Um relatório sigiloso da Polícia Federal, encaminhado ao ministro André Mendonça, aprofunda a radiografia da Operação Compliance Zero e descreve a rota das suspeitas sobre fraudes de cerca de R$ 12 bilhões entre o Banco Master e o BRB, além de uma suposta rede de influência comandada pelo banqueiro Daniel Bueno Vorcaro sobre órgãos de controle em Brasília.
O documento, produzido no âmbito do IPJ-A nº 3298613/2026, mostra como a investigação chega a autoridades do Banco Central, da Procuradoria-Geral da República e da própria Polícia Federal, mas afirma que, por limites legais, os investigadores se restringem à coleta de “dados brutos” quando surgem indícios envolvendo magistrados e membros do Ministério Público.
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Fraudes bilionárias e a prisão de Vorcaro
A Operação Compliance Zero é aberta em 18 de novembro de 2025 para apurar, nas palavras do relatório, “fraudes na cessão de carteiras de crédito, no montante aproximado de R$ 12 bilhões, realizadas pelo Banco Master em favor do BRB”. A PF atribui a liderança desse esquema, em tese, ao proprietário do Banco Master, Daniel Bueno Vorcaro, cuja prisão é decretada pela 10ª Vara Federal Criminal da Seção Judiciária do Distrito Federal.
No cumprimento do mandado, a equipe apreende o principal objeto deste relatório: um aparelho iPhone 17 Pro, da Apple, série LTPF3F27YR, com dois números de identificação (IMEI A 358829560150138 e IMEI B 358829560502072). Os peritos extraem o conteúdo com ferramentas forenses e atestam a integridade dos dados em laudo específico, que serve de base para a análise dos investigadores.
É desse celular que emerge, segundo a PF, a trilha de mensagens, anotações e contatos que alimenta a suspeita de uma estrutura de “influência e monitoramento” operada por Vorcaro para acompanhar e, em tese, tentar interferir em decisões sensíveis ao Banco Master em órgãos de Estado.
Rede de influência chega a órgãos de cúpula
O relatório é elaborado após uma cobrança direta do ministro André Mendonça. Na PET nº 15.556, o relator determina que a PF apresente, “no prazo de 72 horas, informações atualizadas sobre o atual estágio das investigações, notadamente no que concerne à identificação dos integrantes da suposta rede de influência e monitoramento gerenciada por DANIEL BUENO VORCARO”.
O ministro orienta ainda que as informações incluam “a identificação das pessoas que participaram e foram mencionadas nas mensagens” já juntadas ao inquérito, “aí incluídas eventuais detentoras de foro por prerrogativa de função, inclusive aquelas eventualmente sujeitas à incidência do art. 5º, I, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal”. Ou seja, quer saber quem são, nominalmente, os interlocutores de Vorcaro, mesmo quando ocupam cargos na cúpula dos Poderes.
Em resposta, a PF detalha duas frentes conexas de apuração. A primeira investiga a hipótese de pagamento de vantagens indevidas a servidores do Banco Central, registrada sob IPL 2026.0053200 e PET 15.504. A segunda mira o funcionamento de um grupo apelidado de “Turma”, associado ao IPL 2026.0029775 e PET 15.499, que aparece nas notas e mensagens recuperadas do aparelho.
Limites legais e dados brutos sobre autoridades
O relatório é explícito ao marcar a linha que a PF diz não cruzar em relação a magistrados e membros do Ministério Público. Segundo o texto, por força da Lei Orgânica da Magistratura (LOMAN) e da Lei Orgânica do Ministério Público, os policiais “limitam-se a dados brutos” e não realizam “atos de aprofundamento investigativo” direcionados a esses agentes.
Na prática, isso significa que os investigadores descrevem o que aparece nos arquivos digitais — nomes, agendas, notas, rascunhos de conversas —, mas deixam para instâncias superiores qualquer eventual aprofundamento sobre autoridades com foro. O material sobre pessoas protegidas por essas leis é enviado ao Supremo, sob supervisão do ministro relator.
Esse cuidado é repetido em diversos trechos do documento, numa tentativa de afastar a leitura de que haja, neste momento, uma investigação formal contra ministros de tribunais superiores ou integrantes da cúpula da Procuradoria-Geral da República. A PF frisa que atua sob coordenação do Ministério da Justiça e controle judicial, dentro das balizas fixadas pelo próprio André Mendonça.
