Uma troca de mensagens pelo WhatsApp entre os ministros Gilmar Mendes e Kassio Nunes Marques expôs mais um capítulo da crise interna que atravessa o Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo e pelo Metrópoles, o decano da Corte pressionou o colega durante o julgamento que discutia o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e chegou a cobrar que Kassio deixasse a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A conversa ocorreu em 8 de setembro, enquanto Gilmar estava na Itália para um casamento. Naquele dia, a Segunda Turma do STF analisava a decisão do ministro André Mendonça que havia determinado o afastamento de Andrei Rodrigues. Kassio Nunes Marques e Luiz Fux acompanharam Mendonça, formando maioria pela manutenção do afastamento.
Gilmar havia pedido vista do julgamento e interpretou a movimentação dos colegas como uma articulação. A partir daí, segundo os relatos publicados pelos dois veículos, iniciou-se uma sequência de mensagens que terminou com Kassio bloqueando o decano no aplicativo.
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A mensagem que provocou a reação
Em uma das mensagens, Gilmar Mendes cobrou que Kassio e Fux deixassem de participar dos processos relacionados ao caso e abrissem seus dados financeiros.
“Assumam q estão ferrados e saiam dos processos. Abram as contas”, escreveu o decano.
Kassio reagiu pedindo respeito ao colega.
“Me respeite Gilmar. Isso não é postura”, respondeu o ministro.
A conversa, porém, não terminou ali. Gilmar voltou a pressionar Kassio e afirmou que não respeitaria quem, segundo ele, não se desse ao respeito. Também defendeu que o colega deixasse a presidência do TSE.
“Vc tem de sair do TSE também”, escreveu Gilmar.
Kassio respondeu:
“Então não me tecle pois não falo com quem não me respeita.”
A troca ocorreu em um momento de crescente tensão no STF em razão das investigações envolvendo o Banco Master e das mensagens extraídas do celular do empresário Daniel Vorcaro.
Gilmar questionou atuação de Kassio e Fux
Segundo os relatos publicados pela Folha e pelo Metrópoles, Gilmar considerou que os votos de Kassio e Fux no julgamento sobre Andrei Rodrigues faziam parte de uma movimentação articulada com André Mendonça.
O diretor-geral da PF havia sido afastado por decisão individual de Mendonça. Na sessão virtual da Segunda Turma, Kassio e Fux acompanharam o entendimento do colega, formando maioria para manter a medida.
Gilmar, entretanto, pediu vista e interrompeu a conclusão do julgamento.
O decano passou então a questionar a participação de Kassio em processos relacionados ao Banco Master, especialmente diante de informações envolvendo familiares do ministro.
A cobrança ganhou um tom ainda mais direto quando Gilmar pediu que Kassio abrisse suas contas antes de participar dos julgamentos.
“Abra as suas contas antes de julgar qualquer coisa desse caso na turma”, escreveu.
Kassio respondeu que não via problema em apresentar seus dados financeiros.
“Abro com o maior prazer. Há 15 anos que presto contas de tudo. Como juiz”, afirmou.
Conversa avançou para a família do ministro
A discussão chegou aos familiares de Kassio Nunes Marques.
Gilmar encerrou uma das mensagens com a expressão:
“Verdade! De sua família…”
A mensagem não chegou a ser lida por Kassio antes do bloqueio, segundo a apuração do Metrópoles.
A referência ocorreu em meio à divulgação de mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal. Os diálogos mencionados nas reportagens fazem referência ao filho de Kassio, Kevin Nunes Marques, e a supostos pagamentos realizados por uma empresa ligada ao Banco Master.
O ministro negou irregularidades e afirmou no plenário do STF que seu filho nunca trabalhou para o Banco Master.
Kassio também declarou que uma eventual quebra de sigilo bancário poderia demonstrar a inexistência de irregularidades.
A existência das mensagens, contudo, não significa, por si só, que Kassio ou seu filho tenham cometido crime. As informações permanecem inseridas no contexto das investigações e das discussões sobre possíveis conflitos de interesse.
Bloqueio aconteceu após a discussão
Depois da sequência de mensagens, Kassio bloqueou Gilmar Mendes no WhatsApp.
De acordo com pessoas próximas ao ministro ouvidas pelo Metrópoles, o bloqueio permanecia ativo quando a informação foi publicada. A última mensagem enviada por Gilmar sequer teria sido lida pelo presidente do TSE.
O episódio revela que a tensão entre os ministros não se restringiu às sessões públicas do Supremo. A divergência sobre a condução dos processos passou também para conversas privadas entre integrantes da Corte.
O conteúdo das mensagens ganhou repercussão justamente quando o STF se preparava para uma sessão ainda mais sensível, relacionada à possibilidade de investigação contra Alexandre de Moraes.
