A Polícia Federal (PF) identificou uma estrutura digital dentro do Banco Master que, segundo a investigação, teria sido utilizada para produzir em massa documentos falsos ou manipulados destinados a sustentar operações de crédito negociadas com o Banco de Brasília (BRB).
O material analisado pelos investigadores descreve uma cadeia que envolvia funcionários das áreas de tecnologia, operações e back office. Dados extraídos de sistemas internos eram transformados em planilhas e posteriormente utilizados para gerar procurações, contratos, Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) e outros documentos.
O método incluía ferramentas comuns, como o Microsoft Word, além de códigos desenvolvidos pela própria equipe de tecnologia do banco para manipular arquivos PDF.
Segundo a PF, a estrutura teria sido utilizada em operações que movimentaram bilhões de reais e envolviam créditos apontados como fictícios.
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Word virou ferramenta para produção em massa
Um dos pontos descritos pela perícia chama atenção pela simplicidade da ferramenta utilizada.
Segundo a investigação, um gerente do Banco Master utilizou a função de mala direta do Microsoft Word, conectada a uma planilha com informações de clientes, para gerar automaticamente 2.700 procurações.
Os arquivos foram armazenados em uma pasta identificada como “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”.
A técnica permite preencher um mesmo modelo de documento com diferentes dados automaticamente. Para a PF, parte desse material teria sido utilizada para sustentar contratos relacionados a créditos que posteriormente foram apresentados ao BRB.
A investigação estima que 1.785 procurações desse conjunto tenham sido encaminhadas ao BRB como parte da documentação de créditos supostamente originados pela Tirreno.
A suspeita é que os clientes citados nos documentos não tivessem autorizado os empréstimos ou dado poderes para que terceiros assinassem operações em seus nomes.
Dados de clientes eram transformados em documentos
A investigação também identificou a participação da área de tecnologia na obtenção e organização dos dados.
Segundo o relatório, funcionários extraíram informações de clientes de sistemas internos do banco. Entre os dados utilizados estavam CPF, nome, data de nascimento e nome da mãe.
As informações eram organizadas em planilhas e posteriormente utilizadas como matéria-prima para a criação dos documentos.
A PF identificou registros de consultas e arquivos relacionados a carteiras de crédito consignado, inclusive dados vinculados ao CredCesta.
O procedimento permitia transformar grandes quantidades de informações em documentos individualizados em escala muito superior ao que seria possível por produção manual.
Códigos manipulavam arquivos PDF
A estrutura não terminava na criação dos documentos pelo Word.
Segundo a perícia, integrantes da equipe de tecnologia desenvolveram aplicações e rotinas para manipular arquivos PDF.
Uma das funções identificadas extraía especificamente páginas de assinatura dos documentos.
Em determinado momento, investigadores encontraram um arquivo compactado contendo 1.833 PDFs com páginas de assinatura isoladas.
A suspeita é que esse mecanismo permitisse reutilizar elementos de documentos diferentes durante a montagem dos arquivos apresentados para comprovar determinadas operações.
Em uma das conversas analisadas, funcionários discutiram a necessidade de retirar informações temporais dos arquivos antes de sua utilização.
Esquema envolvia diferentes áreas do banco
O relatório não descreve uma ação isolada de um único funcionário.
A documentação analisada pelos investigadores aponta a participação de pessoas de diferentes setores, incluindo tecnologia, operações, controles e back office.
Entre os nomes citados estão Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office; Allan da Silva Machado, gerente de Operações; Vinicius Lucas Trentino, da área de tecnologia; além de outros funcionários envolvidos na extração de dados, geração de documentos e manipulação de arquivos.
A investigação também cita executivos que teriam acompanhado ou supervisionado demandas relacionadas às operações.
O relatório busca estabelecer até que ponto a produção documental fazia parte de uma estrutura organizada para sustentar operações financeiras consideradas fraudulentas.
A existência dos registros e a identificação dos funcionários, entretanto, não equivalem automaticamente à comprovação individual de responsabilidade criminal. Essa responsabilização depende do avanço das investigações e das decisões judiciais.
