presidente do TRF-3, desembargador Johonsom Di Salvo, acolheu o pedido do governo e restabeleceu a aplicação da medida provisória à empresa.
A suspensão permanece sujeita aos desdobramentos judiciais do caso.
O NC News havia mostrado a decisão inicial que liberou as três plataformas e os argumentos utilizados pela Justiça. O posicionamento foi posteriormente revertido pelo próprio tribunal.
Como denunciar sites e grupos que continuam oferecendo apostas ilegais?
Os consumidores que encontrarem anúncios ou plataformas de apostas ilegais podem encaminhar informações aos canais oficiais de fiscalização.
O Ministério da Fazenda recebe denúncias por meio da plataforma Fala.BR, que permite registrar reclamações e comunicações sobre irregularidades.
Para auxiliar a identificação, os usuários podem informar o nome do canal, os endereços divulgados e capturas de tela dos anúncios.
As denúncias podem contribuir para a localização de páginas clandestinas e para o bloqueio de operações financeiras relacionadas às plataformas.
Quem ainda possui valores não devolvidos por empresas que encerraram suas atividades deve procurar os canais oficiais de atendimento e verificar os procedimentos de restituição previstos pelo governo.
Não é recomendável realizar novos depósitos em links divulgados por grupos ou mensagens privadas, mesmo quando os anúncios apresentam promessas de bônus, pagamentos rápidos ou supostas autorizações oficiais.
Próximos passos: bets podem voltar a funcionar no Brasil?
A proibição estabelecida pela Medida Provisória 1.394/2026 continua em vigor, mas ainda precisa passar pela análise do Congresso Nacional.
Para se tornar uma lei permanente, a medida deverá ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal dentro do prazo constitucional.
Caso não seja convertida em lei, poderá perder a validade. Também existe a possibilidade de alterações durante sua tramitação ou de decisões judiciais que modifiquem seus efeitos.
Enquanto isso, o governo mantém as ações de fiscalização, e representantes do setor continuam contestando a proibição.
A presença de dezenas de endereços clandestinos em canais do Telegram revela um dos principais desafios dessa política: impedir que as apostas proibidas continuem chegando aos brasileiros por caminhos alternativos, mesmo depois do fechamento das plataformas anteriormente autorizadas.