O Brasil entra em campo neste sábado (13), às 19h, para encarar o Marrocos no MetLife Stadium, dando o pontapé inicial em busca do tão sonhado hexacampeonato. Mas quem parar para prestar atenção no som vindo das arquibancadas americanas vai notar um fenômeno curioso: em 2026, a nossa Seleção estreia sem um grande “hino” popular que seja a cara da competição.
Diferente de edições passadas, onde uma melodia específica grudava na mente do trabalhador, a torcida canarinho vive uma espécie de vácuo musical. Encontrar uma canção que realmente incendeie o público nos estádios e bote o rival para tremer virou o principal desafio das torcidas organizadas e do Movimento Verde-Amarelo no exterior.
O passado à base de marchinhas e ufanismo
Esse apagão musical, na verdade, expõe uma característica histórica: o Brasil é movido a músicas de rádio ou vinhetas de TV, mas nunca teve uma tradição forte de “cantos de torcida” originais dentro do estádio. No bicampeonato de 1958 e 1962, o país inteiro cruzava as ruas cantando a marchinha “A Taça do Mundo é Nossa”, que fez tanto sucesso que virou até hit no Carnaval de 1959.
Já em 1970, ano do tricampeonato no México, a trilha sonora foi embalada pelo clássico “Pra Frente Brasil”, criada pelo publicitário Miguel Gustavo. Com a famosa letra que chamava os “90 milhões em ação”, a música acabou sendo usada de forma massiva como propaganda política pelo regime da ditadura militar do então chefe de governo Emílio Médici.
A era das vinhetas de televisão e os hits do pagode
Com a chegada das transmissões modernas de TV, as emissoras assumiram o papel de criar os hinos oficiais no imaginário das classes C e D. Em 1994, ano do tetracampeonato, a vinheta “Coração Verde e Amarelo” virou um chiclete nacional na voz do povo:
“Eu sei que vou, vou do jeito que eu sei / De gol em gol, com direito a replay… É taça na raça, Brasil!”
Quatro anos antes, em 1990, a clássica “Papa Essa Brasil” já tinha pavimentado esse caminho, composta pela lendária dupla Michael Sullivan e Paulo Massadas.
Mas o futebol também abria espaço para a ousadia dos próprios atletas. Em 1982, o icônico lateral-esquerdo Júnior, que também era sambista de primeira linha, gravou e estourou nas rádios com o compacto “Povo Feliz” (do famoso refrão “Voa, canarinho, voa…”), que embalou o país até a trágica derrota para a Itália no Sarriá. O último grande fenômeno de massa aconteceu no penta, em 2002, quando a música “A Festa”, de Ivete Sangalo, virou o tema oficial dos vestiários e das madrugadas da torcida brasileira.
O espelho nos rivais argentinos
O desejo de mudar esse cenário e criar um canto de estádio legítimo ganhou força após assistirmos, de camarote, às festas absurdas feitas pelos nossos vizinhos argentinos. Nas últimas edições da competição internacional — no Rio em 2014, na Rússia em 2018 e no Catar em 2022 —, os “hermanos” invadiram as ruas com hinos como “Brasil, decime qué se siente” e “Muchachos”, cantados a plenos pulmões até pelos jogadores dentro do vestiário, mantendo uma tradição que vem desde os tempos de Maradona em 1986.
Para tentar dar o troco e empurrar o time de Carlo Ancelotti, mais de 30 representantes de torcidas organizadas brasileiras desembarcaram nos Estados Unidos. A grande aposta para este ano é o canto “Brasil Ole, Ole, Ole”, que exalta as nossas cinco estrelas no peito.
A música, porém, que nasceu em campanhas publicitárias em 2022, ainda sofre para cair na graça do povão e substituir o tradicional, mas já desgastado, “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”.
O que acontece agora?
A bola vai rolar e a contagem regressiva terminou. Se a música perfeita para o hexa ainda não está na ponta da língua de todo mundo, o espetáculo e a cobrança por futebol bem jogado continuam os mesmos. Cabe agora aos craques Raphinha e Vinícius Júnior incendiarem o gramado em Nova Jersey para fazer o torcedor soltar o grito mais importante do esporte: o de gol. Toda a cobertura e os bastidores das arquibancadas você acompanha em tempo real no nosso portal oficial.