O tabagismo pode elevar em até 30 vezes o risco de morrer por câncer de pulmão, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca). O risco varia de acordo com a idade e o sexo e aumenta de forma significativa a partir dos 45 anos, chegando ao maior patamar entre fumantes de 65 a 74 anos.
O câncer de pulmão é o tipo da doença que mais mata no Brasil, com cerca de 31 mil mortes por ano. Outro fator que dificulta o combate é a descoberta tardia: aproximadamente oito em cada dez pacientes recebem o diagnóstico quando o câncer já está em estágio avançado.
O principal fator de risco para a doença é o tabagismo. Depois de quase duas décadas de queda, porém, a proporção de fumantes voltou a crescer no país. Segundo dados do Vigitel, 11,7% dos adultos brasileiros fumavam em 2024, contra 9,3% em 2023.
Risco aumenta com a idade
O levantamento do Inca comparou a mortalidade por câncer de pulmão entre pessoas que fumam e aquelas que nunca fumaram. Os resultados mostram que o impacto do cigarro não é igual em todas as faixas etárias.
A diferença se torna especialmente expressiva a partir dos 45 anos e chega ao nível mais elevado entre fumantes de 65 a 74 anos, quando o risco de morrer por câncer de pulmão pode ser mais de 30 vezes maior do que entre pessoas que nunca fumaram.
Os dados reforçam a relação direta entre o consumo de tabaco e a mortalidade provocada pela doença.
Cigarro social também pode levar à dependência
A história de Bryan Dutra, de 32 anos, mostra como o consumo ocasional pode se transformar em dependência. Ele começou a fumar em 2014, no início da faculdade, inicialmente em festas e encontros com amigos.
Com o tempo, o cigarro deixou de ser apenas social e passou a fazer parte da rotina diária.
Foram 12 anos de consumo. Durante esse período, Bryan tentou abandonar o cigarro, mas não conseguiu parar sem ajuda profissional.
A decisão de deixar o tabaco veio após uma experiência no exterior, quando precisou ficar sem fumar durante uma viagem. Ele contou com o apoio de uma amiga para acompanhar os dias sem cigarro e enfrentar os sintomas da abstinência.
Atualmente, está há quase dez meses sem fumar, mas afirma que abandonar o hábito continua sendo um desafio, principalmente em situações sociais.
Procura por tratamento cresce no SUS
O número de brasileiros que procuram o Sistema Único de Saúde (SUS) para deixar de fumar também aumentou nos últimos anos.
Segundo o Ministério da Saúde, 351.832 pessoas buscaram atendimento para parar de fumar em 2015. Em 2025, o número chegou a 2.510.509, um crescimento de mais de sete vezes em uma década.
Para o médico epidemiologista do Inca Arn Migowski, abandonar o cigarro é uma das principais medidas para reduzir o risco de câncer de pulmão e de outras doenças relacionadas ao tabagismo.
O tratamento para quem deseja parar de fumar é oferecido gratuitamente pela rede pública. O acompanhamento pode ser individual ou em grupo e inclui orientações para enfrentar a dependência. Quando indicado pelos profissionais de saúde, também podem ser utilizados medicamentos para reduzir os sintomas da abstinência, como adesivos e gomas de nicotina e bupropiona.
Quem deseja iniciar o tratamento pode procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima.

Tabagismo também gera impacto econômico
Além das mortes provocadas pelas doenças relacionadas ao cigarro, o tabagismo representa um grande impacto financeiro para o sistema de saúde.
Dados do Inca apontam que o SUS gasta cerca de R$ 98 bilhões por ano com doenças relacionadas ao consumo de cigarro. A arrecadação de impostos sobre a indústria do tabaco, segundo os dados apresentados, cobre apenas uma pequena parcela desse valor.
O Ministério da Saúde estima ainda que o tabagismo provoque cerca de 477 mortes por dia no Brasil.
No caso específico do câncer de pulmão, o número chega a aproximadamente 31 mil mortes anuais.
Preço do cigarro também entra no debate
Outro ponto discutido por especialistas é o preço dos produtos de tabaco. Mesmo após reajustes recentes, os cigarros vendidos no Brasil continuam entre os mais baratos da América do Sul.
Neste ano, o preço mínimo do maço passou de R$ 6,50 para R$ 7,50. A política de reajustes acima da inflação foi criada como uma das estratégias para reduzir o consumo, mas ficou sem alterações entre 2017 e 2023.
O valor mínimo só voltou a subir em 2024, quando passou para R$ 6,50.
Especialistas avaliam que, se os reajustes anuais tivessem sido mantidos, o preço mínimo poderia estar próximo de R$ 10. A discussão sobre preço, prevenção e acesso ao tratamento ganhou ainda mais importância diante da retomada do número de fumantes no país.
Para quem fuma, a principal medida para reduzir o risco de doenças relacionadas ao tabaco continua sendo parar de fumar. E, para quem tem dificuldade de abandonar o cigarro sozinho, o SUS oferece tratamento gratuito.