Quem passa anos estudando música pode desenvolver uma habilidade que vai além de tocar um instrumento. Um estudo com 151 pessoas sugere que o cérebro de músicos consegue aprender sequências de movimentos mais rapidamente e antecipar com maior precisão o que vem a seguir.
A pesquisa foi realizada por cientistas de universidades da Austrália e publicada na revista Psychological Research. Os resultados também revelaram outro detalhe importante: ver uma nova sequência de movimentos logo depois de aprender uma tarefa pode atrapalhar a formação da memória motora, tanto em músicos quanto em pessoas sem treinamento musical.
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Entenda o que aconteceu
Os pesquisadores queriam entender como a experiência musical poderia influenciar a capacidade de aprender e prever sequências de movimentos.
Para isso, 151 voluntários participaram do experimento. Cerca de metade tinha formação musical formal, enquanto os demais não possuíam treinamento equivalente.
Todos precisaram aprender uma sequência de 10 movimentos, orientados por sinais visuais apresentados em uma tela e acompanhados por sons.
Depois de um intervalo curto, os participantes foram expostos a uma nova sequência antes de realizarem novamente a tarefa original.
Músicos conseguiram antecipar melhor os movimentos
Os resultados mostraram uma diferença importante entre os grupos.
Além de aprenderem as sequências mais rapidamente, os participantes com formação musical apresentaram maior capacidade de antecipar os próximos passos.
Isso significa que eles conseguiram utilizar as informações disponíveis para prever com mais precisão qual seria o movimento seguinte.
Para os pesquisadores, a experiência musical pode ter contribuído para tornar o processamento dessas informações mais eficiente.
Mas existe uma diferença importante: o estudo não concluiu que músicos tenham necessariamente uma memória mais resistente.
O benefício observado parece estar mais relacionado à maneira como o cérebro processa e utiliza as informações durante o aprendizado.
Uma nova sequência visual pode atrapalhar a memória
O estudo também encontrou um resultado que pode surpreender.
Depois que os participantes aprenderam a sequência inicial, os pesquisadores apresentaram uma nova sequência visual.
Quando essa nova sequência continha mudanças nos estímulos visuais, houve queda no desempenho dos participantes ao retornarem à tarefa original.
O efeito apareceu tanto em músicos quanto em pessoas sem formação musical.
Isso sugere que a memória motora recém-formada pode ser particularmente sensível a novas informações visuais apresentadas logo após o aprendizado.
Sons diferentes tiveram menos impacto
A interferência não aconteceu da mesma maneira com os estímulos sonoros.
Quando os participantes foram expostos apenas a sons diferentes, sem a mesma alteração visual, o efeito sobre a memória da sequência aprendida foi pequeno.
Para os pesquisadores, o resultado reforça a possibilidade de que o tipo de estímulo recebido logo depois de uma atividade motora seja importante para a consolidação daquela aprendizagem.
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O que a música pode ensinar sobre o cérebro
A experiência musical exige que o cérebro processe simultaneamente diferentes tipos de informação.
Ao tocar um instrumento, por exemplo, uma pessoa precisa coordenar movimentos, interpretar estímulos, manter sequências na memória e antecipar o que acontecerá em seguida.
Segundo os pesquisadores, anos de treinamento podem contribuir para tornar esse processamento mais eficiente.
A descoberta ajuda a compreender como a prática prolongada de uma habilidade pode influenciar mecanismos envolvidos no aprendizado motor.
Descoberta pode ajudar na reabilitação
Os resultados podem ter aplicações em áreas que dependem do aprendizado e da recuperação de habilidades motoras.
Entre elas estão a reabilitação física, o treinamento esportivo e o ensino de novos movimentos.
Uma possibilidade levantada pelos pesquisadores é que o aprendizado recente seja protegido de determinadas interferências durante o período imediatamente posterior ao treinamento.
Isso não significa evitar qualquer atividade depois de aprender algo novo. A questão seria entender quais tipos de estímulos podem interferir na memória recém-formada.
Entenda o contexto
O estudo mostra que a experiência musical pode estar associada a uma maneira mais eficiente de aprender e antecipar sequências motoras.
Os músicos participantes não apresentaram simplesmente uma memória “melhor”. O principal resultado foi uma maior capacidade de processar informações e prever os próximos movimentos durante o aprendizado.
Ao mesmo tempo, a pesquisa mostrou que uma nova sequência visual apresentada logo depois pode prejudicar o desempenho posterior na tarefa aprendida.
Os pesquisadores agora investigam com mais detalhes como o treinamento musical influencia esse processo no cérebro. Entre as ferramentas utilizadas estão técnicas como a eletroencefalografia, que permite acompanhar a atividade elétrica cerebral durante determinadas tarefas.
A expectativa é entender melhor quais mudanças acontecem no cérebro de pessoas que passam anos treinando habilidades musicais e como esse conhecimento pode ser aplicado em outras formas de aprendizagem e reabilitação.
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