Mendonça restringe inteligência da PF e proíbe relatórios sobre atuação de autoridades

Ministro do STF suspendeu produção e compartilhamento de documentos e determinou investigação sobre relatórios que, segundo ele, teriam extrapolado os limites da inteligência policial
Redação NC News
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O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a suspensão imediata da produção, elaboração e compartilhamento de determinados relatórios de inteligência da Polícia Federal (PF) que tenham como objetivo analisar atos praticados por magistrados, integrantes da Advocacia Pública e policiais federais no exercício de suas funções.

A decisão foi tomada no mesmo despacho em que Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa.

Segundo o ministro, os documentos analisados ultrapassaram os limites da atividade de inteligência e teriam chegado ao que classificou como “monitoramento e coleta dirigida” de autoridades.

A decisão também determinou que a Corregedoria da PF abra procedimentos de natureza penal e administrativo-disciplinar para investigar a produção dos relatórios.

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Medida cria uma barreira para a inteligência da PF

Na prática, a determinação impede que a estrutura de inteligência da Polícia Federal produza documentos destinados a avaliar a atuação funcional de magistrados, integrantes da advocacia pública ou policiais no desempenho da atividade de polícia judiciária.

Mendonça argumentou que a Diretoria de Inteligência Policial não pode assumir funções que seriam próprias de órgãos de controle ou corregedoria.

Para o ministro, decisões judiciais devem ser questionadas pelas vias processuais previstas em lei. Eventuais infrações disciplinares envolvendo magistrados também devem seguir os mecanismos constitucionais específicos.

A mesma lógica, segundo a decisão, vale para integrantes da Advocacia Pública e para policiais federais.

Mendonça afirmou ainda que seria grave admitir a existência de uma estrutura de inteligência produzindo avaliações sobre decisões de magistrados espalhados pelo país.

Seis relatórios estão no centro da crise

A decisão do ministro tem como um dos principais elementos seis relatórios produzidos pela PF entre 3 e 31 de agosto.

Os documentos analisavam a atuação de Mendonça e sua relação institucional com o advogado-geral da União, Jorge Messias, além de outros acontecimentos relacionados a investigações em andamento.

Segundo Mendonça, os relatórios apresentavam inferências e avaliações que não deveriam ser utilizadas como fundamento para medidas formais.

Um dos documentos, por exemplo, teria classificado como baixa a confiança em determinada cadeia de inferências. Ainda assim, segundo a decisão, o material teria autorizado “monitoramento e coleta dirigida”.

Foi justamente essa contradição que levou o ministro a questionar a finalidade dos documentos e a determinar a interrupção da produção de materiais semelhantes.

Mendonça fala em “arapongagem institucional”

Ao justificar a decisão, o ministro afirmou ter sido alvo de “monitoramento sistemático e ilegal”.

Mendonça classificou a atuação descrita nos documentos como uma possível “arapongagem institucional” e afirmou que a continuidade da produção de relatórios com esse tipo de conteúdo representaria risco para as instituições.

Na avaliação do ministro, a atividade de inteligência não pode funcionar como uma espécie de mecanismo informal de fiscalização sobre juízes, advogados públicos ou integrantes da própria Polícia Federal.

A determinação tem efeito imediato e também alcança o compartilhamento interno dos documentos dentro da corporação.

Relatórios são questionados por falta de valor probatório

Outro ponto levantado por Mendonça foi a própria natureza dos documentos.

Segundo a decisão, os relatórios não apresentavam elementos considerados suficientes para estabelecer autoria e formalidade e seriam documentos de circulação restrita, sem valor probatório.

Em um dos materiais, o grau de confiança das informações foi considerado baixo.

O episódio também provocou críticas de entidades ligadas à área de inteligência. A União dos Profissionais de Inteligência de Estado (Intelis), por exemplo, afirmou que o documento utilizado contra Mendonça não teria seguido parâmetros técnicos da atividade de inteligência e destacou que inteligência e investigação criminal possuem finalidades diferentes.

Crise provocou reação dentro da PF

A decisão de Mendonça provocou forte reação na cúpula da Polícia Federal.

Onze dos 13 diretores da corporação colocaram os cargos à disposição em apoio a Andrei Rodrigues e Leandro Almada. Os integrantes da direção classificaram as acusações contra os dois como sem fundamento e manifestaram preocupação com o que consideram ataques à instituição.

O afastamento de Andrei também levou William Murad, então diretor-executivo da PF, a assumir interinamente o comando da corporação.

Enquanto isso, a Segunda Turma do STF formou maioria para manter os afastamentos, mas o julgamento foi interrompido após pedido de vista do ministro Gilmar Mendes. A liminar, contudo, continuou produzindo efeitos.

Investigação deverá identificar responsáveis

Além de suspender a produção dos relatórios, Mendonça determinou que a Corregedoria da PF investigue como os documentos foram produzidos.

A apuração deverá identificar quem determinou a elaboração dos materiais, quem participou da produção, quando os documentos foram feitos e se existem outros relatórios com finalidade semelhante.

A investigação também deverá verificar se houve irregularidades administrativas ou criminais na utilização da estrutura de inteligência da corporação.

O episódio abriu uma nova frente de tensão entre o Supremo Tribunal Federal e a Polícia Federal e colocou em debate os limites da atividade de inteligência dentro das instituições públicas.

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Entenda O Contexto

A crise começou após relatórios de inteligência da Polícia Federal chegarem ao Supremo e serem utilizados em uma controvérsia envolvendo André Mendonça. O ministro entendeu que os documentos ultrapassaram os limites da atividade de inteligência ao analisar sua atuação e a de outras autoridades.

A partir disso, afastou preventivamente o diretor-geral da PF e o chefe da inteligência, determinou investigação pela Corregedoria e suspendeu a produção e o compartilhamento de relatórios com esse tipo de finalidade.

A decisão provocou reação de integrantes da cúpula da Polícia Federal e ampliou uma disputa institucional que envolve o STF, a direção da corporação e diferentes interpretações sobre até onde pode ir a atividade de inteligência policial.

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