Mensagens apreendidas pela Polícia Federal nas investigações relacionadas ao Banco Master colocam lado a lado duas negociações milionárias que avançavam em fevereiro de 2025: o financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro, e uma proposta de patrocínio de R$ 15 milhões do banco ao Santos Futebol Clube.
O elo entre os assuntos aparece em uma conversa entre Daniel Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda. Em 11 de fevereiro de 2025, Miranda pediu ajuda ao então controlador do Master para resolver “a questão do filme e do Santos” e escreveu: “Flavio B e Neypai estão me cobrando”. As referências foram interpretadas nas reportagens que tiveram acesso ao material como Flávio Bolsonaro e Neymar da Silva Santos, pai de Neymar Jr.
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Mensagem cita “Flavio B” e “Neypai” na mesma cobrança
O diálogo considerado central ocorreu na manhã de 11 de fevereiro de 2025. Thiago Miranda escreveu a Vorcaro que precisava de sua ajuda para resolver duas pendências que, segundo ele, não haviam avançado: “a questão do filme e do Santos”.
Logo depois, acrescentou que “Flavio B e Neypai” estavam cobrando uma solução. Vorcaro respondeu chamando Miranda para conversar. A mensagem documenta aquilo que Miranda dizia ao banqueiro, mas, isoladamente, não comprova que Flávio Bolsonaro ou Neymar Pai tenham feito uma cobrança diretamente a Vorcaro naquele instante nem esclarece quais valores cada um buscava destravar.
Negociações começaram dias antes
Os registros mostram que as duas frentes já estavam sendo tratadas no início daquele mês. Em 1º de fevereiro, Miranda procurou Vorcaro e mencionou uma “demanda do Neymar”.
Na mesma conversa, afirmou que havia se encontrado com Flávio Bolsonaro no dia anterior. Em 3 de fevereiro, o publicitário disse estar organizando uma reunião na casa de Vorcaro com Neymar Pai e outras pessoas relacionadas ao jogador.
Segundo as mensagens, Neymar Jr. poderia participar dependendo do horário em que terminasse seu compromisso no centro de treinamento do Santos.
Carta previa R$ 15 milhões para o Santos
Em 5 de fevereiro, cartas de intenção ligadas às negociações com o Santos e Neymar chegaram a Vorcaro. Uma das propostas previa pagamento de R$ 15 milhões para que a marca do Banco Master aparecesse em três espaços do uniforme santista.
As conversas também mencionavam uma possível exploração comercial associada à imagem de Neymar. Uma carta de intenção, porém, não equivale a contrato assinado nem comprova que o dinheiro tenha sido pago.
Santos não fechou patrocínio com Banco Master
A negociação discutida nas mensagens não resultou em patrocínio do Banco Master ao Santos. Segundo apuração posterior, a agência de Thiago Miranda estava entre as empresas que buscavam viabilizar potenciais patrocinadores para o clube naquele período. O Santos, porém, não chegou a assinar contrato com o Master.
Também não há, no material divulgado, comprovação de pagamento dos R$ 15 milhões mencionados na proposta.
Neymar Pai teria pedido reunião presencial, segundo Miranda
No dia 6 de fevereiro, Miranda voltou ao assunto em conversa com Vorcaro. Segundo o que escreveu ao banqueiro, Neymar Pai pretendia levar Neymar Jr. para uma conversa presencial.
O publicitário também indicou que determinados valores relacionados ao jogador seriam discutidos pessoalmente, e não por mensagens. Mais uma vez, o registro comprova o relato feito por Miranda a Vorcaro, mas não confirma que o encontro tenha efetivamente ocorrido.
Família Neymar nega relação descrita nas mensagens
Depois da divulgação do conteúdo, Neymar Pai negou as informações e afirmou que não mantinha a relação descrita na reportagem. A NR Sports, empresa que administra os negócios e a imagem de Neymar Jr., afirmou que não houve o encontro mencionado nem negociação oficial conduzida por seus representantes para o patrocínio em questão.
Neymar Jr. também republicou a manifestação e classificou a reportagem como falsa. A negativa da família contrasta com os relatos registrados nas mensagens de Thiago Miranda, e essa divergência permanece sem esclarecimento definitivo no material público disponível.
Dark Horse avançava paralelamente
Enquanto Miranda articulava a possível parceria entre Master, Santos e Neymar, outra negociação com Vorcaro já estava em andamento. Dark Horse, produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro, vinha recebendo recursos ligados ao então banqueiro.
Mensagens e documentos tornados públicos ao longo de 2026 mostram Flávio Bolsonaro atuando como interlocutor nas tratativas financeiras relacionadas ao projeto. A Polícia Federal passou a analisar a estrutura financeira do longa, inclusive a origem e o destino dos recursos utilizados.
Repasses identificados para o filme chegam a cerca de R$ 61 milhões
Reportagens baseadas em registros financeiros e mensagens apontaram pelo menos US$ 10,6 milhões em pagamentos ligados ao financiamento do filme entre fevereiro e maio de 2025. O montante corresponde a aproximadamente R$ 61 milhões pela conversão utilizada nas apurações.
