O Exército do Líbano assume nesta terça-feira, 21, o controle de uma cidade no sul do país, horas depois da retirada das tropas de Israel. A movimentação, iniciada às 9h45 (horário local), marca o primeiro teste concreto do plano de estabilização mediado pelos Estados Unidos.
Teste decisivo para o plano dos EUA
O avanço das tropas libanesas sobre a cidade simboliza mais que uma mudança de bandeiras em prédios públicos. Representa uma tentativa de reorganizar a segurança em uma das regiões mais voláteis do Oriente Médio, após meses de confrontos envolvendo Israel, grupos armados locais e a pressão indireta do Irã.
Na avaliação de diplomatas envolvidos nas conversas, o arranjo só funciona se o Exército do Líbano conseguir exercer autoridade plena sobre áreas que, na prática, são dominadas há anos por grupos armados. É essa capacidade que passa a ser medida a partir de hoje.
“A transferência de controle territorial realizada nesta terça-feira representa o primeiro teste do plano mediado pelos EUA”, afirma a repórter Maya Gebeily, da agência Reuters, que acompanha a operação a partir de Beirute.
Como funciona o programa-piloto
O acordo prevê uma retirada gradual das tropas israelenses de uma faixa de aproximadamente 10 quilômetros de profundidade no sul do Líbano, ainda ocupada após a última escalada de violência. A cada recuo, unidades do Exército libanês entram para ocupar o vazio deixado na linha de frente.
Washington atua como fiador político do arranjo. O chamado programa de “zonas-piloto” busca responder a uma pergunta-chave: o Líbano tem meios e vontade política para conter milícias, sobretudo o Hezbollah, grupo apoiado pelo Irã que se tornou ator central na política e na segurança do país?
O plano inclui um ponto sensível: a expectativa de que o Exército libanês confisque armas de grupos armados em partes do sul. Autoridades israelenses dizem em privado duvidar da eficácia dessa promessa, mas avaliam que qualquer passo que aumente a presença do Estado libanês na fronteira ajuda a reduzir o risco de uma nova guerra aberta.
Capital político para Beirute, cautela em Tel Aviv
Para o governo libanês, a operação oferece uma rara oportunidade de recuperar autoridade sobre um território marcado por destruição e deslocamento em massa. Dezenas de vilarejos foram arrasados nos últimos meses; hospitais, usinas de energia e estações de bombeamento de água viraram escombros. Dezenas de milhares de moradores seguem deslocados, sem condições de voltar para casa.
Se o Exército conseguir estabilizar a cidade recém-assumida e avançar no desarmamento parcial de milícias, Beirute ganha capital político interno e externo. Mostra que ainda é capaz de fazer valer, com alguma autonomia, a figura de Estado soberano, num país onde atores armados rivais competem por influência com apoio de potências estrangeiras.
Israel, por sua vez, tenta reduzir a exposição direta no território vizinho, depois de sucessivas rodadas de ataques e contra-ataques na fronteira. A retirada de hoje, porém, não significa relaxamento da vigilância. O comando militar israelense acompanha com atenção cada movimento das tropas libanesas e segue preparado para revidar qualquer ação do Hezbollah considerada ameaça direta.
Em público, autoridades israelenses descrevem o acordo como uma aposta de longo prazo. Em conversas reservadas, admitem temer que grupos armados mantenham presença discreta na região, mesmo sob o guarda-chuva formal do Exército libanês.
Quem ganha, quem perde com a nova configuração
A curto prazo, o principal beneficiado é o próprio governo libanês, que volta a pisar, com farda oficial, em uma área onde, por anos, teve presença limitada. A entrada de tropas regulares, em tese, abre caminho para retomada gradual de serviços básicos, reconstrução de infraestrutura e retorno controlado de parte da população que fugiu dos combates.
Empresários locais e pequenos agricultores pressionam por estabilidade mínima para reabrir comércios, retomar cultivos e reconstruir casas. Menos tanques estrangeiros nas ruas, combinados com a presença de soldados libaneses, pode significar estradas menos bloqueadas, transporte mais previsível e algum alívio na circulação de mercadorias.
Grupos armados locais tendem a sair enfraquecidos, sobretudo se o Exército insistir na linha dura de confiscar armamentos. Milícias que construíram influência nos vácuos deixados pelo Estado podem ver sua capacidade de impor regras à população diminuir, ainda que mantenham apoio em bolsões específicos.
Para civis, o impacto é ambíguo. A redução de confrontos diretos com Israel e a presença de uma única força de segurança oficial podem significar menos risco de morte súbita por bombardeios. Ao mesmo tempo, operações de busca por armas e suspeitos costumam trazer revistas, checkpoints e tensão diária.
Uma paz precária em cenário regional volátil
O movimento desta terça-feira ocorre em um tabuleiro regional em combustão. Nos últimos meses, o Irã troca ataques com os Estados Unidos e atinge alvos em países como Bahrein, Kuwait e Jordânia, arrastando aliados e rivais para uma escalada imprevisível. Cada passo na fronteira sul do Líbano é lido à luz desse embate maior.
Os Estados Unidos intensificam o acompanhamento da operação. A diplomacia americana vê na transferência de controle uma vitrine de sua influência em Beirute e um recado a Teerã: ainda é Washington quem dita, em parte, o ritmo dos rearranjos militares às portas de Israel.
Internamente, o governo libanês enfrenta um jogo delicado. Precisa mostrar firmeza no desarmamento de milícias sem provocar uma ruptura frontal com o Hezbollah, que mantém presença política e militar relevante no país. Qualquer passo em falso pode acender disputas internas e paralisar o esforço de estabilização.
A cidade assumida hoje funciona, assim, como laboratório. Se a coordenação entre Exército, governo central e mediadores internacionais der resultado, novas áreas podem entrar no programa de zonas-piloto. Se fracassar, cresce o risco de um retorno rápido à lógica dos confrontos esporádicos, com impacto direto sobre uma economia já pressionada e um sistema político em permanente estado de crise.
O Líbano vive mais um dia em que a linha entre guerra e trégua se afina perigosamente. A presença de soldados nacionais nas ruas de uma cidade antes controlada por tropas estrangeiras pode ser o início de uma reconstrução lenta ou apenas mais um capítulo de uma paz precária. As próximas semanas dirão se o primeiro teste do plano mediado pelos EUA abre uma janela real de estabilidade ou só adia o próximo confronto.