As vitaminas e os suplementos vendidos com a promessa de acelerar o crescimento do cabelo não apresentam benefícios comprovados para pessoas que já possuem níveis adequados de nutrientes. Apesar da popularidade de cápsulas, gomas mastigáveis e fórmulas capilares nas redes sociais, especialistas alertam que esses produtos não fazem os fios crescerem mais rapidamente e, quando consumidos em excesso, podem até contribuir para a queda de cabelo.
A explicação está no funcionamento natural do organismo. O crescimento capilar depende de fatores genéticos, hormonais, nutricionais e do ciclo de vida dos folículos. Segundo especialistas ouvidas pelo Metrópoles em reportagem publicada nesta segunda-feira (2), vitaminas e minerais são importantes para a formação e a manutenção dos fios, mas consumir doses extras desses nutrientes não significa acelerar seu crescimento. A suplementação pode ser necessária quando existe uma deficiência identificada, desde que acompanhada por um profissional de saúde.
Por que vitaminas não fazem o cabelo crescer mais rápido?
O cabelo possui um ciclo natural de crescimento, que envolve fases de desenvolvimento, transição, repouso e queda. A duração dessas etapas varia conforme características individuais, principalmente fatores genéticos e hormonais.
Os nutrientes participam de processos importantes para a formação dos fios, mas não conseguem modificar livremente a velocidade determinada pelo funcionamento dos folículos capilares.
A farmacodermatologista Paula Sian explica que as vitaminas podem contribuir para a qualidade e a estrutura do cabelo, especialmente quando corrigem uma deficiência nutricional.
Isso, entretanto, não significa que os fios passarão a crescer mais rapidamente apenas porque a pessoa começou a consumir suplementos.
A Academia Americana de Dermatologia também orienta que vitaminas e minerais sejam utilizados para tratar problemas capilares quando houver uma necessidade identificada. Para pessoas com níveis nutricionais adequados, doses adicionais não apresentam benefícios consistentes e podem provocar efeitos indesejados.
Biotina realmente ajuda no crescimento dos fios?
A biotina, também conhecida como vitamina B7, é um dos ingredientes mais comuns em suplementos comercializados para cabelos, pele e unhas.
Ela participa de processos metabólicos importantes e contribui para o funcionamento normal do organismo.
Entretanto, a deficiência de biotina é considerada rara entre pessoas saudáveis que possuem uma alimentação variada.
Segundo informações dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), existem poucas evidências científicas que sustentem a promessa de crescimento capilar com o uso de suplementos de biotina em pessoas sem deficiência.
Uma revisão científica publicada em 2024 também identificou limitações importantes nos estudos sobre o assunto. Entre os trabalhos analisados, o ensaio clínico de maior qualidade não encontrou diferença significativa no crescimento dos cabelos entre os participantes que receberam biotina e aqueles que utilizaram placebo.
Isso não significa que a vitamina seja desnecessária para o organismo, mas que suplementá-la sem indicação não oferece os resultados frequentemente prometidos em propagandas.
Excesso de vitaminas pode provocar queda de cabelo
Além de não garantir crescimento mais rápido, o consumo indiscriminado de suplementos pode causar efeitos contrários aos desejados.
Um dos exemplos é a vitamina A. Embora seja essencial para diferentes funções do organismo, seu consumo em quantidades excessivas pode provocar hipervitaminose, condição associada a alterações na pele e à queda capilar.
O excesso de selênio também pode contribuir para a perda dos fios.
Já o consumo exagerado de zinco pode provocar desequilíbrios nutricionais, incluindo deficiência de cobre, além de outros problemas de saúde.
Esses nutrientes estão presentes em alimentos e em diferentes suplementos vendidos sem necessidade de prescrição.
Por isso, pessoas que combinam multivitamínicos com fórmulas específicas para cabelo podem consumir doses repetidas de determinadas substâncias sem perceber.
A recomendação dos especialistas é evitar a automedicação e procurar orientação antes de iniciar o uso contínuo desses produtos.
Biotina também pode interferir em exames de sangue
Outro risco associado à suplementação em doses elevadas envolve a interferência em exames laboratoriais.
A biotina pode alterar os resultados de determinados testes utilizados para avaliar a função da tireoide e investigar problemas cardíacos.
Dependendo da metodologia empregada pelo laboratório, a substância pode provocar resultados falsamente elevados ou reduzidos.
Essa interferência pode dificultar a interpretação dos exames e comprometer a avaliação médica.
Por isso, pacientes que utilizam suplementos com biotina devem informar o médico e o laboratório antes da coleta.
A necessidade de suspender o produto temporariamente deve ser avaliada pelo profissional responsável, de acordo com a dose utilizada e o tipo de exame solicitado.
