Sem Lula no debate, Flávio ganha palco, mas também ganha um problema. A ausência de Lula no último debate antes da votação abre espaço para Flávio Bolsonaro, mas também tira do candidato do PL o confronto direto que sua campanha vinha buscando. No fundo, a disputa pelo voto útil continua sendo o principal movimento dos últimos dias.
A ausência de Luiz Inácio Lula da Silva no último debate presidencial antes do primeiro turno muda a dinâmica da reta final, mas não necessariamente da maneira que a campanha de Flávio Bolsonaro gostaria.
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Entenda o que aconteceu
O candidato do PL terá nesta quinta-feira o que sua campanha buscava: mais tempo de exposição diante do eleitorado nacional. O problema é que Lula não estará no palco para receber os ataques. E isso transforma o debate em outra coisa.
Flávio terá de enfrentar Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury, candidatos que também disputam espaço no campo da direita e da centro-direita. O púlpito vazio de Lula pode acabar funcionando como um convite para que os demais candidatos direcionem suas críticas ao próprio Flávio.
A estratégia do voto útil entra em zona de risco
É aí que a estratégia do voto útil entra em uma zona de risco. A campanha de Flávio tenta convencer o eleitor de direita de que a eleição precisa ser concentrada já no primeiro turno, reduzindo o espaço das candidaturas concorrentes. A lógica é simples: quanto mais votos migrarem para o candidato do PL, maior a possibilidade de transformar a eleição em uma disputa binária.
Mas essa mesma lógica produz uma reação previsível. Caiado, Zema e Cury também precisam justificar ao eleitor por que seus votos devem permanecer com eles até domingo. Portanto, o debate sem Lula pode se transformar, em parte, numa disputa pelo eleitor que Flávio pretende convencer a abandonar outras candidaturas.
Lula escolhe o Flow Podcast no horário do debate
A ausência de Lula também não significa que ele ficará fora da noite eleitoral. O presidente escolheu participar de uma entrevista no Flow Podcast no mesmo horário do debate. Ou seja, não haverá confronto direto, mas haverá exposição. A diferença é que cada candidato estará falando para um ambiente diferente e submetido a dinâmicas distintas.
O ponto central, portanto, não é simplesmente quem estará ou não no palco. É quem conseguirá controlar a narrativa nas últimas horas antes da urna.
O que mostram as pesquisas mais recentes
As pesquisas ajudam a explicar por que as campanhas estão tão agressivas. Os levantamentos mais recentes mantêm Lula e Flávio na dianteira, mas ainda mostram diferenças relevantes entre institutos. Em alguns cenários de primeiro turno, Lula aparece numericamente à frente. Nas simulações de segundo turno, os dois aparecem dentro da margem de erro.
Isso deixa uma constatação importante: pesquisa pode mostrar tendência, mas não entrega resultado eleitoral. O voto útil pode produzir migração de última hora, principalmente entre eleitores que consideram determinada candidatura pouco competitiva. Mas também pode acontecer o contrário. O eleitor pode manter sua escolha, mesmo diante do apelo pela concentração de votos.
A controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida
Outro elemento entrou nessa equação: o voto religioso. A controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida ganhou dimensão eleitoral depois de circular a informação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de padroeira do Brasil. O candidato negou a intenção e classificou a informação como falsa. A CNBB também negou ter produzido ou participado da divulgação desse conteúdo.
O episódio, independentemente da origem política da controvérsia, mostra como a reta final passou a ser disputada também no terreno simbólico. Religião, identidade e valores culturais podem mobilizar eleitorado com uma velocidade que uma discussão convencional sobre economia ou administração pública nem sempre alcança. Mas é preciso separar repercussão de efeito eleitoral: não há base suficiente para afirmar que a controvérsia, isoladamente, tenha provocado uma transferência determinada de votos.
A MP das Bets entra na reta final da campanha
O mesmo raciocínio vale para a MP 1.394, assinada por Lula em 25 de setembro, que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no país. A medida entrou em vigor imediatamente e ainda depende da tramitação no Congresso.
O governo pode apresentar a decisão como uma resposta aos problemas associados às bets. A oposição pode explorá-la como uma interferência sobre um mercado que havia sido regulamentado recentemente. As duas leituras já fazem parte da disputa política. O fato concreto é que a medida acrescentou outro assunto à pauta eleitoral justamente na semana decisiva.
Um palco cheio de ausências e interesses
E aqui está o ponto que talvez seja mais importante nesta quinta-feira. A campanha presidencial chegou ao momento em que qualquer movimento pode ser interpretado como estratégia. Lula evita o confronto direto e escolhe outro espaço de comunicação. Flávio comparece ao debate e tenta transformar a ausência do adversário em oportunidade. Os demais candidatos precisam impedir que essa mesma ausência seja convertida em concentração automática de votos no candidato do PL.
O palco, portanto, estará cheio de ausências e interesses. Lula não estará fisicamente no debate, mas será o principal personagem. Flávio estará no palco, mas terá de administrar ataques que não virão apenas do campo petista. Caiado, Zema e Cury terão uma das últimas oportunidades de preservar seus próprios espaços eleitorais.
No fim, a questão não é saber quem ganhou o debate antes que ele aconteça. A questão é saber se o eleitor aceitará a tese de que esta eleição precisa ser decidida já no primeiro turno entre os dois nomes que lideram as pesquisas. Ou se, mesmo diante da pressão pelo voto útil, uma parcela relevante do eleitorado decidirá manter a escolha original. Essa resposta não está no debate, nem nas redes sociais e muito menos nas previsões das campanhas. Está na urna de domingo.