Valdemar Costa Neto passa o início de agosto tentando conter um incêndio dentro do Partido Liberal (PL). Desde o fim de julho, o presidente da sigla enfrenta a resistência de Michelle Bolsonaro em participar da campanha de 2026 e em se reconciliar com o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Vídeo, mágoa e um palanque vazio
A crise ganha corpo após a divulgação de um vídeo em que Michelle critica Flávio. O conteúdo, segundo relatos de bastidores, abre uma ferida que ela não está disposta a fechar.
O âncora da CNN Brasil Uribe relata que Michelle não aceita recuar. “Ela disse que tudo que ela falou no vídeo é o que ela pensa e ela não vai recuar. A gente vê que é uma ‘fratura’ que deve seguir por todo o processo eleitoral”, afirma. O jornalista acrescenta que “ela inclusive tem indicado que não vai subir no palanque de Flávio durante o processo eleitoral”.
Valdemar tenta uma saída intermediária. Sugere que a ex-primeira-dama grave um novo vídeo, com uma espécie de retratação parcial, para reduzir o dano ao senador e ao partido. Michelle recusa. O gesto é lido na cúpula do PL como recado direto: ela não aceita ser usada apenas como ativo eleitoral de ocasião.
Prisão de Bolsonaro e o limite da influência
Enquanto o conflito se prolonga, Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar e assiste à crise à distância. A analista política Larissa Rodrigues relata que, para dirigentes do PL, só o ex-presidente teria autoridade para tentar selar a paz entre a mulher e o filho.
Essa mediação, porém, não acontece. Segundo Larissa, o partido enfrenta até dificuldades de contato com Bolsonaro. “É uma prova do quanto será difícil fazer a campanha com o grande líder do PL preso”, avalia. Ela lembra que o ex-presidente queria ser candidato em 2026, mas hoje está impedido e isolado.
Nos bastidores, há versões conflitantes sobre o quanto Bolsonaro sabia do vídeo de Michelle. Aliados da ex-primeira-dama dizem que ele é informado previamente sobre o conteúdo. Pessoas ligadas a Flávio garantem que o pai é pego de surpresa e se irrita com o ataque.
Enquanto Michelle se mantém firme, a aposta de Flávio, relatada por analistas, é que o desgaste diminua com o tempo. A estratégia é confiar que parte do eleitorado conservador siga votando nele como representante automático do bolsonarismo, mesmo com a disputa doméstica à mostra.
Rejeição alta e conselho ignorado sobre Lula
O embate interno se cruza com outro problema: a imagem de Flávio nas pesquisas. Levantamentos Datafolha e AtlasIntel no fim de julho mostram que a rejeição ao senador supera a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
No Datafolha, 48% dos entrevistados dizem que não votariam em Flávio de jeito nenhum, contra 46% que rejeitam Lula. Na AtlasIntel, o quadro se repete com números ainda piores para o senador: 53% não votariam nele, ante 48% que rejeitam o petista.
Valdemar lê esses números como alerta e tenta ajustar o discurso do presidenciável do partido. Em conversas internas, ele relata ter aconselhado o senador a mudar de foco. “A grande vantagem que temos é Lula ter 48% de rejeição e não sair disso. Flávio não tem que falar mal do Lula, porque a rejeição dele já está alta e não vai crescer”, afirma o dirigente.
O presidente do PL pressiona para que Flávio deixe os ataques pessoais de lado e fale de economia, tema que, acredita, ainda pode mover o eleitorado em 2026. Até aqui, porém, o conselho não produz mudança visível no tom do senador, que segue usando o petista como principal alvo.
Saída de Michelle do PL Mulher e vácuo de liderança
A tensão familiar explode em plena reorganização interna do PL. Em 30 de julho de 2026, Michelle anuncia que deixa a presidência nacional do PL Mulher, segmento que impulsiona sua projeção política desde 2022. Ela diz que vai se dedicar aos cuidados do marido e da família.
Valdemar responde dois dias depois no 3º Seminário Nacional de Comunicação do PL, no ExpoRio, no Rio de Janeiro. Em entrevista publicada em 3 de agosto, ele deixa claro que não pretende preencher o lugar. “A primeira coisa que eu fiz foi não substituí-la, porque nós não temos ninguém com o carisma que ela tem. A Michelle é um fenômeno”, declara ao Pleno.News.
Sem uma presidência nacional do PL Mulher, o comando passa às lideranças estaduais. É um arranjo de emergência, admitido também como reconhecimento de que não há nome com apelo semelhante ao de Michelle, especialmente entre mulheres evangélicas e eleitoras moderadas, público que o PL tenta preservar.
Valdemar ainda demonstra esperança de que a ex-primeira-dama volte ao jogo. “Nós vamos aguardar até a Michelle repensar, pôr a cabeça no lugar, porque ela vai fazer muita falta para todos nós”, diz.
Risco eleitoral e o futuro de Bolsonaro
Com o partido em disputa interna e o principal líder em prisão domiciliar, Valdemar tenta enquadrar o conflito em termos de sobrevivência política. Ele liga diretamente o resultado das urnas em 2026 à situação jurídica de Jair Bolsonaro.
“Nós não podemos arriscar perder essa eleição, porque, se nós perdermos a eleição, o Bolsonaro fica mais dez anos preso. Então, nós não podemos perder, nós temos que ganhar. Nós temos que unir nosso pessoal. Se nós saímos divididos de casa, como é que nós vamos ganhar? Então tem que ter paciência”, afirma.
A leitura circula entre dirigentes e candidatos do PL: uma derrota nacional prolongaria a influência dos adversários na Justiça e no Congresso e deixaria Bolsonaro mais vulnerável. Essa narrativa reforça o peso da disputa interna com Michelle e a necessidade de reverter a rejeição de Flávio.
O setor mais afetado, apontam analistas, é a comunicação política do partido, que perde sua principal vitrine feminina em um momento de disputa intensa pelo voto moderado e pelo eleitorado de mulheres urbanas. A ausência de Michelle na linha de frente esvazia eventos, dificulta a mobilização de base e abre espaço para adversários disputarem esse público.
Enquanto tenta apagar incêndios, Valdemar também precisa administrar sua própria biografia política, marcada por alianças com diferentes campos, inclusive o PT e Lula em períodos anteriores. Hoje, essa trajetória é usada tanto por aliados quanto por críticos para medir seus limites como fiador da unidade bolsonarista no PL.
Sem gesto concreto de reconciliação e com Jair Bolsonaro isolado, o partido entra na pré-campanha de 2026 em modo de espera. A dúvida, dentro e fora do PL, é quanto tempo essa fratura resiste antes de cobrar um preço mais alto nas urnas — e na liberdade do principal líder da direita.
Michelle Bolsonaro pode voltar ao comando do PL Mulher?
Valdemar Costa Neto afirma que não vai nomear substituta e diz que espera Michelle “repensar” a decisão, mas, por enquanto, não há indicativo concreto de retorno.
Por que a rejeição de Flávio Bolsonaro preocupa tanto o PL?
Porque as pesquisas Datafolha e AtlasIntel mostram rejeição de 48% e 53% ao senador, acima dos índices de Lula, o que reduz o potencial de crescimento eleitoral dele.
A prisão de Jair Bolsonaro interfere diretamente na crise?
Sim. Analistas avaliam que apenas ele teria autoridade para mediar a disputa entre Michelle e Flávio, mas a prisão domiciliar e o isolamento limitam sua atuação política.