Haddad e Tarcísio travam disputa sobre privatizações e investimentos em fórum de infraestrutura

Candidatos ao governo de São Paulo apresentaram visões opostas sobre concessões, serviços públicos e participação da iniciativa privada durante evento da ABDIB
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A infraestrutura virou palco de mais um capítulo da disputa entre Fernando Haddad (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) pelo governo de São Paulo. Os dois candidatos participaram nesta terça-feira (25) do ABDIB Fórum Eleições 2026, em São Paulo, evento que colocou no centro do debate temas como investimentos, concessões, privatizações, regulação e participação da iniciativa privada.

Organizado pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB), o encontro também reuniu candidatos e representantes de candidaturas à Presidência da República. A entidade apresentou uma agenda de propostas para ampliar os investimentos em infraestrutura e defendeu que o tema seja incorporado aos programas dos próximos governos.

O debate ganhou um componente eleitoral evidente em São Paulo: de um lado, Haddad questionou o modelo de privatizações e defendeu agências reguladoras mais fortes; de outro, Tarcísio apresentou as concessões e a participação privada como instrumentos para acelerar investimentos e ampliar a oferta de serviços.

Haddad cobra fiscalização e critica modelo de privatizações

Durante sua participação, Fernando Haddad defendeu o fortalecimento das agências reguladoras e afirmou que esses órgãos precisam ter estrutura e profissionais técnicos para fiscalizar empresas responsáveis pela operação de serviços públicos.

Na visão do candidato, uma concessão ou parceria público-privada não pode ser analisada apenas pela capacidade de gerar retorno financeiro para a empresa. O ponto central, segundo Haddad, deve ser a qualidade do serviço entregue à população.

A discussão toca diretamente em um dos principais pontos de divergência da eleição paulista: qual deve ser o limite da participação privada em áreas consideradas essenciais?

Haddad também criticou o modelo de desestatizações adotado em São Paulo e citou setores como energia e saneamento.

A posição contrasta com a estratégia defendida por Tarcísio desde o início da gestão, baseada na ampliação de concessões, privatizações e parcerias com empresas privadas.

Tarcísio defende concessões e cita novos projetos

Tarcísio apresentou no fórum uma visão oposta à de Haddad sobre o papel da iniciativa privada na infraestrutura paulista.

O governador e candidato à reeleição afirmou que o Estado pretende ampliar a participação privada em projetos de transporte e citou, entre outras iniciativas, o trem Sorocaba-Santos, que, segundo ele, está pronto para ser levado a leilão.

Tarcísio também afirmou que o governo está avançado no projeto do trem entre Santos e São Paulo e defendeu a utilização de parcerias com empresas privadas para ampliar a rede metroferroviária.

A lógica apresentada pelo governador é que o poder público pode utilizar a iniciativa privada para aumentar a capacidade de investimento e acelerar projetos de grande porte.

Sabesp vira símbolo da disputa

Poucos assuntos traduzem melhor a diferença entre os dois candidatos do que a privatização da Sabesp.

Durante o fórum, Tarcísio classificou a desestatização da companhia de saneamento como o projeto mais transformador de sua gestão.

A operação envolveu a venda de 32% das ações que estavam nas mãos do Estado, por R$ 14,8 bilhões, e é defendida pelo governador como uma mudança estrutural no saneamento paulista.

Tarcísio também citou números para sustentar a avaliação positiva sobre o processo. Segundo ele, desde a privatização, 2 milhões de pessoas passaram a ter acesso à água potável e 4 milhões passaram a contar com esgotamento sanitário.

O tema, porém, está longe de ser consensual.

Para a oposição, a transferência de serviços públicos para empresas privadas exige contratos rigorosos, fiscalização e mecanismos que garantam que a busca por eficiência econômica não venha acompanhada de perda de qualidade ou aumento de custos para a população.

É justamente nesse ponto que Haddad concentra parte de suas críticas.

Infraestrutura entra de vez na disputa eleitoral

O fórum da ABDIB não tratou apenas de obras.

A entidade tenta colocar a infraestrutura como uma das bases da estratégia de desenvolvimento do país, envolvendo áreas como energia, saneamento, transportes, logística, mobilidade e indústria de base.

A agenda apresentada aos candidatos prevê medidas para ampliar investimentos, melhorar o ambiente regulatório e criar condições para a participação do capital privado em projetos estruturantes.

A própria ABDIB afirma que o objetivo do fórum é discutir iniciativas capazes de ampliar os investimentos em infraestrutura dentro de uma estratégia que também contemple industrialização, transição energética e redução dos gargalos que dificultam o desenvolvimento sustentável.

O debate é especialmente relevante porque grandes projetos de infraestrutura exigem investimentos elevados e contratos que podem durar décadas.

Na prática, decisões tomadas agora podem determinar quem financia, quem constrói, quem administra e quem fiscaliza serviços que afetam diretamente milhões de pessoas.

A disputa vai além das privatizações

O confronto entre Haddad e Tarcísio revela duas visões diferentes sobre a relação entre Estado e iniciativa privada.

Haddad aposta em maior controle público, fiscalização e fortalecimento das agências reguladoras, enquanto Tarcísio defende a ampliação das concessões e privatizações como caminho para acelerar investimentos.

A discussão deve ganhar ainda mais espaço durante a campanha, principalmente porque envolve serviços que fazem parte do cotidiano do eleitor.

Saneamento, transporte, energia e mobilidade podem parecer temas técnicos, mas chegam diretamente à vida das pessoas por meio da qualidade do serviço, dos investimentos realizados e dos custos pagos pelo consumidor.

E é justamente aí que a infraestrutura deixa de ser apenas uma discussão sobre obras e passa a ocupar um lugar importante na disputa pelo governo de São Paulo.

O que está em jogo

A eleição vai decidir não apenas quem comandará São Paulo nos próximos quatro anos, mas também qual modelo será adotado para financiar e administrar parte da infraestrutura do Estado.

A experiência da gestão Tarcísio já colocou privatizações e concessões no centro do debate. Haddad, por sua vez, tenta transformar a fiscalização, a regulação e a qualidade dos serviços em contraponto ao modelo atual.

Com os dois candidatos defendendo projetos diferentes, infraestrutura deve continuar sendo uma das áreas em que a eleição paulista apresentará uma disputa mais clara entre mais participação privada e maior controle público.

Entenda o contexto

O ABDIB Fórum Eleições 2026 foi realizado nesta terça-feira (25), em São Paulo, com participação de candidatos à Presidência e ao governo paulista. A proposta da entidade foi levar ao debate eleitoral uma agenda voltada à ampliação dos investimentos em infraestrutura.

A ABDIB já utiliza esse tipo de agenda eleitoral para apresentar propostas aos candidatos. Em documentos anteriores, a entidade defendeu temas como segurança jurídica, fortalecimento das agências reguladoras, financiamento de longo prazo e ampliação da participação privada em infraestrutura.

Em 2026, o assunto ganha peso adicional porque São Paulo terá uma disputa em que concessões, privatizações e investimentos públicos devem estar entre os principais pontos de confronto entre os candidatos.

 

Carregar Comentários