Quando os suplementos capilares realmente podem ajudar?
A suplementação pode trazer benefícios quando a queda ou o enfraquecimento dos cabelos está relacionado à falta de nutrientes.
A deficiência de ferro, por exemplo, pode contribuir para a queda capilar, especialmente quando está associada à anemia.
Dietas muito restritivas, perda rápida de peso e ingestão insuficiente de proteínas também podem prejudicar o crescimento e a manutenção dos fios.
A nutricionista Camilla Simões explica que, diante de uma deficiência nutricional importante, o organismo prioriza funções essenciais à sobrevivência.
Nesse processo, a formação e a manutenção do cabelo podem ser prejudicadas.
Nessas situações, corrigir a deficiência pode ajudar a restabelecer o funcionamento adequado dos folículos e favorecer a recuperação capilar.
Entretanto, a indicação depende da identificação do problema. Nem toda queda de cabelo ocorre por falta de vitaminas, e a suplementação não substitui o tratamento de outras causas.
Queda e quebra de cabelo são problemas diferentes
Uma confusão frequente envolve a diferença entre queda capilar e quebra dos fios.
A queda acontece quando o cabelo se desprende do folículo, estrutura localizada no couro cabeludo responsável pela formação dos fios.
Já a quebra ocorre quando a fibra capilar se rompe ao longo do comprimento.
Procedimentos químicos, como alisamentos e descolorações, além do uso excessivo de chapinhas e secadores em altas temperaturas, podem danificar a estrutura do cabelo.
Como a parte visível do fio é formada por células sem atividade metabólica, os nutrientes ingeridos não conseguem reparar diretamente uma fibra que já foi danificada.
Nesses casos, mudanças nos cuidados capilares, redução de agressões químicas e térmicas e uso de produtos adequados podem ajudar a diminuir a quebra.
Tomar vitaminas, porém, não resolve automaticamente um problema provocado por danos externos.
Minoxidil também não funciona como uma vitamina
O minoxidil é um medicamento utilizado no tratamento de determinados tipos de queda de cabelo, incluindo a alopecia androgenética.
Sua atuação é diferente da dos suplementos nutricionais.
O medicamento pode prolongar a fase de crescimento dos folículos e favorecer o aumento da quantidade ou da espessura dos fios em pacientes com indicação adequada.
Isso não significa que ele aumente necessariamente a velocidade de alongamento de cada fio.
A resposta ao tratamento varia conforme a causa da queda, as características individuais e a forma de utilização.
O minoxidil também pode provocar efeitos adversos, especialmente quando utilizado por via oral, e deve ser empregado com acompanhamento médico.
Outros tratamentos, como a finasterida, também podem ser indicados em situações específicas, dependendo do diagnóstico e das características do paciente.
Como descobrir a causa da queda de cabelo?
A queda capilar pode ter diferentes origens, incluindo alterações hormonais, fatores genéticos, problemas na tireoide, estresse físico, doenças do couro cabeludo e deficiências nutricionais.
Também pode ocorrer após infecções, cirurgias, períodos de grande perda de peso ou mudanças hormonais, como no pós-parto.
Para identificar a causa, o dermatologista avalia o histórico clínico, a distribuição da perda dos fios, as condições do couro cabeludo e a presença de outros sintomas.
Quando necessário, podem ser solicitados exames laboratoriais para investigar anemia, deficiência de ferro, alterações da tireoide ou outros problemas.
A avaliação é especialmente importante quando a queda acontece de maneira intensa, persiste por várias semanas ou provoca falhas visíveis no couro cabeludo.
Com o diagnóstico correto, o tratamento pode ser direcionado à origem do problema, evitando gastos com produtos que não atendem às necessidades do paciente.
O que realmente ajuda a manter os cabelos saudáveis?
Uma alimentação equilibrada, com ingestão adequada de proteínas, vitaminas e minerais, contribui para o funcionamento normal dos folículos capilares.
Também é importante evitar dietas extremamente restritivas e reduzir agressões frequentes aos fios, como procedimentos químicos excessivos e exposição constante a altas temperaturas.
Pessoas que apresentam queda persistente devem procurar avaliação dermatológica em vez de iniciar diferentes suplementos por conta própria.
A orientação dos especialistas é que vitaminas e minerais sejam utilizados quando houver uma necessidade real, identificada por avaliação clínica e, quando indicado, exames.
Embora suplementos possam corrigir deficiências e favorecer a recuperação de cabelos afetados por problemas nutricionais, não existe comprovação de que cápsulas ou gomas acelerem o crescimento natural dos fios saudáveis.