Kassio se declarou impedido no caso Moraes
Dias depois da troca de mensagens, o próprio Kassio Nunes Marques se declarou impedido de participar do julgamento que analisava a possibilidade de investigação sobre Moraes no contexto do caso Banco Master.
A decisão retirou o ministro da votação.
Dias Toffoli também declarou suspeição e não participou do julgamento.
A sessão terminou sem uma decisão definitiva depois que Flávio Dino pediu vista. Antes da interrupção, o plenário havia registrado 4 votos a 3 para manter separados os processos relacionados a Moraes e André Mendonça. Dino havia votado pela reunião dos casos, mas seu voto não foi contabilizado no placar após o pedido de vista.
Crise ultrapassa o plenário do Supremo
A troca entre Gilmar e Kassio se soma a uma sequência de episódios que expôs divergências entre ministros do STF.
Na sessão de 15 de setembro, Gilmar Mendes e André Mendonça protagonizaram outro confronto. O decano chamou a atuação do colega de “leviana” e fez críticas à condução da investigação envolvendo Moraes.
Mendonça reagiu e pediu respeito ao colega.
A sessão também foi marcada por discussões sobre a relatoria dos processos, a possibilidade de reunir diferentes investigações e a atuação de integrantes da Corte.
Cármen Lúcia chegou a demonstrar incômodo com o ambiente criado durante o julgamento.
O Supremo, portanto, passou a enfrentar simultaneamente uma disputa sobre procedimentos jurídicos e uma crise pública entre seus próprios integrantes.
O caso Andrei Rodrigues
O julgamento que deu origem à troca de mensagens envolvia o afastamento de Andrei Rodrigues do comando da Polícia Federal.
André Mendonça havia determinado o afastamento preventivo do diretor-geral e também do diretor de Inteligência da PF, Leandro Almada da Costa.
Na Segunda Turma, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux acompanharam Mendonça, formando maioria para manter a decisão. Gilmar Mendes pediu vista e suspendeu a conclusão do julgamento.
A decisão provocou críticas públicas de Gilmar, que questionou a possibilidade de afastamento do chefe da Polícia Federal por decisão individual de um ministro.
O episódio acabou se transformando em um dos pontos de tensão entre Gilmar, Mendonça, Kassio e Fux.
Banco Master virou eixo da crise
Por trás das divergências está o conjunto de investigações envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Mensagens extraídas do celular do empresário passaram a ser utilizadas para investigar relações com pessoas próximas a integrantes do STF. Entre os nomes mencionados aparecem familiares de Kassio Nunes Marques e Luiz Fux, além de outros personagens ligados à Corte.
No caso de Kassio, o ministro afirma que seu filho não trabalhou para o Banco Master e nega qualquer irregularidade.
No caso de Fux, o ministro também negou irregularidades relacionadas ao filho.
As informações sobre pagamentos, contatos e relações profissionais ainda estão sob análise das autoridades e não equivalem, por si só, a uma conclusão de responsabilidade dos ministros.
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Entenda O Contexto
A troca de mensagens entre Gilmar Mendes e Kassio Nunes Marques aconteceu em um momento em que o Supremo já enfrentava uma série de conflitos internos relacionados ao caso Banco Master. O episódio envolvendo Andrei Rodrigues funcionou como um novo ponto de atrito porque colocou ministros em posições diferentes sobre os limites de decisões individuais e sobre a participação de integrantes da Corte em processos nos quais poderiam existir questionamentos relacionados a familiares.
A conversa de 8 de setembro ganhou relevância porque revelou, fora do plenário, o grau de tensão entre os ministros. Gilmar questionou a participação de Kassio e Fux nos julgamentos, pediu abertura de contas e afirmou que Kassio deveria deixar a presidência do TSE. Kassio, por sua vez, reagiu cobrando respeito e acabou bloqueando o colega.
Dias depois, a crise chegou ao plenário do STF durante o julgamento sobre Alexandre de Moraes. Kassio se declarou impedido e não participou da votação. Toffoli também declarou suspeição. O julgamento foi interrompido por pedido de vista de Flávio Dino e terminou sem uma definição sobre a abertura de investigação contra Moraes.
O episódio também se conecta às informações obtidas nas investigações envolvendo Daniel Vorcaro. Mensagens atribuídas ao empresário fazem referências a familiares de ministros do Supremo. Os magistrados citados negam irregularidades, e as menções a familiares não constituem, isoladamente, prova de crime ou favorecimento.
A sequência de acontecimentos coloca o STF diante de uma crise que combina questões processuais, relações entre ministros, investigações sobre o Banco Master e cobranças públicas sobre possíveis conflitos de interesse. A divulgação das mensagens privadas acrescenta uma dimensão inédita ao conflito e mostra que parte das divergências que aparecem nas sessões também vinha sendo discutida diretamente entre os integrantes da Corte.
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