Daniel Vorcaro fortuna: delação pressiona Flávio Bolsonaro e PF

Escritório de Flávio Bolsonaro ligado a Daniel Vorcaro enfrenta pressão após delação e investigações da PF.
Redação NC News
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Notas fiscais emitidas e canceladas pelo escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro para uma empresa ligada a Daniel Vorcaro entram no centro de uma investigação que mistura grandes bancos, empresas de fachada e disputa por delação premiada. A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República acompanham, em paralelo, a tentativa do ex-CEO do Banco Master de negociar uma colaboração que pode atingir políticos e empresários.

Notas frias, empresa de R$ 40 e R$ 58 milhões em jogo

O fio mais visível desse enredo passa por três notas fiscais emitidas pelo escritório de Flávio Bolsonaro. Duas delas, de R$ 500 mil cada, têm como destinatária a Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A., empresa criada com capital social de apenas R$ 40 e usada para movimentar R$ 58 milhões ligados a Vorcaro. As notas são emitidas e canceladas no mesmo dia. Uma terceira nota, também de R$ 500 mil, vai para a Contábil Correa e permanece ativa.

Copenhagen e Contábil Correa se encontram em um personagem-chave: o contador Rogério Lourenço Novo. Ele aparece como diretor responsável pela Copenhagen e único sócio da Contábil Correa, além de integrar o conselho fiscal da Ambipar, outra peça da teia empresarial de Vorcaro.

Rogério admite que é o dono da Copenhagen e afirma ter contratado o escritório de Flávio para atender clientes de sua contabilidade, em uma espécie de “quarteirização” de serviços jurídicos. Confrontado sobre quais clientes foram atendidos e que tipo de serviço foi prestado, responde: “Tenho mais de 200 clientes e não me lembro nem para quem nem o que foi feito”. Promete levantar as informações, mas não retorna.

No papel, a Copenhagen pertence ao fundo Estônia, administrado pela gestora Trustee DTVM, também sob investigação da PF por suspeita de movimentação e ocultação de patrimônio ligado ao grupo de Vorcaro. A combinação de capital simbólico, volume milionário e vínculos cruzados com o Banco Master reforça a percepção de uso de fachada para circulação de recursos fora do radar tributário e regulatório.

Flávio Bolsonaro reage e tenta afastar o Banco Master

A exposição das notas fiscais coloca Flávio Bolsonaro no centro da crise. O presidenciável nega qualquer vínculo com o Banco Master e sustenta que seu escritório não recebeu dinheiro da Copenhagen. Segundo sua versão, houve apenas uma consulta para eventual prestação de serviços a uma cliente da Contábil Correa, que não avançou.

Na nota enviada à imprensa, ele ironiza: “Estou sendo acusado de NÃO receber alguma coisa”. Flávio insiste que desconhece qualquer relação da Copenhagen ou da Contábil Correa com o Master e diz que qualquer tentativa de associação é “capciosa” e “desprovida de fundamento fático”.

O presidenciável também desloca o foco para o vazamento de dados. Afirma que, por não ser investigado, suas informações são sigilosas e sugere que órgãos governamentais, com objetivos eleitorais, tenham quebrado esse sigilo ao repassar documentos à imprensa. Promete medidas judiciais nas esferas cível e criminal contra os responsáveis.

A Trustee DTVM tenta se afastar do núcleo duro da apuração. A gestora argumenta que não tem ingerência sobre as relações comerciais da Copenhagen nem sobre os pagamentos negociados com o Banco Master, e nega ter atuado para ocultar patrimônio de quem quer que seja.

Defesa em guerra e delação sob desconfiança

Enquanto a frente política esquenta, a defesa de Daniel Vorcaro vive uma crise própria. Preso desde novembro, ele tenta transformar o conhecimento que acumulou no sistema financeiro em moeda de troca com a PF e a PGR. Duas tentativas de delação premiada, em maio e junho, fracassam. Investigadores consideram as propostas insuficientes.

Dentro da cadeia, Vorcaro recebe visitas frequentes de advogados e emissores de recados da família. Um novo nome, o criminalista Cezar Bittencourt, entra em cena. Conhecido por conduzir a delação do tenente-coronel Mauro Cid, ele se apresenta como novo defensor em conversas com interlocutores da investigação e participa de reuniões com o empresário na Papudinha.

A movimentação pega de surpresa o advogado Sérgio Leonardo, que oficialmente ainda aparece à frente do caso. Ele admite que o comando da defesa está em disputa e resume o clima de incerteza: “A situação será resolvida neste fim de semana”. A frase traduz a pressão interna em torno da estratégia: insistir na linha combativa ou abrir mão de resistências e contar tudo.

Fontes ligadas à investigação, porém, mostram pouco entusiasmo com a possível troca de comando. Para um dos envolvidos nas negociações, o problema não é o advogado, mas o próprio cliente: “Uma troca na defesa só faria diferença se ele se dispuser a entregar tudo o que sabe, algo em que quase ninguém acredita”.

Além de Bittencourt e Leonardo, a defesa de Vorcaro já passou por nomes de peso do direito penal. A rotatividade de criminalistas, somada às tentativas frustradas de delação, é vista internamente como sinal de desespero e dificuldade em montar um enredo coerente que agrade PF e PGR.

Impacto no mercado financeiro e no tabuleiro político

A investigação escancara o uso de estruturas financeiras sofisticadas para finalidades pouco transparentes. A Copenhagen, criada com R$ 40 de capital e rapidamente alçada ao grupo das empresas que mais recebem recursos do Master, simboliza esse descompasso entre o que está no papel e o que circula nas contas. A suspeita é que ela funcione como canal para ocultar propriedade e origem dos valores.