Bastidores do Banco Master e a “Turma”
O relatório aponta que as supostas fraudes na cessão de carteiras de crédito partem do Banco Master em direção ao BRB, em operações que somam aproximadamente R$ 12 bilhões. De acordo com a PF, Vorcaro usa sua posição à frente do banco para estruturar as transações sob investigação e, ao mesmo tempo, montar um circuito de informações privilegiadas sobre decisões regulatórias e judiciais que afetariam o negócio.
É nesse circuito que entra o grupo chamado de “Turma”. Os investigadores vinculam essa expressão ao IPL 2026.0029775 e à PET 15.499 e descrevem o conjunto de personagens que, em tese, atuariam em rede ao lado de Vorcaro, conectando interesses privados a órgãos de Estado. Os nomes específicos aparecem indexados em seções posteriores do IPJ-A, mas o documento evita atribuir crimes consumados a qualquer integrante antes do fim da apuração.
O texto registra ainda frentes paralelas de análise digital, como pesquisas internas no aparelho por termos relacionados a figuras como “Paulo Gonet” e “Andrei Passos”. A PF ressalta que tais referências podem se referir a autoridades com essas iniciais ou nomes, mas trata essas conexões como hipóteses interpretativas, que dependem de verificação adicional fora do escopo técnico deste laudo.
Estágio avançado e próximos passos
Nas considerações finais, a PF afirma que a investigação da Operação Compliance Zero se encontra em estágio avançado. Faltam, segundo o relatório, a conclusão das análises bancárias detalhadas e a leitura integral do material digital apreendido. A previsão é encerrar as oitivas remanescentes em até 60 dias.
Esse calendário interessa diretamente ao Supremo, ao Ministério da Justiça e aos órgãos reguladores, porque a conclusão do inquérito deve indicar quem será denunciado, quem responderá a ações penais e quais servidores públicos podem enfrentar processos administrativos. Todos os envolvidos permanecem, até aqui, na condição de investigados; nenhum deles foi julgado ou condenado no caso.
A PF registra que o avanço da apuração não significa condenação prévia de qualquer pessoa citada. A documentação descreve suspeitas e dados coletados, mas a eventual responsabilização criminal ou cível depende de análise do Ministério Público, recebimento de denúncia por parte do Judiciário e decisão após amplo direito de defesa.
As defesas de Daniel Vorcaro, do Banco Master, do BRB e de autoridades mencionadas no relatório são ou serão procuradas pela reportagem. Todos têm espaço aberto para apresentar sua versão dos fatos, contestar as interpretações policiais e apontar eventuais falhas na análise dos dados digitais.
No horizonte, o caso tende a pressionar por mudanças nas regras de compliance de bancos e órgãos de controle, além de testar os limites de atuação de PF, Banco Central e PGR em situações em que interesses financeiros bilionários se cruzam com a cúpula do sistema de Justiça.
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O que é a Operação Compliance Zero?
A Operação Compliance Zero é uma investigação da Polícia Federal que mira suspeitas de fraudes em cessão de carteiras de crédito de cerca de R$ 12 bilhões entre o Banco Master e o BRB, com foco na atuação de Daniel Bueno Vorcaro e em uma rede de influência envolvendo órgãos de controle em Brasília.
O que diz o novo relatório da PF sobre Daniel Vorcaro?
O relatório IPJ-A nº 3298613/2026 aponta que Daniel Bueno Vorcaro, dono do Banco Master, lidera em tese fraudes de R$ 12 bilhões e coordena uma “rede de influência e monitoramento”, identificada a partir de dados do seu iPhone 17 Pro apreendido, mas ressalta que ele ainda é apenas investigado, sem julgamento.
Há ministros e membros da PGR formalmente investigados?
O documento da PF indica que mensagens e notas do celular de Daniel Vorcaro podem mencionar ministros e integrantes da Procuradoria-Geral da República, mas afirma que, por LOMAN e Lei Orgânica do MP, a corporação só coleta dados brutos e não aprofunda investigações contra essas autoridades, que não são formalmente acusadas no inquérito.
A investigação está em andamento e as suspeitas descritas são hipóteses da apuração. Nenhuma das pessoas citadas foi denunciada ou condenada, e todas têm direito à presunção de inocência. O espaço segue aberto para manifestação das defesas.