Dez anos depois da Chacina de Pioz, crime que terminou com quatro integrantes de uma família paraibana assassinados na Espanha, Walfran Nogueira diz ter perdoado o próprio sobrinho, François Patrick Nogueira Gouveia, condenado pelos assassinatos. Apesar do perdão, o tio ainda espera respostas da Justiça sobre a possível participação de outra pessoa no caso.
Walfran é irmão de Marcos Campos Nogueira, uma das vítimas. Marcos, a esposa Janaína Santos Américo e os filhos Maria Carolina, de 4 anos, e David, de 1 ano, foram mortos por Patrick em agosto de 2016, na cidade espanhola de Pioz. O assassino confessou os crimes e cumpre pena na Espanha.
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Entenda o que aconteceu
A chacina aconteceu em 17 de agosto de 2016. Patrick, então com 19 anos, matou inicialmente Janaína e as duas crianças enquanto Marcos estava trabalhando. O tio foi assassinado posteriormente, quando retornou para casa.
Os corpos foram encontrados cerca de um mês depois. Patrick chegou a voltar ao Brasil antes de se tornar o principal suspeito, mas posteriormente retornou à Espanha, se entregou às autoridades e confessou os quatro assassinatos.
Tio diz que decidiu perdoar Patrick
Uma década depois, Walfran afirma ter tomado a decisão de perdoar o sobrinho responsável pela morte do irmão e de outros três integrantes da família.
O perdão, no entanto, não significa que ele defenda o fim da responsabilização criminal de Patrick. O brasileiro continua preso na Espanha cumprindo as penas impostas pelos assassinatos.
Para Walfran, ainda existe uma questão que precisa de uma resposta definitiva: a situação de Marvin Henriques Correia, amigo de Patrick que estava no Brasil e manteve contato com ele por WhatsApp enquanto a chacina acontecia.
Mensagens durante chacina estão no centro de outro processo
Patrick começou a conversar com Marvin depois de já ter matado Janaína e as duas crianças e enquanto aguardava Marcos voltar do trabalho.
Nas mensagens obtidas durante a investigação, Patrick relatou ao amigo o que havia feito. As conversas também registraram comentários sobre vestígios, saída da residência e outras circunstâncias relacionadas aos crimes.
A possível relevância criminal dessas mensagens é justamente um dos pontos que continuam sendo discutidos pela Justiça brasileira.
Tio cobra Justiça sobre suposto auxílio
Apesar de ter perdoado Patrick, Walfran defende que o processo relacionado à eventual participação de Marvin tenha uma conclusão.
Marvin chegou a ser investigado e processado no Brasil por causa das mensagens. A discussão jurídica é se o conteúdo das conversas representou efetivamente instigação ou apoio moral ao assassinato de Marcos, ou se, apesar de moralmente reprovável, não configurou participação criminal.
A defesa de Marvin sustenta que as conversas começaram depois que as três primeiras vítimas já estavam mortas e afirma que as mensagens não influenciaram Patrick na decisão de assassinar Marcos.
Processo chegou a ser encerrado e depois foi reaberto
Marvin foi absolvido sumariamente pela Justiça paraibana em 2021. Na ocasião, o entendimento foi de que ele não havia participado do homicídio e que sua conduta não configurava crime previsto no Código Penal.
O cenário mudou em 2023, quando a Câmara Criminal do Tribunal de Justiça da Paraíba revogou a absolvição após recurso do Ministério Público.
O entendimento adotado foi de que existiam elementos que justificavam a continuidade do processo, incluindo a hipótese de instigação e apoio moral. Isso não significa que Marvin tenha sido considerado culpado: a responsabilidade criminal dele ainda é objeto da ação.
Em 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou mais um recurso da defesa, e o processo continuou tramitando na Justiça.
Defesa nega participação de Marvin
A defesa de Marvin sustenta que as mensagens trocadas com Patrick podem ser consideradas reprováveis moral e eticamente, mas afirma que elas não configuram participação jurídico-penal nos homicídios.
Os advogados também argumentam que Patrick iniciou espontaneamente a conversa depois das três primeiras mortes e que Marvin não determinou que ele assassinasse Marcos.
A defesa ainda questiona qual esfera da Justiça brasileira seria competente para julgar o processo, diante da dimensão internacional do caso e da cooperação entre Brasil e Espanha durante a investigação.
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Patrick continua preso na Espanha
Patrick foi condenado na Espanha pelos quatro assassinatos e permanece no sistema penitenciário do país.
Atualmente, ele cumpre pena no Centro Penitenciário Madrid VI, em Aranjuez, na província de Madri. A legislação espanhola prevê possibilidade de revisão da prisão permanente revisável após o cumprimento do período mínimo estabelecido.
No caso de Patrick, uma futura revisão da pena poderá abrir um novo capítulo do processo, mas isso não significa libertação automática.
Entenda o contexto
A Chacina de Pioz ganhou enorme repercussão no Brasil e na Espanha pela relação familiar entre assassino e vítimas e pelas mensagens enviadas durante os crimes.
A família havia deixado a Paraíba para tentar construir uma nova vida na Espanha. Marcos chegou ao país em 2013. Posteriormente, Janaína e a filha se mudaram para a Europa, enquanto David nasceu em território espanhol.
Patrick foi para a Espanha em março de 2016 com o objetivo de tentar seguir carreira no futebol. Marcos ajudou o sobrinho e chegou a recebê-lo em casa. Apenas cinco meses depois, ocorreu a chacina.
Uma década depois, a autoria dos quatro assassinatos está definida judicialmente e Patrick continua preso. O capítulo ainda sem desfecho definitivo está no Brasil: a Justiça precisa decidir se as mensagens trocadas por Marvin durante o crime configuram participação penal ou uma conduta sem responsabilidade criminal.
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