Uma investigação que começou com suspeitas envolvendo o Banco Master acabou colocando o Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Federal (PF), a Procuradoria-Geral da República (PGR), o Congresso e o Palácio do Planalto no centro de uma crise política.
Em poucos dias, relatórios da PF vieram a público, ministros do Supremo entraram em rota de colisão, pedidos de investigação foram apresentados e o presidente do STF, Edson Fachin, precisou assumir a condução dos principais desdobramentos.
Para entender o que aconteceu, o NC News reuniu os dez pontos principais da crise.
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1. Tudo começou com a investigação do Banco Master
A origem da crise está na Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de irregularidades financeiras envolvendo o Banco Master e empresas ligadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Durante as investigações, a Polícia Federal apreendeu o celular de Vorcaro e encontrou mensagens, documentos e outros arquivos que passaram a fazer parte dos relatórios encaminhados ao Supremo.
O caso, que inicialmente tinha como foco o sistema financeiro, acabou envolvendo autoridades dos três Poderes.

2. Mendonça retirou o sigilo dos relatórios da PF
O principal ponto de virada ocorreu em 1º de setembro, quando o ministro André Mendonça retirou o sigilo de relatórios produzidos pela Polícia Federal.
Os documentos continham informações sobre diferentes autoridades, entre elas Alexandre de Moraes, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
A divulgação mudou completamente o foco da investigação e levou para o centro do debate a relação entre integrantes do Judiciário e personagens do caso Master.
3. Alexandre de Moraes virou um dos principais personagens
Entre os documentos divulgados estão mensagens trocadas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.
Segundo os relatórios da PF, os dois mantiveram contatos frequentes. As mensagens também envolvem conversas sobre encontros e questões relacionadas às investigações.
Outro ponto que chamou atenção foi a existência de registros sobre versões de contratos entre empresas ligadas a Vorcaro e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.
A PF apontou que uma versão digital de uma minuta teria sido modificada por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” antes da assinatura.
Moraes nega irregularidades, enquanto o escritório de sua esposa afirma que os contratos seguiram as regras aplicáveis à advocacia.

4. A crise virou também uma disputa envolvendo André Mendonça
Depois da divulgação dos relatórios, o foco passou a ser também a atuação do próprio Mendonça.
Moraes apresentou questionamentos sobre a condução de determinadas investigações e sobre a participação de Mendonça em tratativas relacionadas a acordos de colaboração.
O ministro apontou possíveis irregularidades e pediu que a atuação do colega fosse investigada.
Os relatórios de inteligência usados nesse contexto, porém, não têm caráter de prova judicial por si só. Eles servem para apontar informações e possíveis linhas de investigação.
5. O conflito entre ministros ficou público
A crise deixou de ser apenas uma disputa de bastidores.
De um lado, Moraes questionou a forma como Mendonça conduziu determinadas apurações. Do outro, Mendonça manteve a defesa da divulgação dos documentos produzidos pela PF.
A divisão expôs um conflito interno no STF em um momento de forte pressão sobre a Corte.
A situação ganhou ainda mais peso porque os questionamentos passaram a envolver diretamente ministros responsáveis por investigações de grande repercussão nacional.

6. Fachin assumiu o papel de mediador da crise
Como presidente do STF, Edson Fachin passou a concentrar decisões importantes sobre o conflito.
Na quinta-feira (3), ele determinou que Moraes, Mendonça, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues prestassem esclarecimentos em cinco dias sobre diferentes aspectos da investigação.
Fachin também retirou do chamado inquérito das fake news o pedido feito por Moraes contra Mendonça e determinou que a questão tramite em outro procedimento, sob sua relatoria.
Na sexta-feira (4), Fachin afirmou que a resposta institucional do Supremo será “firme, proporcional e rigorosa” e declarou que nenhuma autoridade está acima da Constituição.

7. O antigo inquérito das fake news voltou ao centro da discussão
O inquérito das fake news, aberto em 2019 e relatado por Alexandre de Moraes, também passou a fazer parte da crise.
Foi nesse procedimento que Moraes apresentou o pedido relacionado à atuação de Mendonça.
Fachin decidiu retirar o pedido do processo e, nesta semana, voltou a defender o encerramento do próprio inquérito.
Segundo o presidente do STF, os acontecimentos recentes reforçaram a urgência de concluir a investigação.
8. A PGR também entrou na mira da crise
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, foi citado nos documentos relacionados ao caso.
Após a divulgação dos relatórios, a PGR questionou a forma como parte da investigação foi conduzida e pediu a nulidade da apuração realizada por Mendonça.
A discussão envolve, entre outros pontos, os limites da atuação de magistrados em investigações e o papel do Ministério Público na condução de procedimentos pré-processuais.
9. Lula entrou no debate
A crise chegou ao Palácio do Planalto.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que nenhuma autoridade deve utilizar o cargo para obter benefícios pessoais e também criticou o que chamou de vazamentos seletivos.
O presidente ainda voltou a defender mudanças no Judiciário em meio ao desgaste provocado pelas revelações.
Embora não tenha citado diretamente Moraes em algumas manifestações, as declarações foram interpretadas em Brasília como um sinal de preocupação do governo com a crise institucional e seus possíveis efeitos políticos.
10. O que pode acontecer agora?
A crise ainda não tem um desfecho definido.
Fachin deverá analisar os esclarecimentos solicitados a Moraes, Mendonça, Gonet e Andrei Rodrigues e decidir os próximos passos.
Também está em discussão a possibilidade de levar determinadas questões ao plenário do Supremo.
Ao mesmo tempo, Fachin defende três medidas como prioridades de sua gestão: a criação de um Código de Ética para os ministros do STF, o encerramento do inquérito das fake news e a modernização do sistema de Justiça.
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Entenda O Contexto
A crise desta semana nasceu de uma investigação sobre suspeitas financeiras envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro, mas rapidamente ultrapassou os limites do caso original. Relatórios da Polícia Federal passaram a revelar informações sobre relações e contatos envolvendo autoridades do Judiciário, enquanto a divulgação dos documentos provocou uma reação direta dentro do próprio Supremo.
O confronto entre Alexandre de Moraes e André Mendonça colocou em discussão não apenas o conteúdo das investigações, mas também a maneira como magistrados, Polícia Federal e Ministério Público atuam em casos de grande repercussão. Com a entrada de Paulo Gonet, Lula e Edson Fachin no debate, o episódio ganhou dimensão institucional.
Agora, o principal desafio do STF é encontrar uma resposta que preserve as investigações, respeite o devido processo legal e evite que a disputa entre autoridades aumente ainda mais o desgaste da Corte.
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