Crise argentina coloca “milagre econômico” de Milei sob pressão; inflação cai, mas emprego e renda preocupam

Governo conseguiu reduzir drasticamente a inflação e recuperar as contas públicas, mas fechamento de empresas, aumento do desemprego, endividamento das famílias e perda de poder de compra expõem o custo social do ajuste
Redação NC News
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A Argentina vive uma fase contraditória sob o governo de Javier Milei. De um lado, o país conseguiu resultados que durante décadas pareciam difíceis de alcançar: a inflação mensal caiu para níveis próximos de 2%, as contas públicas passaram a registrar superávit e a economia voltou a crescer depois da recessão provocada pelo primeiro ano de ajuste.

Do outro, os efeitos dessa transformação começaram a aparecer com força sobre empresas, trabalhadores e famílias. O desemprego chegou a 7,9% no segundo trimestre de 2026, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC), enquanto estimativas privadas apontam uma nova deterioração da pobreza. Em setembro, diferentes levantamentos passaram a indicar que a melhora social observada anteriormente perdeu força.

A situação colocou em discussão um dos principais argumentos usados para defender o programa econômico de Milei: a ideia de que o ajuste necessário para estabilizar a macroeconomia seria seguido por uma recuperação sustentável da renda e da atividade.

O problema é que essa segunda etapa ainda não se consolidou para todos os argentinos.

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O que Milei conseguiu mudar

Milei assumiu a Presidência no fim de 2023 com uma economia marcada por inflação extremamente elevada, déficit fiscal e forte desequilíbrio das contas públicas.

O programa adotado pelo governo teve como pilares o corte de despesas, a redução de subsídios, a diminuição da emissão monetária, o controle do déficit e uma política de abertura comercial. Os primeiros resultados foram expressivos.

A inflação mensal, que havia chegado a 25,5% no primeiro mês do governo, caiu para 1,7% em agosto de 2026, segundo o INDEC. No acumulado de 2026 até agosto, entretanto, os preços ainda subiram 20,3% segundo dados oficiais.

As contas públicas também mudaram de trajetória. No primeiro ano da administração Milei, a Argentina registrou superávit fiscal primário equivalente a 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB), depois de ter encerrado o último ano do governo Alberto Fernández com déficit de 2,9% do PIB.

O ajuste atingiu praticamente todas as áreas do orçamento. Obras públicas, subsídios, gastos sociais e transferências para as províncias foram reduzidos.

A economia, que havia encolhido 1,3% em 2024, voltou a crescer em 2025, com alta de 4,4%. Para 2026, o Fundo Monetário Internacional (FMI) estima crescimento de 3,5%.

Os dados mais recentes, porém, mostram uma economia perdendo velocidade. O PIB argentino cresceu 2% no segundo trimestre de 2026 na comparação anual, mas caiu 0,6% na comparação com o primeiro trimestre, segundo o INDEC.

Milei buscou postura liberal radical para reorganizar as contas | Foto: Reprodução

A indústria começa a sentir o peso da abertura

Um dos pontos mais sensíveis do modelo está no setor produtivo.

Dados compilados pelo centro de pesquisas Fundar apontam que 30.633 empresas deixaram de existir na Argentina desde a chegada de Milei ao poder, considerando os dados disponíveis até maio de 2026. O número representa uma queda de aproximadamente 6% no total de empresas do país.

A maior parte dos fechamentos ocorreu em setores ligados ao mercado interno, especialmente comércio, transporte e armazenamento, serviços imobiliários e indústria manufatureira.

Entre as empresas que encerraram operações estão a fabricante de pneus Fate, o grupo brasileiro Dass, que produzia calçados, e a Whirlpool, que desativou uma fábrica de máquinas de lavar. A explicação para o fenômeno é motivo de disputa.

Empresários e economistas apontam uma combinação de queda do consumo, perda de poder de compra, custos operacionais elevados e maior concorrência estrangeira após a abertura comercial.

