POMO4 preço alvo: queda a R$ 5,13 abre alerta para investidores

Investidores devem ficar atentos à queda no preço alvo da POMO4 e aos riscos que podem impactar os dividendos futuros.
Redação NC News
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As ações preferenciais da Marcopolo, POMO4, encerram esta segunda-feira (20) cotadas a cerca de R$ 5,13 na B3, em meio a um rali de venda que se intensifica em julho. O papel acumula queda de 14,07% no ano e de 11,55% em apenas cinco pregões, mesmo com lucro em alta e balanço ainda robusto.

O movimento coloca a fabricante de carrocerias de ônibus no centro do radar de investidores que buscam barganhas na Bolsa, mas também expõe fragilidades do modelo de negócios num momento de desaceleração de volumes e dependência de contratos públicos.

Queda forte, múltiplos em baixa

A cotação de R$ 5,13 joga POMO4 bem abaixo da média móvel de 200 períodos, hoje em torno de R$ 6,15, faixa vista por muitos gestores como uma referência de tendência de longo prazo. O recuo recente comprime os múltiplos a níveis considerados atrativos por parte do mercado.

Com base nos últimos 12 meses, POMO4 negocia a cerca de 5,3 vezes o lucro e a 1,61 vez o valor patrimonial, com retorno sobre o capital investido em torno de 20,5%. Em linguagem simples, o investidor paga pouco mais de cinco anos de lucro atual por cada ação, num negócio que, em tese, ainda entrega rentabilidade de dois dígitos sobre o capital aplicado.

Dez instituições financeiras acompanham hoje a Marcopolo. Nove recomendam compra e uma mantém postura neutra, sem qualquer indicação de venda aberta para o papel.

Primeiro trimestre mistura aperto de volume e lucro em alta

O balanço do primeiro trimestre ajuda a explicar o desconforto atual, mas também o interesse de quem olha além da volatilidade de curto prazo. A produção recua 9%, para 2.997 unidades, e a receita líquida encolhe 1,3%, para R$ 1,66 bilhão. O tombo vem, sobretudo, de ônibus urbanos no Brasil e de operações mais fracas na Argentina e no México.

Mesmo com menos ônibus saindo das linhas, o lucro cresce. O EBITDA, medida de geração de caixa operacional antes de juros e impostos, sobe 16,3%, para R$ 304,80 milhões. A margem EBITDA avança de 15,6% para 18,4%. O lucro líquido aumenta 8,8%, alcançando R$ 264,60 milhões e margem de 16%.

Parte desse salto não vem do dia a dia da fábrica, mas de linhas de resultado que podem não se repetir. “Parte da melhora veio do resultado de equivalência patrimonial, que saltou de R$ 15,50 milhões para R$ 75,60 milhões”, aponta um relatório de análise. A coligada canadense NFI contribui com R$ 70,30 milhões, impulsionada por uma reversão de provisão de garantia de R$ 45 milhões.

Sem esse efeito extraordinário, o EBITDA ficaria em R$ 259,80 milhões, com margem de 15,7%. O número ainda indica negócio saudável, mas menos exuberante do que sugerem os resultados oficiais.

Dívida controlada, mas dividendo no limite

O outro pilar do caso de investimento em Marcopolo está no balanço. A dívida financeira líquida consolidada soma R$ 1,56 bilhão no fim de março, porém R$ 1,30 bilhão estão atrelados ao Banco Moneo, braço financeiro da companhia. “A dívida líquida efetivamente ligada ao segmento industrial era de apenas R$ 251 milhões, equivalente a 0,2 vez o EBITDA acumulado em 12 meses”, destaca um analista ouvido pela reportagem.

O caixa e as aplicações financeiras somam R$ 1,83 bilhão, o que reforça a leitura de alavancagem moderada e espaço para enfrentar ciclos mais fracos de demanda.

O ponto sensível está na política de dividendos, um dos atrativos que mais chamaram atenção do varejo em 2025. “A Marcopolo distribuiu R$ 0,94 por ação em dividendos e juros sobre capital próprio referentes a 2025”, lembra outro relatório. O valor equivale a um dividend yield de 15,7% considerando o preço de encerramento daquele ano.