Documentos sustentariam créditos considerados fictícios
O ponto central da investigação é a utilização dessa estrutura documental para dar aparência de regularidade a operações de crédito.
Segundo a PF, o Banco Master teria utilizado dados antigos de clientes para produzir Cédulas de Crédito Bancário e procurações que posteriormente apareciam como comprovação de créditos negociados com o BRB.
A investigação aponta que muitas dessas operações não correspondiam a créditos efetivamente existentes.
O relatório da PF estima que aproximadamente R$ 12,2 bilhões em Cédulas de Crédito Bancário adquiridas pelo BRB apresentavam problemas de autenticidade, dentro de um conjunto de operações que movimentou cerca de R$ 17 bilhões.
A suspeita é de que a documentação produzida artificialmente ajudasse a criar a aparência de que os créditos eram legítimos e estavam respaldados por contratos e autorizações dos clientes.
Tirreno aparece no centro das operações
A empresa Tirreno aparece como peça importante na investigação.
Segundo a PF, créditos supostamente originados pela empresa foram apresentados ao BRB em operações que posteriormente passaram a ser questionadas pelos investigadores.
A documentação produzida pelo Master teria sido utilizada para comprovar a existência dessas operações e a suposta autorização dos clientes.
A investigação aponta ainda que a estrutura utilizava dados relacionados a carteiras de crédito consignado para criar novos documentos em escala.
A combinação entre uma empresa utilizada nas operações, dados internos do banco e produção automatizada de documentos é um dos elementos que sustentam a hipótese de uma fraude estruturada.
O tamanho da suspeita
O caso ganhou dimensão ainda maior após a divulgação de documentos da Operação Compliance Zero.
A PF afirma que as operações fictícias ou materialmente insubsistentes envolvendo Master e BRB somariam aproximadamente R$ 17 bilhões.
O relatório atribui a fraude à produção massiva de documentos, manipulação de informações internas e utilização de empresa de fachada. Também aponta suspeitas envolvendo integrantes da administração dos dois bancos.
O BRB afirma que eventuais atos ilícitos foram praticados por ex-dirigentes e informou que pretende adotar medidas para reparar possíveis prejuízos e reforçar seus mecanismos de governança.
As defesas dos investigados contestam as acusações e questionam elementos da investigação.
Tecnologia no centro de uma fraude bilionária
O caso chama atenção porque a suposta fraude não dependeria apenas da falsificação tradicional de documentos.
A investigação descreve um processo digitalizado, no qual bancos de dados, planilhas, Word, PDFs e códigos de programação eram utilizados em sequência.
Na prática, a tecnologia teria permitido produzir milhares de documentos em pouco tempo e em escala suficiente para acompanhar operações financeiras de bilhões de reais.
É justamente essa característica que levou os investigadores a descreverem o funcionamento como uma espécie de linha de montagem digital.
A PF agora busca determinar quem ordenava cada etapa, quem tinha conhecimento sobre a finalidade dos documentos e como o material produzido era incorporado às operações financeiras.
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Entenda O Contexto
A Polícia Federal investiga uma estrutura que teria sido utilizada pelo Banco Master para fabricar e manipular documentos destinados a sustentar operações de crédito posteriormente negociadas com o BRB.
Segundo a investigação, funcionários de diferentes áreas do banco extraíam dados de clientes de sistemas internos, organizavam as informações em planilhas e utilizavam ferramentas como o Microsoft Word para gerar documentos em massa. Um dos casos identificados envolve 2.700 procurações produzidas por meio da função de mala direta.
A área de tecnologia também teria criado códigos para manipular arquivos PDF, inclusive isolando páginas de assinatura. Para a PF, parte desse material foi utilizada para dar aparência de regularidade a créditos considerados fictícios ou materialmente inconsistentes.
O conjunto de operações entre Master e BRB é estimado em cerca de R$ 17 bilhões, enquanto aproximadamente R$ 12,2 bilhões em CCBs adquiridas pelo BRB são apontadas na investigação como sem autenticidade. O caso ainda está sob investigação, e a atribuição de responsabilidade criminal individual depende da análise das provas e do andamento dos processos judiciais.
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