Os R$ 58 milhões que passam pela empresa, associados às notas fiscais de R$ 1,5 milhão ligadas ao escritório de um presidenciável, colocam pressão sobre bancos, gestoras e consultorias. Instituições que trabalham com fundos e estruturas de investimento veem crescer a cobrança por transparência, verificação de beneficiários finais e mecanismos de compliance capazes de barrar operações sem lastro econômico claro.

No campo político, o caso atinge um pré-candidato ao Planalto num momento em que o financiamento de campanhas e projetos de comunicação, como a cinebiografia de Jair Bolsonaro, já está sob escrutínio. A revelação de que o relacionamento entre Flávio e Vorcaro vai além do patrocínio do filme amplia o alcance potencial da investigação. Mesmo sem ser formalmente investigado, o presidenciável se torna personagem inevitável nos relatórios e depoimentos que PF e PGR colecionam.

Para Vorcaro, o horizonte se estreita. Sem delação validada, ele acumula processos, perde espaço no mercado e vê antigos parceiros de negócios se apressarem em negar qualquer proximidade. Se decidir romper o silêncio e entregar documentos e nomes, o efeito sobre o sistema financeiro e a classe política pode ser devastador. Se continuar a dosar informações, tende a ficar isolado, com pouco a oferecer em troca de benefícios penais.

O que vem a seguir

PF e PGR seguem rastreando a origem e o destino dos R$ 58 milhões que circulam pela Copenhagen, o papel da Trustee DTVM na estruturação desses fluxos e o grau de conhecimento de cada um dos participantes. As notas fiscais emitidas e canceladas pelo escritório de Flávio Bolsonaro, assim como a terceira nota de R$ 500 mil para a Contábil Correa, entram no mapa da investigação como possíveis indicadores de simulação de serviços para acobertar repasses.

Os próximos dias devem trazer definições sobre o comando da defesa de Vorcaro e sobre a viabilidade de uma terceira tentativa de delação. Investigadores repetem que só uma colaboração completa — com documentos, cruzamento de dados e disposição para atingir aliados históricos — faria diferença concreta na situação do empresário.

Se essa guinada ocorrer, o caso tende a se espalhar para outros setores, com potencial de alcançar novos personagens do mundo político e do mercado financeiro. Se não ocorrer, a investigação deve seguir o caminho tradicional: perícias, quebras de sigilo, denúncias em série. Em qualquer dos cenários, o esquema de movimentação milionária a partir de uma empresa de fachada de R$ 40 já se torna um símbolo incômodo de como fraudes sofisticadas ainda encontram espaço no coração do sistema financeiro brasileiro.

Quem é Daniel Vorcaro e qual seu envolvimento no esquema investigado?

Daniel Vorcaro é empresário do setor financeiro e ex-CEO do Banco Master. Ele é apontado pela PF como articulador de uma rede de empresas, como a Copenhagen, usada para movimentar e possivelmente ocultar R$ 58 milhões vinculados ao banco, por meio de operações consideradas suspeitas.

Qual a relação de Daniel Vorcaro com Flávio Bolsonaro e os repasses para empresas?

Vorcaro mantém relações de negócios que passam por empresas ligadas a ele e por firmas de contabilidade e consultoria associadas ao Banco Master. O escritório de Flávio Bolsonaro emite três notas fiscais de R$ 500 mil cada para duas dessas empresas, ligadas a Vorcaro. Duas notas, destinadas à Copenhagen, são canceladas no mesmo dia; a terceira, para a Contábil Correa, permanece ativa. Flávio nega qualquer vínculo com o banco e diz que não recebeu da Copenhagen.

O que se sabe sobre as tentativas de delação de Daniel Vorcaro?

Vorcaro tenta negociar delação premiada ao menos duas vezes, em maio e junho, sem sucesso. Integrantes da PF e da PGR avaliam que ele oferece relatos parciais, sem entregar todo o alcance do esquema. Uma terceira tentativa é cogitada, com a possível entrada do criminalista Cezar Bittencourt na defesa, mas há ceticismo: investigadores afirmam que só uma colaboração integral mudaria de fato sua situação.

Como os repasses de Daniel Vorcaro estão ligados ao filme sobre Jair Bolsonaro?

O vínculo inicial entre Vorcaro e a família Bolsonaro aparece no financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro, que recebe recursos oriundos do círculo empresarial do ex-CEO do Master. As novas informações mostram que a relação é mais ampla, com circulação de dinheiro por empresas ligadas a Vorcaro e emissão de notas pelo escritório de Flávio, o que amplia o potencial de questionamentos sobre a origem dos recursos que orbitam o projeto.

Qual o impacto da visita do ex-juiz a Daniel Vorcaro na prisão?

A família de Vorcaro sinaliza à PF e à PGR o interesse em contratar um ex-magistrado federal para redesenhar a defesa e tentar nova delação. A aproximação desse ex-juiz e de Cezar Bittencourt é lida como tentativa de dar credibilidade e peso político-jurídico à colaboração. Até agora, porém, a visita e as conversas não se traduzem em mudança concreta na postura dos investigadores, que mantêm a exigência por uma delação completa.

Quais são as investigações autorizadas sobre os repasses para a cinebiografia de Bolsonaro envolvendo Daniel Vorcaro?

PF e PGR já dispõem de autorização para rastrear fluxos financeiros ligados ao círculo de Daniel Vorcaro, incluindo empresas e fundos associados ao Banco Master e a gestoras como a Trustee DTVM. Dentro desse escopo, entram repasses relacionados à cinebiografia de Jair Bolsonaro, com foco na origem do dinheiro, na eventual participação de empresas de fachada e na possível prática de lavagem de dinheiro ou fraude fiscal.


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