O governo Milei, por outro lado, sustenta que a economia argentina precisava passar por uma reorganização depois de anos de distorções, subsídios e desequilíbrios macroeconômicos.

O próprio Fundar, responsável pelos dados sobre empresas, mantém um monitor específico para acompanhar a evolução do setor. No dado mais recente disponível, referente a junho, o levantamento registrou redução de 709 empresas em apenas um mês.

O trabalhador está sentindo a mudança

O mercado de trabalho é outro ponto de tensão.

A taxa de desemprego chegou a 7,9% no segundo trimestre de 2026, de acordo com o INDEC. O órgão também registrou taxa de emprego de 45% e taxa de atividade de 48,9% entre os 31 principais aglomerados urbanos pesquisados.

Um levantamento da consultoria Invecq aponta que o setor privado formal perdeu aproximadamente 46 mil empregos no primeiro semestre de 2026. Desde o início do governo Milei, a perda acumulada chegaria a 246,3 mil postos privados registrados, segundo a mesma análise.

Ao mesmo tempo, o número de trabalhadores informais aumentou, enquanto o emprego público diminuiu.

O resultado é uma mudança na composição do mercado de trabalho: parte dos trabalhadores que deixam empregos formais migra para atividades sem registro, reduzindo a proteção trabalhista e a estabilidade da renda.

A atividade econômica também apresenta sinais de perda de fôlego. Embora tenha crescido na comparação anual, a economia recuou na comparação trimestral mais recente, enquanto previsões para o crescimento de 2026 foram revisadas para baixo por analistas.

Povo argentino foi às ruas contra as reformas trabalhistas de Milei | Foto: Reprodução

O problema chegou às famílias

A desaceleração da inflação é um dos principais argumentos favoráveis ao programa econômico de Milei. Mas inflação menor não significa necessariamente recuperação imediata do poder de compra.

A mudança no comportamento dos preços ocorreu ao mesmo tempo em que salários, aposentadorias e benefícios foram submetidos ao processo de ajuste.

Para parte da população, o crédito passou a ocupar um espaço maior no orçamento doméstico.

O Banco Central da Argentina registrou 20,3 milhões de pessoas com algum tipo de financiamento em dezembro de 2025, praticamente o maior nível da série recente. O saldo médio por devedor também alcançou o maior valor desde janeiro de 2020. O fenômeno tem duas faces.

A estabilização econômica permitiu que os bancos ampliassem a oferta de crédito depois de anos de mercado restrito. Ao mesmo tempo, juros reais elevados e a necessidade de complementar a renda fizeram com que famílias recorressem aos empréstimos para manter despesas básicas.

A inadimplência também passou a chamar atenção. Segundo dados citados na reportagem sobre a crise argentina, quase 6 milhões de argentinos estavam inadimplentes, o equivalente a 13,6% da população.

É nesse ponto que aparece uma das principais contradições do atual momento econômico: a estabilização dos preços melhorou um dos principais problemas históricos da Argentina, mas uma parcela da população ainda enfrenta dificuldades para transformar essa estabilidade em melhora efetiva das condições de vida.

A pobreza pode voltar a subir

Os dados oficiais de pobreza referentes ao primeiro semestre de 2026 ainda não haviam sido divulgados até esta sexta-feira (18). O INDEC prevê a divulgação para 24 de setembro.

As estimativas privadas, porém, apontam para uma interrupção da trajetória de queda registrada anteriormente.

A Universidade Torcuato Di Tella estimou pobreza de 31,3% no período de março a agosto de 2026. Já projeções do Observatório da Dívida Social Argentina, ligado à Universidade Católica Argentina (UCA), colocam o indicador entre 31% e 32% no primeiro semestre.

Outra estimativa, elaborada pela ExQuanti com base em dados do INDEC, aponta que o número de pessoas pobres teria chegado a 15,1 milhões no primeiro semestre, 1,7 milhão acima do segundo semestre de 2025.

