Rim de porco funciona por 271 dias em paciente e aproxima transplante animal de uma nova realidade

Estudo liderado pelo brasileiro Leonardo Riella permitiu que paciente com doença renal terminal ficasse nove meses sem diálise; órgão foi retirado após uma reação imunológica.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Um rim de porco geneticamente modificado funcionou durante 271 dias no corpo de um paciente com doença renal terminal, um período recorde para esse tipo de transplante. O procedimento foi liderado pelo médico e pesquisador brasileiro Leonardo Riella, professor da Harvard Medical School, nos Estados Unidos.

O paciente, Timothy Andrews, de 66 anos, conseguiu ficar cerca de nove meses sem precisar de diálise e retomou atividades que já não conseguia realizar por causa da doença. O caso é considerado um avanço importante nas pesquisas de xenotransplante, técnica que busca utilizar órgãos de animais geneticamente modificados em seres humanos.

VEJA TAMBÉM:

Cérebro de músicos pode antecipar movimentos e aprender sequências mais rápido, sugere estudo

Setembro Amarelo: o que está por trás do aumento dos suicídios no Brasil?

 Café pode estar ligado a menos gordura e mais massa muscular, sugere estudo

Entenda o que aconteceu

Timothy Andrews enfrentava uma doença renal em estágio terminal e dependia de sessões frequentes de diálise. O quadro havia debilitado tanto o paciente que ele passou a utilizar cadeira de rodas e enfrentava diversas limitações na rotina.

Em janeiro de 2025, ele recebeu um rim de porco geneticamente modificado como parte da pesquisa conduzida pela equipe de Leonardo Riella.

O órgão permaneceu funcionando por 271 dias, período no qual o paciente não precisou fazer diálise e conseguiu recuperar parte da rotina que havia perdido.

Segundo Riella, Andrews chegou a voltar a acampar, cortar madeira, carregar peso e se alimentar sem as restrições que enfrentava anteriormente.

Tim comemora após xenotransplante I Foto Kate Flock Massachusetts General Hospital
Tim comemora após xenotransplante I Foto: Kate Flock/Massachusetts General Hospital

Paciente viveu nove meses sem diálise

Antes do transplante, Andrews havia passado cerca de um ano e meio fazendo diálise. O tratamento frequente havia provocado grande impacto em sua qualidade de vida.

Após receber o rim suíno, porém, a resposta inicial foi positiva.

“Pouco tempo depois da cirurgia, ele já tinha uma vida normal. Ele voltou ao acampamento, cortava madeira, carregava peso, comia o que queria, não precisava de diálise. Era uma outra vida.”

O próprio paciente também relatou a diferença provocada pelo procedimento e afirmou que passou a se sentir muito melhor depois da cirurgia.

O rim precisou ser retirado posteriormente após uma reação do sistema imunológico. Mesmo assim, Andrews recebeu um transplante de rim humano 82 dias depois, e o novo órgão continuava funcionando sem sinais de rejeição.

Foto: Kate Flock Massachusetts/General Hospital

Por que o rim precisou ser retirado

O principal desafio do procedimento continua sendo controlar a reação do sistema imunológico humano ao órgão animal.

Durante o tratamento, Andrews teve uma infecção bacteriana. Por causa disso, foi necessário reduzir os medicamentos imunossupressores usados para impedir que o organismo rejeitasse o rim transplantado.

Com a redução da imunossupressão, o sistema imunológico passou a atacar o órgão suíno. A equipe médica decidiu então retirar o rim.

Apesar disso, os 271 dias de funcionamento representaram um avanço em relação aos casos anteriores estudados pela equipe.

Antes de Andrews, outro paciente havia recebido um rim suíno em 2024 e sobreviveu 52 dias após o procedimento. Segundo a pesquisa, a morte daquele paciente ocorreu por problemas cardíacos não relacionados diretamente ao transplante.

LEIA TAMBÉM:

Própolis pode ajudar a controlar a glicemia? Veja o que diz estudo

Médicos retiram bateria de lítio do estômago de criança no Acre

Anvisa autoriza medicamento experimental para Lito Sousa

Como um rim de porco pode funcionar em uma pessoa

O órgão utilizado no procedimento não veio de um porco comum. Ele foi produzido a partir de um animal geneticamente modificado para aumentar a compatibilidade com o organismo humano.

