TikTok espalha termos de terapia, mas nem sempre ajuda a entender a saúde mental

Estudo com universitários mostra que vídeos sobre “terapeutiquês” aumentaram a consciência sobre saúde mental, mas não melhoraram o conhecimento sobre transtornos e conceitos clínicos
Redação NC News
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Basta alguns minutos no TikTok para encontrar vídeos sobre “gatilhos”, “traumas”, “apego ansioso”, “gaslighting” e “limites”. A linguagem da psicologia e da terapia ganhou espaço nas redes sociais e passou a fazer parte do vocabulário cotidiano de milhões de pessoas. O problema é que conhecer uma palavra não significa necessariamente compreender o conceito por trás dela.

Um estudo conduzido pela pesquisadora Zoe Stephens, do Scripps College, nos Estados Unidos, ajuda a dimensionar essa diferença. A pesquisa envolveu 95 universitários americanos, entre 18 e 24 anos, que assistiram a vídeos do TikTok com conteúdos de “therapy-speak”, expressão que pode ser traduzida como “terapeutiquês”, ou a vídeos neutros. Depois, os participantes responderam questionários sobre consciência, conhecimento e estigma relacionados à saúde mental.

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Entenda o que aconteceu

Os participantes que assistiram aos vídeos com linguagem terapêutica disseram ter ficado mais atentos à própria saúde mental. Ou seja, o conteúdo ajudou a despertar uma percepção maior sobre emoções, comportamentos e possíveis dificuldades psicológicas.

Mas esse aumento de consciência não veio acompanhado de uma melhora significativa no conhecimento técnico sobre saúde mental. Na prática, os participantes passaram a pensar mais no assunto, mas não necessariamente passaram a entendê-lo melhor.

O resultado mostra uma das principais contradições do fenômeno: as redes podem ajudar a colocar a saúde mental em discussão, mas a simplificação excessiva também pode transformar conceitos clínicos complexos em frases prontas.

O que é o “terapeutiquês”

O termo “terapeutiquês” é utilizado para descrever a popularização de expressões originalmente ligadas à psicologia, à psiquiatria e à terapia.

Palavras como “gatilho”, “trauma”, “validar”, “limites”, “gaslighting” e “apego ansioso” passaram a aparecer com frequência em vídeos, comentários e conversas nas redes sociais.

O problema não está necessariamente em utilizar esse vocabulário. Ele pode ajudar as pessoas a falar sobre sentimentos e experiências que antes eram difíceis de nomear.

A dificuldade surge quando uma palavra passa a ser tratada como uma explicação completa para uma situação que, na realidade, exige contexto e avaliação individual.

Quando uma palavra vira diagnóstico

Um dos riscos desse processo é transformar características comuns do comportamento humano em possíveis sinais de transtornos.

Procrastinar, esquecer compromissos, sentir cansaço depois de interações sociais ou ter dificuldade de concentração, por exemplo, são experiências que podem acontecer com muitas pessoas e, isoladamente, não permitem concluir que alguém tenha determinado transtorno.

Uma pesquisa publicada anteriormente sobre vídeos do TikTok relacionados ao autismo identificou justamente esse problema. Entre 116 vídeos que descreviam características ou sintomas, 76 associavam ao autismo comportamentos considerados comuns na população.

Isso pode favorecer uma espécie de “psiquiatria de checklist”, na qual a pessoa identifica alguns comportamentos em si mesma e chega rapidamente à conclusão de que possui determinado diagnóstico.

O lado positivo das redes sociais

Apesar dos riscos, os especialistas não consideram que todo conteúdo sobre saúde mental nas redes seja necessariamente prejudicial.

Um dos efeitos positivos apontados pelo estudo é justamente fazer com que pessoas que nunca haviam refletido sobre o tema percebam que determinados sentimentos ou comportamentos podem merecer atenção.

Para quem nunca teve contato com conceitos de saúde mental, encontrar uma explicação acessível pode representar o primeiro passo para procurar informações mais confiáveis ou buscar ajuda profissional.

O problema aparece quando esse primeiro contato passa a ser também o último.

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Conteúdo enganoso também circula no TikTok

A quantidade de conteúdo sobre saúde mental nas redes também aumenta o desafio de separar informação de desinformação.

Um levantamento citado pela CNN analisou 500 vídeos publicados no TikTok com hashtags relacionadas à saúde mental. O estudo identificou conteúdo considerado enganoso em 83,7% dos vídeos analisados. Entre os conteúdos sobre TDAH, o índice chegou a 100%.

Outro problema identificado é a ausência de informações sobre a formação de quem produz o conteúdo. Em muitos casos, os vídeos não deixam claro se o responsável possui formação profissional na área da saúde.

Isso significa que um conteúdo com aparência de explicação médica ou psicológica pode estar sendo produzido apenas com base na experiência pessoal de alguém.

Por que o formato viraliza tanto

O sucesso desse tipo de conteúdo está ligado à capacidade dos vídeos curtos de oferecer respostas rápidas para experiências difíceis de explicar.

Uma pessoa que sente ansiedade, dificuldade de concentração ou problemas em relacionamentos pode se reconhecer imediatamente em um vídeo de poucos segundos.

O algoritmo também contribui para esse processo. Quanto maior o envolvimento do usuário com determinado tema, maior a tendência de receber conteúdos semelhantes, criando uma sequência de vídeos que reforça determinada interpretação.

A promessa de finalmente encontrar uma explicação para a pergunta “por que eu sou assim?” pode ser especialmente atraente.

Entenda o contexto

A popularização do vocabulário psicológico faz parte de uma transformação maior na maneira como a sociedade fala sobre saúde mental.

Temas que durante muito tempo foram cercados por tabu passaram a ser discutidos de maneira aberta nas redes sociais. Termos relacionados a ansiedade, depressão, TDAH, autismo, trauma e relacionamentos ganharam milhões de visualizações.

Essa abertura pode contribuir para reduzir o silêncio e o estigma em torno do sofrimento psicológico.

Ao mesmo tempo, existe o risco de transformar experiências humanas complexas em listas simplificadas de sintomas.

O desafio, portanto, não é deixar de falar sobre saúde mental, mas aprender a diferenciar identificação de diagnóstico e informação de explicação clínica.

Um vídeo pode fazer alguém reconhecer que determinada questão merece atenção. Mas somente esse reconhecimento não é suficiente para estabelecer um diagnóstico.

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