Esses valores são diferentes dos R$ 15 milhões previstos na proposta de patrocínio ao Santos. Por isso, os dois negócios não devem ser somados nem tratados como se fizessem parte de um único contrato.
Flávio é investigado no caso Dark Horse
Flávio Bolsonaro passou a integrar formalmente a investigação sobre a estrutura financeira do filme. Documentos policiais divulgados em setembro indicam que o senador atuava como interlocutor de Vorcaro nas negociações relacionadas à produção.
A apuração busca esclarecer o fluxo do dinheiro e a forma como o financiamento foi estruturado. A existência da investigação não representa conclusão de culpa.
O senador nega irregularidades e sustenta que os recursos foram destinados à produção cinematográfica.
Flávio já defendeu financiamento privado do filme
Ao ser questionado anteriormente sobre a relação com Vorcaro, Flávio Bolsonaro afirmou não ver irregularidade no financiamento privado de Dark Horse. O senador disse que não recebeu pessoalmente o dinheiro destinado à obra e que os recursos foram utilizados na produção.
Ele também já declarou que sua relação com Vorcaro estava ligada às tratativas do filme. Até a checagem desta reportagem, não localizamos uma resposta específica de Flávio sobre a nova mensagem de 11 de fevereiro envolvendo simultaneamente “o filme e o Santos”.
O que as mensagens comprovam
Os registros permitem estabelecer alguns fatos objetivos. Thiago Miranda mantinha contato direto com Vorcaro e discutia simultaneamente o financiamento de Dark Horse e uma possível parceria comercial envolvendo o Santos.
Ele afirmou ao banqueiro que havia se encontrado com Flávio Bolsonaro, disse estar articulando aproximação com Neymar Pai e enviou documentos relacionados à proposta de patrocínio. Também escreveu, em 11 de fevereiro, que “Flavio B e Neypai” estavam cobrando uma solução para assuntos que descreveu como “o filme e o Santos”.
O que ainda não está comprovado
O material divulgado não permite concluir que Neymar Pai ou Neymar Jr. tenham se reunido pessoalmente com Daniel Vorcaro. Também não comprova que a proposta de R$ 15 milhões tenha sido aceita ou que qualquer quantia ligada ao patrocínio tenha chegado ao Santos ou à família do jogador.
As mensagens igualmente não detalham qual cobrança correspondia a Flávio e qual correspondia a Neymar Pai. Não há base no trecho revelado para atribuir automaticamente a qualquer um dos citados participação em crime relacionado à negociação do Santos.
Thiago Miranda é personagem recorrente nas apurações do Master
Thiago Miranda aparece em investigações da Polícia Federal relacionadas à atuação de comunicação e influência em benefício do Banco Master.
Ele é apontado nas reportagens como publicitário e intermediário que mantinha contato frequente com Vorcaro. No episódio envolvendo Santos e Neymar, os registros o mostram transmitindo informações, encaminhando documentos e tentando organizar encontros.
É por meio das mensagens de Miranda que surgem as referências a “Neypai” e à suposta cobrança para que as negociações avançassem.
Revelação ocorre durante campanha presidencial
A divulgação acontece enquanto Flávio Bolsonaro disputa a Presidência da República nas eleições de 2026. O financiamento de Dark Horse já vinha sendo discutido na campanha por causa das investigações sobre o Banco Master e da relação do senador com Vorcaro.
A nova documentação acrescenta informações sobre o contexto em que as tratativas do filme aconteciam em fevereiro de 2025. O impacto político do caso é objeto de disputa entre campanhas e analistas, mas as investigações policiais devem ser distinguidas do debate eleitoral: a apuração busca esclarecer fatos e fluxos financeiros, enquanto eventuais responsabilidades dependem das conclusões das autoridades e do Judiciário.
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Entenda O Contexto
Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, tornou-se personagem central de diferentes investigações da Polícia Federal sobre negócios, operações financeiras e relações mantidas pela instituição antes de sua crise. Entre os materiais obtidos pelas autoridades estão mensagens trocadas com empresários, advogados, políticos e intermediários.
No caso de Dark Horse, documentos já divulgados indicam que Flávio Bolsonaro mantinha interlocução com Vorcaro sobre recursos destinados ao filme de Jair Bolsonaro. Os repasses identificados chegaram a cerca de R$ 61 milhões. Agora, mensagens de fevereiro de 2025 mostram que, simultaneamente, Thiago Miranda tentava aproximar Vorcaro de uma possível operação comercial envolvendo Santos e Neymar.
Uma carta de intenção previa R$ 15 milhões em patrocínio ao clube. Em 11 de fevereiro, Miranda escreveu ao banqueiro que precisava resolver “a questão do filme e do Santos” e afirmou que “Flavio B e Neypai” estavam cobrando.
O Santos não fechou patrocínio com o Master, e a família de Neymar nega ter participado da negociação descrita pelo intermediário.
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