O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) levou o caso Banco Master para o centro da campanha eleitoral nesta sexta-feira (18), durante um ato em Guarulhos, na Grande São Paulo. Candidato à reeleição, Lula afirmou que o banco foi “legalizado” durante o governo de Jair Bolsonaro (PL) e contrapôs a autorização concedida naquele período à liquidação da instituição determinada pelo Banco Central em sua atual gestão.
A declaração tem como pano de fundo uma decisão tomada pelo Banco Central em 2019. Naquele ano, durante a presidência de Roberto Campos Neto, a autoridade monetária autorizou Daniel Vorcaro a assumir o controle do então Banco Máxima, instituição que posteriormente passou a se chamar Banco Master. A autorização ocorreu no governo Bolsonaro, mas foi uma decisão da diretoria colegiada do Banco Central, autarquia com autonomia técnica.
Lula associa origem do Master ao governo Bolsonaro
Durante o discurso em Guarulhos, Lula afirmou:
“Quem legalizou o Banco Master foi o Bolsonaro. Quem fechou o Banco Master foi o Lula e o Haddad”.
O presidente estava acompanhado de Fernando Haddad (PT), candidato ao governo de São Paulo e ex-ministro da Fazenda.
A fala ocorreu em meio à disputa política sobre quem deve responder pelas diferentes etapas da trajetória do banco e pelas irregularidades posteriormente investigadas.
Documentos e registros oficiais ajudam a delimitar o que aconteceu. Daniel Vorcaro já tentava assumir o controle do Banco Máxima antes do governo Bolsonaro. Uma declaração de propósito divulgada pelo Banco Central em novembro de 2017 registrava formalmente a intenção do empresário de adquirir o controle societário da instituição.
A transferência chegou a ser rejeitada pelo Banco Central em fevereiro de 2019. Oito meses depois, em outubro, a diretoria colegiada da autoridade monetária aprovou a operação, já durante a gestão de Roberto Campos Neto.
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O que aconteceu em 2019
A autorização para Vorcaro assumir o controle do Banco Máxima foi aprovada em 14 de outubro de 2019. A operação foi posteriormente publicada e permitiu que o empresário se tornasse oficialmente controlador da instituição que viria a ser rebatizada como Banco Master.
Por isso, a afirmação de Lula de que o banco foi “legalizado” no governo Bolsonaro simplifica uma sequência regulatória mais específica: o que ocorreu naquele período foi a autorização, pelo Banco Central, para a transferência do controle do Banco Máxima a Daniel Vorcaro.
Em audiência no Senado realizada neste ano, parlamentares questionaram justamente por que a aquisição havia sido inicialmente barrada e, meses depois, autorizada. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou em outra audiência que não havia encontrado, em processos ou sindicâncias da instituição, elementos que apontassem culpa do ex-presidente do BC Roberto Campos Neto nas irregularidades posteriormente investigadas.
Master foi liquidado em novembro de 2025
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro de 2025. A medida também tornou indisponíveis bens de controladores e ex-administradores indicados no ato da autoridade monetária.
A liquidação ocorreu durante a atual gestão federal e quando Gabriel Galípolo já presidia o Banco Central. Embora Lula tenha usado politicamente o episódio para estabelecer uma comparação entre os dois governos, a decisão formal de liquidar uma instituição financeira cabe ao Banco Central.
O caso posteriormente ganhou diferentes frentes de investigação e passou a envolver suspeitas sobre operações financeiras, relações políticas e movimentações realizadas pelo grupo ligado a Vorcaro.
Flávio Bolsonaro também entrou no discurso
Lula também utilizou o caso para atacar politicamente Flávio Bolsonaro (PL), seu principal adversário na disputa presidencial de 2026.
O senador é investigado em uma frente que apura o financiamento de “Dark Horse”, produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro. Relatório da Polícia Federal reuniu mensagens, ligações e registros de possíveis encontros entre Flávio e Vorcaro durante as tratativas relacionadas ao projeto.
Segundo a investigação, Flávio teria atuado como interlocutor nas negociações para captar recursos privados destinados ao filme. O senador nega irregularidades. A existência dos contatos e das negociações não representa, por si só, comprovação da prática de crime.
A investigação busca esclarecer a origem, o caminho e a destinação dos recursos relacionados à produção, além de verificar se houve alguma irregularidade nas movimentações financeiras.
Alckmin e Simone Tebet também exploraram caso no ato
O Banco Master também apareceu nos discursos de outros aliados de Lula presentes no evento em Guarulhos.
O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) mencionou a relação entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro e fez acusações contra o candidato do PL. Simone Tebet (MDB), candidata ao Senado por São Paulo, também relacionou adversários políticos às investigações envolvendo o banco.
As declarações mostram como o caso passou a ocupar espaço na campanha presidencial. Lula e seus aliados tentam associar a ascensão de Vorcaro ao período Bolsonaro, enquanto integrantes da oposição exploram outras ramificações do escândalo e as relações investigadas entre o banqueiro e diferentes autoridades.
Caso Master ganha espaço na reta final da eleição
A ofensiva acontece a pouco mais de duas semanas do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. Com a disputa presidencial apertada, temas ligados ao Banco Master passaram a aparecer com frequência crescente nos discursos das principais campanhas.
Pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira mostra Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio Bolsonaro com 36%. A diferença está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
Em uma simulação de segundo turno, Lula registra 46% e Flávio, 44%, também dentro da margem de erro. O levantamento ouviu 2.002 eleitores em 125 municípios entre os dias 15 e 17 de setembro e foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-04029/2026.
Pesquisas eleitorais representam as intenções declaradas pelos entrevistados no período da coleta e não constituem previsão do resultado da eleição.
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Entenda o contexto
Daniel Vorcaro demonstrou interesse em assumir o controle do Banco Máxima ainda em 2017. Registros do Banco Central mostram que a operação dependia de aprovação da autoridade monetária. A transferência acabou sendo autorizada em outubro de 2019, durante a gestão de Roberto Campos Neto no BC e o governo Jair Bolsonaro.
O banco posteriormente passou a operar com o nome Master e expandiu seus negócios. Anos depois, problemas envolvendo a instituição deram origem a investigações e medidas regulatórias. Em novembro de 2025, o Banco Central decretou sua liquidação extrajudicial.
Com o avanço das investigações e o aparecimento de políticos e autoridades em diferentes frentes de apuração, o caso passou a ser explorado eleitoralmente. É necessário distinguir as acusações feitas em discursos de campanha dos fatos já documentados e das suspeitas ainda investigadas. A citação de uma pessoa em documentos ou investigações não significa, por si só, comprovação de crime ou responsabilidade pelas irregularidades atribuídas ao banco.
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