Os números ainda precisam ser confrontados com o resultado oficial do INDEC.

A comparação com 2024, porém, mostra que houve uma melhora importante no início do governo. No primeiro semestre de 2025, a pobreza havia caído para 31,6%, depois de atingir níveis muito mais elevados durante a fase inicial da crise.

A possível reversão dessa tendência é justamente um dos elementos que colocam o modelo econômico de Milei diante de uma nova etapa.

Pobreza na Argentina atingiu pico de 58% da população em 2024, em 2026 oscila entre 30% a 32% | Foto: Reprodução

O desafio agora é transformar estabilidade em crescimento

O governo argentino conseguiu atingir alguns dos objetivos centrais apresentados por Milei durante a campanha: reduzir a inflação, equilibrar as contas públicas e diminuir a necessidade de financiamento monetário do déficit.

O problema é que esses resultados macroeconômicos convivem com uma economia que ainda enfrenta dificuldades para gerar empregos formais, ampliar o consumo e preservar empresas voltadas ao mercado interno.

A indústria, o comércio e a construção estão entre os setores mais pressionados. Em contrapartida, petróleo, gás e mineração ganharam espaço com o novo ambiente econômico, especialmente diante dos investimentos e das exportações associados a Vaca Muerta e aos recursos minerais argentinos.

O próprio governo aposta que esses setores exportadores serão capazes de sustentar uma nova fase de crescimento.

No orçamento apresentado ao Congresso para 2027, a administração Milei projeta crescimento de 4%, inflação anual de 18% e superávit comercial superior a US$ 15 bilhões. A proposta também prevê aumento dos gastos militares.

O documento será importante para medir como o governo pretende entrar no último ano completo antes da eleição presidencial de 2027. A questão central, entretanto, não está apenas nos números do orçamento. Está em saber se a estabilidade conquistada na macroeconomia conseguirá chegar ao cotidiano das famílias.

Milei caminha na corda bamba da popularidade desde primeiro dia de mandato | Foto: Reprodução
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Entenda O Contexto

Javier Milei chegou à Presidência da Argentina no fim de 2023 prometendo uma transformação profunda na economia. O programa incluiu forte redução dos gastos públicos, corte de subsídios, diminuição da emissão monetária, busca pelo equilíbrio fiscal e abertura comercial. A inflação, que chegou a 25,5% ao mês no início de seu governo, caiu para 1,7% em agosto de 2026. As contas públicas também passaram a registrar superávit primário, enquanto o PIB voltou a crescer depois da retração de 2024.

O outro lado do processo aparece no mercado de trabalho e nas empresas. O desemprego chegou a 7,9% no segundo trimestre de 2026. Dados do Fundar indicam que mais de 30 mil empresas deixaram de operar desde a chegada de Milei ao poder, enquanto análises sobre o mercado de trabalho apontam perda significativa de empregos privados formais. A abertura econômica aumentou a concorrência externa e atingiu principalmente setores dependentes do consumo doméstico.

As famílias também passaram a recorrer mais ao crédito. O Banco Central argentino registrou 20,3 milhões de pessoas com algum tipo de financiamento no fim de 2025, enquanto a inadimplência ganhou dimensão relevante. Ao mesmo tempo, estimativas privadas apontam que a pobreza voltou a subir em 2026 depois da forte redução observada no primeiro ano de recuperação. O dado oficial do primeiro semestre de 2026 será divulgado pelo INDEC em 24 de setembro.

O cenário, portanto, não permite resumir a experiência econômica argentina apenas em sucesso ou fracasso. Há resultados concretos na estabilização da inflação e das contas públicas, mas também existem custos e dificuldades importantes no mercado de trabalho, na atividade industrial, no consumo e na renda. O principal desafio da administração Milei é transformar a melhora dos indicadores macroeconômicos em uma recuperação mais ampla e sustentável das condições econômicas da população.

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