Um esquema instalado dentro da estrutura que deveria manter armas apreendidas sob controle do Estado teria desviado cerca de 100 armamentos por ano para abastecer uma facção criminosa no Amapá. A descoberta faz parte da Operação Senhor das Armas, deflagrada pela Polícia Civil nesta terça-feira (25).
Segundo a investigação, armas que estavam sob custódia judicial no Fórum de Macapá e deveriam posteriormente ser encaminhadas ao Exército para destruição eram retiradas do depósito, adulteradas e colocadas novamente em circulação. Parte significativa teria como destino integrantes da Família Terror do Amapá (FTA).
A Polícia Civil estima que aproximadamente 150 armas tenham sido desviadas ao longo de cerca de um ano e meio, média próxima de 100 por ano. Os investigadores ainda trabalham para determinar a dimensão total do esquema.
Como as armas desapareciam antes de serem destruídas?
O ponto de partida do esquema, segundo a investigação, era o chamado Armário Forte do Fórum de Macapá, onde ficavam armazenadas armas, munições e acessórios apreendidos.
Um tenente da Polícia Militar que atuava cedido ao Tribunal de Justiça do Amapá e era encarregado do local é apontado como responsável pelo núcleo dos desvios.
De acordo com o delegado Estefano Santos, armas em melhores condições eram retiradas antes de seguirem para destruição. Registros teriam sido manipulados para fazer parecer que outros armamentos haviam sido enviados no lugar daqueles desviados.
Outro servidor investigado teria participado da retirada física e da logística do armamento.

Armas tinham numeração raspada antes da venda
Depois de saírem do Fórum, os armamentos passariam por outra etapa fundamental para o funcionamento do esquema.
Um armeiro é apontado como responsável por receber, reparar e adulterar as armas. A numeração e outros sinais identificadores eram removidos para dificultar o rastreamento depois que o armamento voltasse às ruas.
A polícia localizou uma oficina apontada como utilizada nesse processo. Duas espingardas foram apreendidas no local, que passou por perícia.
Segundo a investigação, depois de preparadas, as armas eram fotografadas e organizadas em espécies de catálogos enviados por aplicativos de mensagens.
Ordens de compra teriam partido de dentro de presídios
Um dos pontos mais graves da investigação envolve o destino do arsenal.
A Polícia Civil afirma que integrantes e lideranças de uma facção criminosa estavam entre os principais compradores. Algumas negociações envolviam diversas armas e haveria até ordens de aquisição partindo de dentro do sistema penitenciário.
Intermediários também teriam comprado armamentos para revendê-los posteriormente.
Segundo a investigação, as armas eram negociadas por valores que podiam variar entre R$ 8 mil e R$ 10 mil, dependendo do calibre e do estado de conservação.
Como a polícia descobriu o esquema?
A investigação teve origem em 2023, depois da prisão em flagrante de um homem encontrado com seis armas de fogo.
A análise de dados do celular apreendido permitiu aos investigadores rastrear a procedência dos armamentos e avançar sobre a estrutura responsável pelo abastecimento clandestino.
A apuração passou então a alcançar servidores públicos, a oficina clandestina, intermediários e pessoas suspeitas de movimentar o dinheiro.
Dinheiro também entrou na mira da investigação
Uma policial militar, esposa do tenente apontado como responsável pelos desvios, é investigada por supostamente atuar na movimentação financeira do núcleo familiar.
A Polícia Civil apura o uso de depósitos fracionados, contas de terceiros, empresas apontadas como de fachada e transações por Pix. Parte do dinheiro recebido digitalmente teria sido transformada em espécie para pagamentos relacionados ao esquema.
A Justiça determinou medidas de bloqueio de valores e sequestro de imóveis e veículos que podem ultrapassar R$ 26 milhões. A polícia ressalta que esse montante investigado não corresponderia exclusivamente à comercialização das armas, mas também a outras movimentações suspeitas.
Operação teve prisões e afastamentos
Na Operação Senhor das Armas, foram cumpridos 23 mandados de busca e apreensão e duas pessoas foram presas, segundo o balanço divulgado nesta terça-feira.
Os dois policiais militares investigados não foram presos, mas foram afastados das funções e tiveram armas recolhidas. Outro servidor investigado também foi afastado.
As suspeitas apresentadas fazem parte de uma investigação em andamento. Os investigados têm direito à defesa e não devem ser tratados como culpados antes de eventual condenação definitiva.
A Polícia Civil agora analisa celulares, documentos e outros materiais apreendidos para descobrir se existem mais envolvidos e rastrear outras armas que possam ter sido desviadas.
ENTENDA O CONTEXTO
A Operação Senhor das Armas investiga uma estrutura que, segundo a Polícia Civil, teria transformado armas que estavam sob custódia judicial em mercadoria para o crime organizado.
O esquema teria começado dentro do Fórum de Macapá. Armamentos que deveriam seguir para destruição eram desviados, passavam por adulterações para dificultar a identificação e depois eram negociados clandestinamente.
A investigação estima uma média de aproximadamente 100 armas desviadas por ano e aponta integrantes de uma facção criminosa como destino importante do arsenal.
O caso começou a ser desvendado depois de uma prisão em 2023 e avançou até chegar a servidores públicos, policiais militares, um armeiro e pessoas suspeitas de participar da movimentação financeira.
Agora, a polícia tenta descobrir quantas armas efetivamente foram retiradas da custódia judicial, quem recebeu o armamento e se outras pessoas participaram da organização.