Um depoimento prestado em sigilo por Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, revela um relato de ameaças, isolamento e desconfiança em relação à Polícia Federal — e cita, nominalmente, o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, como um dos nomes que apareceriam caso ele conseguisse fechar um acordo de colaboração premiada.
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A oitiva ocorreu em 27 de agosto, dentro da carceragem da Papuda, onde Vorcaro está preso preventivamente, conduzida por João Azambuja, juiz auxiliar do gabinete do ministro André Mendonça, do STF. O ato contou com a presença dos advogados de Vorcaro, Daniel Bialski e Engels Muniz, e de um representante do Ministério Público Federal.
“Toda minha família foi destruída”, afirmou Vorcaro.
Ao longo do depoimento, Vorcaro afirma ter sido submetido a intimidações físicas e psicológicas desde sua primeira prisão, em novembro do ano passado — incluindo, segundo ele, horas dentro de um camburão sem ventilação e falas de agentes de custódia insinuando represálias caso ele decidisse “falar do chefe”.
O banqueiro relata ainda que sua mãe, que mora sozinha em Belo Horizonte, e sua irmã receberam e-mails anônimos ameaçando sua vida — mensagens que, segundo ele, serão anexadas ao processo. Questionado pelo juiz sobre a origem das ameaças, Vorcaro afirmou não ter certeza de quem seriam os “mandantes”, mas disse acreditar que partiam de pessoas interessadas em impedir sua colaboração com a Justiça.
A menção a Andrei Rodrigues
O ponto mais sensível do depoimento surge quando o advogado de Vorcaro pede que ele exemplifique quem seria afetado por uma eventual delação. O banqueiro cita o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, descrevendo uma relação que classificou como “cordial”, com participação em eventos conjuntos, viagens e convites — inclusive para corridas de Fórmula 1 — anteriores à deflagração da Operação Compliance Zero.
Segundo Vorcaro, essa proximidade pretérita seria uma das razões pelas quais, em sua avaliação, sua tentativa de colaboração com a Polícia Federal nunca avançou. “Ele estaria, sim, dentro do contexto dessa questão do evento de relações que eu acabei desenvolvendo”, afirmou, ao ser perguntado se o diretor da PF constaria entre os nomes citados numa eventual delação.
Contraste com a postura da PGR
Ao longo do relato, Vorcaro traçou um contraste direto entre a atuação da Procuradoria-Geral da República, que classificou como aberta e disposta a ouvi-lo desde o início, e a da Polícia Federal, que descreveu como resistente a qualquer tentativa de colaboração formal. Questionado pelo representante do Ministério Público se sentia algum desconforto com a presença da PGR no próprio depoimento, respondeu: “Zero incômodo”.
Já sobre a PF, afirmou acreditar que existe, dentro da corporação, uma pressão “de cima para baixo” para barrar sua colaboração — hipótese que associou à participação de agentes em situações que, segundo ele, cruzaram “linhas de moralidade” e possivelmente de ilicitude.
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Pedido para reabrir a colaboração
Ao final da audiência, a defesa de Vorcaro formalizou um requerimento pedindo a criação de condições — inclusive de segurança para a família do banqueiro — que viabilizassem uma nova tentativa de colaboração premiada, agora sob supervisão direta do gabinete de Mendonça. O juiz determinou que os autos retornassem conclusos ao ministro, responsável por decidir os próximos passos do caso.
O depoimento se soma a uma sequência de revelações que, nas últimas semanas, colocaram sob suspeita a relação entre autoridades do sistema de Justiça e o entorno do Banco Master — e agora atinge, pela primeira vez de forma direta, também a cúpula da Polícia Federal.
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