Uma das principais alterações buscou evitar a chamada rejeição hiperaguda, uma reação extremamente rápida do sistema imunológico contra tecidos de outra espécie.

Os pesquisadores eliminaram genes responsáveis pela produção de determinadas moléculas presentes na superfície das células suínas. Essas moléculas podem ser reconhecidas pelo organismo humano como elementos estranhos e desencadear um forte ataque imunológico.

Outra alteração foi feita para reduzir o risco de infecções. Os cientistas desativaram fragmentos de vírus presentes naturalmente no DNA dos porcos que poderiam representar um risco caso fossem reativados no organismo humano.

Além disso, foram inseridos sete genes humanos no material genético do animal. O objetivo é fazer com que o órgão produza proteínas mais compatíveis com o corpo humano.

Foram aproximadamente cinco anos de pesquisas e diferentes edições genéticas até a equipe chegar ao modelo utilizado no procedimento.

Xenotransplante pode reduzir a fila por órgãos

A possibilidade de utilizar órgãos de animais geneticamente modificados é estudada há décadas como alternativa para enfrentar a falta de doadores humanos.

No Brasil, cerca de 45 mil pessoas aguardam atualmente por um transplante renal, segundo dados do Ministério da Saúde citados na pesquisa.

O problema é especialmente relevante porque pacientes que não conseguem um novo órgão precisam permanecer em tratamentos como a diálise, que podem comprometer significativamente a qualidade de vida.

Para Riella, o xenotransplante pode se tornar uma alternativa para pacientes que já seriam candidatos a um transplante convencional.

“A gente viu que um órgão animal funciona plenamente em um ser humano. Ele teve a capacidade de regular os minerais e a água exatamente como os rins humanos. Superamos muitos obstáculos.”

A expectativa do pesquisador é que o procedimento possa se tornar uma alternativa real para alguns pacientes nos próximos cinco anos. Ainda assim, novos testes clínicos serão necessários antes que a técnica possa ser utilizada de forma mais ampla.

O desafio ainda é controlar a rejeição

Mesmo com o resultado considerado promissor, os pesquisadores ainda precisam entender melhor como controlar a resposta imunológica ao longo do tempo.

A quantidade de medicamentos imunossupressores necessária pode mudar durante o tratamento. No caso de Andrews, a redução desses medicamentos após uma infecção contribuiu para a reação contra o rim suíno.

A equipe agora busca entender quais doses podem ser reduzidas com segurança sem comprometer o funcionamento do órgão.

A longo prazo, a expectativa é aumentar ainda mais a durabilidade dos rins de animais geneticamente modificados e reduzir a dependência dos medicamentos usados para evitar a rejeição.

Brasil também avança nas pesquisas

O Brasil também desenvolve pesquisas na área de xenotransplantes.

Em abril, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) anunciaram o nascimento do primeiro porco clonado no país dentro de um projeto ligado ao Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante.

A estratégia brasileira também envolve alterações genéticas para reduzir a rejeição e aumentar a compatibilidade dos órgãos suínos com seres humanos.

Os pesquisadores já haviam desenvolvido técnicas para desativar genes ligados à rejeição e inserir genes humanos nos animais. A clonagem representa uma etapa importante para permitir a reprodução desses animais em maior escala.

Entenda o contexto

O caso de Timothy Andrews não significa que rins de porco já estejam disponíveis como tratamento convencional. O procedimento ainda faz parte de uma linha de pesquisa experimental e depende de novos estudos para avaliar segurança, eficácia e durabilidade.

O resultado, porém, representa um avanço importante porque o órgão conseguiu funcionar durante 271 dias, permitindo que um paciente com doença renal terminal permanecesse sem diálise durante aproximadamente nove meses.

Para especialistas, a evolução dos xenotransplantes abre uma possibilidade para enfrentar um dos maiores desafios da medicina: a falta de órgãos disponíveis para transplante.

Ainda será necessário avançar nos testes clínicos e no controle da rejeição antes que a técnica possa chegar a um número maior de pacientes.

AS MAIS LIDAS DO NC NEWS:

Streamer acusa ator de ‘Quem Ama Cuida’ de racismo após denúncia de homofobia

Coco Bambu sofre primeira derrota na Justiça em processo contra Gregório Duvivier e João Vicente

Flávio Bolsonaro chama Moraes de “laranja podre” e defende investigação no STF

 

Carregar Comentários