Esse rendimento generoso, porém, tem custo. “O payout, contudo, chegou a 94,9%, contra 47,5% em 2024”, diz a mesma análise. Em prática, quase todo o lucro foi repartido com os acionistas, o que reduz a gordura para repetir a dose em 2026 se os resultados desacelerarem.

Contratos públicos, micro-ônibus e fronteiras externas

O desempenho por linhas de negócio ajuda a entender os riscos. A Marcopolo depende de forma relevante de encomendas governamentais. No primeiro trimestre, a empresa entrega 771 unidades ao programa Caminho da Escola e 242 micro-ônibus ao Ministério da Saúde, reforçando a exposição a ciclos de orçamento público e cronogramas de entrega muitas vezes sujeitos a atrasos e mudanças políticas.

Micros e modelos Volare se destacam no período, enquanto o segmento de urbanos perde fôlego. Essa mudança de mix ajuda a sustentar margens, mas não compensa integralmente a queda de volume em mercados como Brasil, Argentina e México.

No exterior, 36% da receita do trimestre vêm de fora do país. A Austrália aparece como ponto positivo, com demanda mais firme, em contraste com operações mais fracas na América Latina e na África do Sul. A diversificação geográfica reduz a dependência de um único mercado, mas aumenta a exposição a diferentes ciclos econômicos e riscos cambiais.

Analistas veem desconto, mas pedem cautela

Mesmo com a pressão recente sobre o preço, o consenso de mercado continua majoritariamente construtivo. As dez casas que cobrem o papel trabalham hoje com preços-alvo entre R$ 8,00 e R$ 10,50. Na comparação com os R$ 5,13 atuais, o potencial de valorização varia de 56% a algo próximo de 105%.

A média dos alvos, em torno de R$ 9,08, aponta para um ganho potencial de 77%. “A XP reduziu recentemente seu preço-alvo para R$ 8,00, mas manteve recomendação de compra”, registra o relatório da casa. A gestora argumenta que a fraqueza em ônibus urbanos no Brasil, Argentina e México pode ser compensada pelo bom momento de micro-ônibus e pela operação na Austrália.

O quadro, porém, está longe de ser uma aposta sem riscos. A principal preocupação recai sobre a queda dos volumes, a sensibilidade da demanda a investimentos públicos em mobilidade e a possibilidade concreta de que os dividendos fiquem abaixo do patamar recente.

“O mercado acompanhará a recuperação da produção, as margens sem efeitos extraordinários, o avanço das entregas públicas e o desempenho internacional”, sintetiza um profissional próximo à companhia.

Próximo teste: balanço do segundo trimestre

O próximo marco para POMO4 é a divulgação dos resultados do segundo trimestre, prevista para 3 de agosto, após o fechamento da B3. O número deve mostrar se a queda de produção se aprofunda ou se estabiliza, e até que ponto o efeito positivo de segmentos como micro-ônibus e Austrália continua a compensar a fraqueza em urbanos e em parte da América Latina.

Investidores também vão olhar com lupa a geração de caixa recorrente, sem ajuda de eventos extraordinários, e eventuais sinais sobre a política de dividendos para este ano. O comportamento da dívida, hoje em patamar considerado confortável, entra no mesmo pacote de atenção.

Enquanto isso, POMO4 permanece num ponto de inflexão claro. O papel parece barato pelos múltiplos e pelas projeções de analistas, mas o retorno depende da capacidade da Marcopolo de voltar a crescer em volume, manter margens sem efeitos contábeis não recorrentes e calibrar a distribuição de dividendos sem comprometer investimentos futuros.

Para quem já está no papel, o momento exige paciência e estômago para a volatilidade. Para quem observa de fora, a queda a R$ 5,13 abre uma janela com desconto relevante, mas que só se confirmará como oportunidade se os próximos trimestres entregarem o que hoje está apenas nos modelos de projeção.

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