Uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo colocou novamente em evidência a investigação que apura uma suposta ligação entre o PCC e uma empresa de ônibus que opera na capital paulista.
A Justiça determinou a soltura de Jair Ramos de Freitas, conhecido como “Cachorrão”, investigado por supostamente atuar na lavagem de dinheiro da facção por meio da concessionária Transunião. Ele estava preso desde 25 de junho, quando foi deflagrada a Operação Última Parada.
A decisão não significa absolvição nem encerra a investigação. O entendimento foi de que não havia fundamento legal para manter a prisão temporária depois do fim do prazo previsto para essa modalidade de prisão.
Por que “Cachorrão” foi preso?
Jair Ramos de Freitas é apontado pela investigação como um dos operadores do suposto esquema envolvendo a Transunião.
Segundo a Polícia Civil, ele teria ligação direta com o PCC e seria responsável por articular operações relacionadas à lavagem de dinheiro da facção utilizando a estrutura da empresa de transporte coletivo.
A investigação também relaciona o nome de Freitas ao assassinato de Adauto Soares Jorge, ex-diretor da Transunião, morto a tiros em 2020.
Segundo os investigadores, o crime teria ocorrido em meio a uma disputa pelo controle financeiro da empresa e a suspeitas sobre o desvio de dinheiro.
Freitas é apontado como responsável pela execução do homicídio, acusação que ele nega.
O que a investigação descobriu na Transunião?
A apuração começou após o assassinato de Adauto Soares Jorge e avançou sobre a movimentação financeira da empresa.
De acordo com os investigadores, integrantes do PCC teriam utilizado a estrutura da Transunião para movimentar e lavar dinheiro proveniente de atividades criminosas.
Uma das informações que chamou a atenção dos investigadores foi o crescimento do capital social da empresa.
Segundo reportagens sobre a investigação, o valor teria saltado de R$ 100 mil para mais de R$ 50 milhões, sem uma explicação considerada suficiente pelas autoridades para a origem dos recursos.
A empresa também recebeu mais de R$ 300 milhões da Prefeitura de São Paulo em 2025 pela operação do transporte coletivo, segundo informações divulgadas durante a operação.
Polícia encontrou até um “salve” do PCC
Durante a investigação sobre o assassinato, as autoridades encontraram uma carta manuscrita identificada como um “salve” do PCC.
Segundo a polícia, o documento trazia informações relacionadas a uma disputa interna pelo controle da Transunião e mencionava cerca de R$ 15 milhões que teriam sido desviados.
O material passou a ser considerado uma das peças da investigação sobre a relação entre a empresa, os suspeitos e a facção.
Vereador também foi alvo da operação
A Operação Última Parada também atingiu o vereador de São Paulo Senival Moura (PT), que foi preso durante a ação.
A investigação apura se o parlamentar tinha influência sobre as operações da Transunião e eventual participação no esquema de lavagem de dinheiro.
A Justiça também determinou bloqueios de patrimônio relacionados aos investigados e à empresa. Foram mencionados bloqueios de aproximadamente R$ 194 milhões, além de medidas sobre veículos e imóveis.
As suspeitas ainda são objeto de investigação e não significam condenação dos envolvidos.
Por que a Justiça decidiu soltar “Cachorrão”?
A decisão foi tomada pela 11ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo.
A desembargadora Carla Rahal entendeu que o prazo da prisão temporária havia terminado e que não havia justificativa legal para manter Jair Ramos de Freitas preso nessa modalidade.
A prisão havia começado em 25 de junho e, segundo a decisão, a extensão do prazo não poderia ser mantida com base apenas nos crimes investigados.
Ou seja: a soltura ocorreu por uma questão relacionada aos requisitos e ao prazo da prisão temporária.
Isso não significa que a Justiça tenha concluído que ele é inocente ou que a investigação contra ele acabou.
Defesa diz que prisão era injustificada
A defesa de Jair Ramos de Freitas afirmou que a decisão corrigiu o que considerava uma injustiça.
Os advogados sustentaram que não existiam elementos suficientes para manter a prisão temporária e questionaram a extensão do prazo utilizado pelas autoridades.
O caso continua sendo investigado.
O que acontece agora?
Com a soltura, Jair Ramos de Freitas responderá à investigação em liberdade, conforme a decisão judicial divulgada.
A apuração sobre a suposta utilização da Transunião para lavagem de dinheiro do PCC continua.
Também permanecem sob análise as circunstâncias do assassinato de Adauto Soares Jorge e as relações entre os diferentes personagens investigados.
O principal desafio das autoridades agora é transformar as suspeitas e os elementos reunidos durante a operação em provas capazes de sustentar eventuais acusações na Justiça.
Entenda o contexto
A Operação Última Parada foi deflagrada em 25 de junho pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil para investigar uma suposta estrutura de lavagem de dinheiro ligada ao PCC dentro do setor de transporte coletivo.
A Transunião, empresa que opera linhas de ônibus na zona leste da capital, tornou-se um dos principais focos da investigação.
Entre os alvos estavam Jair Ramos de Freitas, conhecido como “Cachorrão”, e o vereador Senival Moura.
A investigação também voltou ao assassinato de Adauto Soares Jorge, ocorrido em 2020, considerado um possível ponto de partida para descobrir a disputa pelo controle financeiro da empresa.
Agora, a Justiça determinou a soltura de Freitas porque considerou encerrado o prazo da prisão temporária.
A liberdade, porém, não encerra a investigação nem representa uma absolvição. O caso continua em apuração e poderá ter novos desdobramentos.