Um minério pouco conhecido fora do setor de mineração está no centro de uma investigação que expõe uma rota entre o garimpo ilegal na Amazônia e grandes empresas do mercado global. A cassiterita, principal minério utilizado para a produção de estanho, teria sido extraída ilegalmente, processada e inserida no mercado formal por meio de uma cadeia que dificultava a identificação da origem.
A investigação conduzida pelo Ministério Público Federal (MPF) aponta que o esquema movimentou pelo menos R$ 200 milhões entre 2020 e 2025. Apenas em um período de quatro meses, documentos apreendidos pela Polícia Federal indicaram a circulação clandestina de mais de 525 toneladas de cassiterita.
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Entenda O Que Aconteceu
A cassiterita é a principal fonte de estanho, metal utilizado em uma série de produtos industriais e tecnológicos. O material está presente, por exemplo, em componentes eletrônicos, telas, peças automotivas, ligas metálicas e outros produtos da indústria moderna.
O problema investigado pelo MPF está na origem de parte desse minério. Segundo a apuração, material extraído ilegalmente na Amazônia teria sido recebido, processado e posteriormente comercializado como se tivesse origem regular.
A White Solder, empresa brasileira que atua na produção e fornecimento de estanho e soldas, tornou-se ré em uma ação judicial relacionada ao caso. O MPF aponta a companhia como parte de uma estrutura que teria participado da recepção, refino e regularização documental de minério de origem ilegal. As acusações ainda serão analisadas pela Justiça.

Como O Minério Entrava No Mercado Formal
O mecanismo investigado funciona a partir da chamada lavagem do minério. Na prática, o material extraído clandestinamente precisa receber uma aparência de legalidade antes de alcançar grandes compradores.
Segundo o MPF, a estrutura investigada utilizava documentos, processos de beneficiamento e mecanismos de certificação para dificultar a identificação da origem da cassiterita.
A investigação também aponta que a empresa envolvida possuía certificações e mecanismos de conformidade que, em tese, deveriam ajudar a garantir a origem responsável do minério. Mesmo assim, os investigadores identificaram indícios de que material ilegal teria conseguido atravessar essas barreiras.

Gigantes Globais Entram No Radar
A investigação chamou atenção para o destino final do estanho. Segundo informações reunidas pelo MPF, empresas multinacionais que atuam no Brasil aparecem na cadeia de fornecimento relacionada à refinaria investigada.
De acordo com a apuração, dez multinacionais foram notificadas para prestar esclarecimentos sobre seus mecanismos de verificação de origem e procedimentos de diligência socioambiental e de direitos humanos. A investigação busca determinar até que ponto os compradores tinham condições de identificar eventuais irregularidades na origem do minério.
Isso não significa que essas empresas tenham sido responsabilizadas criminalmente. O ponto central da investigação é justamente verificar como um minério de possível origem ilegal conseguiu entrar em cadeias formais de fornecimento.
A Amazônia É Alvo De Garimpo De Cassiterita
A exploração ilegal de cassiterita não é um problema isolado. Em agosto, uma operação conjunta da Polícia Federal e do ICMBio combateu atividades ilegais de extração de ouro e cassiterita no Parque Nacional Mapinguari, entre Rondônia e Amazonas.
Durante a ação, foram inutilizados 23 acampamentos, duas escavadeiras hidráulicas, um trator, motores, geradores e mais de 10 mil litros de combustível utilizados na estrutura de garimpo.
Em outro processo, o MPF denunciou quatro pessoas acusadas de exploração clandestina de cassiterita na mesma região. Segundo os laudos, a atividade destruiu pelo menos 39 hectares de floresta e afetou cerca de 4,8 quilômetros de cursos d’água.

Por Que A Cassiterita É Tão Importante
A cassiterita ganhou importância justamente por estar ligada a um metal estratégico para a indústria. O estanho é utilizado em diferentes segmentos, especialmente na fabricação de componentes e produtos eletrônicos.
Dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) mostram que o estanho representa cerca de 10% dos processos relacionados a minerais críticos e estratégicos na Amazônia Legal, ficando atrás apenas de substâncias como ouro e à frente de diversos outros minerais.
A crescente demanda por minerais estratégicos aumenta a pressão sobre áreas da Amazônia que possuem reservas desses recursos e também cria oportunidades para redes criminosas explorarem a diferença entre o minério ilegal e o produto já processado.
MPF Pede Reparação Bilionária
No caso investigado, o MPF também apresentou um pedido de R$ 1,7 bilhão em reparações, considerando danos ambientais, patrimoniais e coletivos relacionados às atividades apontadas na investigação.
A ação envolve acusações de extração, transporte, industrialização e comercialização de minério de origem ilegal. A responsabilização definitiva dos envolvidos dependerá da análise e das decisões da Justiça.
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Entenda O Contexto
A investigação sobre a cassiterita mostra que o garimpo ilegal na Amazônia não termina necessariamente no momento em que o minério deixa a floresta. O material pode percorrer uma longa cadeia de transporte, processamento e comercialização até chegar ao mercado formal, dificultando a identificação de sua origem.
No caso investigado pelo Ministério Público Federal, a suspeita é de que cassiterita extraída ilegalmente tenha sido incorporada a uma cadeia internacional de fornecimento de estanho. O episódio também expõe um desafio cada vez maior para empresas que dependem de minerais estratégicos: garantir que seus fornecedores tenham origem comprovadamente legal e não estejam associados à destruição ambiental ou à exploração clandestina de recursos naturais.
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