O presidente Lula decide ampliar, agora, o núcleo de sua campanha à reeleição, puxando para a estrutura partidária auxiliares centrais do Palácio do Planalto. A mexida atinge agenda, comunicação, logística e jurídico e mira tanto as disputas internas do PT quanto a guerra contra fake news e o uso de inteligência artificial nas eleições.
Cozinha do Planalto muda de endereço político
O movimento altera o equilíbrio de forças em Brasília. A chamada cozinha do Planalto, grupo mais próximo do presidente na rotina do governo, passa a ter papel direto na engrenagem eleitoral. A decisão busca profissionalizar a operação da campanha e blindar Lula em um ambiente de redes sociais mais agressivo e judicializado.
A saída dos principais auxiliares do Palácio para a campanha está prevista para publicação no Diário Oficial da União, marco formal da transição de funções. A mudança acontece depois de cerca de dois meses de disputas silenciosas por espaço no comando da reeleição, da comunicação ao programa de governo, passando pela área jurídica.
Na prática, o Planalto perde quadros que controlam o dia a dia presidencial e ganha um comitê eleitoral mais musculoso. O cálculo no entorno de Lula é que, num cenário de polarização e ataques digitais coordenados, vale sacrificar conforto administrativo em troca de uma campanha mais organizada e agressiva.
Agenda, comunicação e logística sob comando de aliados de confiança
O chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, deixa o posto para assumir a agenda do candidato na estrutura coordenada pelo presidente do PT, Edinho Silva. Ele divide a tarefa com Gilberto Carvalho, repetindo o arranjo que ajudou a sustentar a ofensiva eleitoral de 2022.
O secretário-executivo da Secretaria de Comunicação da Presidência, Tiago Cesar dos Santos, migra para a área de logística da comunicação da campanha. Trabalha para integrar mensagens, cronograma de viagens e presença digital do presidente-candidato, num esforço de evitar ruídos entre o que sai do Planalto e o que é dito nos palanques.
O diretor de gestão interna da Presidência, Paulo Cangussu André, também entra na operação de campanha, reforçando logística, deslocamentos e estrutura física dos eventos. A ordem é reproduzir na disputa eleitoral o grau de controle e previsibilidade construído no funcionamento do Palácio.
Ao mesmo tempo, o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, passa a atuar politicamente na campanha, embora sem função formal. Ele cuida da articulação com partidos aliados, bancadas no Congresso e governadores, numa tentativa de alinhar o discurso da reeleição com as necessidades da base parlamentar.
Lula ainda sugere que ex-presidentes do PT, como Gleisi Hoffmann e Rui Falcão, sejam consultados sobre a linha política da campanha. O gesto tenta acomodar correntes internas e evitar que o reforço vindo do Planalto seja visto como uma intervenção unilateral do presidente na máquina partidária.
Juridicamente, campanha mira tribunais e fake news
O reforço mais sensível ocorre no jurídico. Lula cobra de Edinho uma atuação descrita como mais aguerrida nos tribunais eleitorais. O presidente quer uma estrutura capaz de responder com rapidez a ataques, ações judiciais e conteúdos fabricados com apoio de inteligência artificial.
A equipe jurídica do PSB passa a ser integrada à coordenação da campanha, ampliando o leque de advogados e especialistas em direito eleitoral. O objetivo é formar uma frente unificada de partidos aliados para enfrentar, no Tribunal Superior Eleitoral e nos tribunais regionais, uma eleição que se projeta altamente litigiosa.
Entre os nomes cotados para reforçar o time está o de Edilene Lôbo, primeira mulher negra a ser ministra substituta do TSE entre 2023 e 2025. Ela é vista como peça-chave para sustentações orais e para o diálogo com uma Justiça Eleitoral que passou a atuar mais diretamente no combate à desinformação.
A campanha também avalia contratar criminalistas. Essa frente mira não apenas ações eleitorais clássicas, mas possíveis acusações penais derivadas de ataques digitais, vazamentos criminosos de dados e uso fraudulento de conteúdos gerados por inteligência artificial.
Hoje, quem conduz as principais ações do PT na Justiça Eleitoral é o escritório Ferraro, Rocha e Novaes. A banca coordena estratégias baseadas na análise de redes sociais, com monitoramento constante de narrativas hostis ao presidente e pedidos de remoção de conteúdos considerados falsos ou difamatórios.
O advogado Marco Aurélio Carvalho chega a ser indicado por Lula para coordenar o jurídico da campanha. A escolha leva em conta a defesa enfática que ele faz do presidente em público. Carvalho apresenta a Edinho uma proposta de trabalho sob seu comando. Duas semanas depois, porém, ouve do presidente do PT que não haverá um coordenador único e que o partido já monta um time mais amplo para a batalha nos tribunais.
A mudança expõe o cabo de guerra interno, mas, publicamente, a direção petista nega conflito. À Folha, o partido afirma que “não há nenhuma disputa no jurídico da campanha”. A frase, repetida por aliados de Edinho e de Lula, tenta conter o desgaste num momento em que a campanha ainda calibra seu desenho final.
Disputa interna, tecnologia e efeito no Planalto
A reorganização da campanha reflete o diagnóstico de que a disputa pela reeleição se trava tanto na rua quanto na tela. O PT aposta em uma estratégia avançada de combate à desinformação, ancorada em análise de redes sociais, mapeamento de fluxos de mensagens e identificação de disparos coordenados.
Esse uso de tecnologia se cruza com a preocupação com inteligência artificial. A cúpula petista teme a proliferação de áudios, vídeos e imagens manipuladas, com aparência de verossimilhança, capazes de interferir no voto. O reforço técnico e jurídico busca reagir antes que conteúdos desse tipo ganhem tração.
Dentro do partido, a ampliação do núcleo da campanha tem efeito ambivalente. De um lado, sinaliza tentativa de pacificação, ao distribuir tarefas entre diferentes grupos e abrir espaço para aliados de outras siglas. De outro, realimenta a sensação de disputa permanente por quem manda, de fato, na campanha.
No Palácio do Planalto, a saída de quadros-chave obriga uma rearrumação silenciosa. Secretarias redividem tarefas, a agenda presidencial passa a depender mais de novos auxiliares e a fronteira entre Estado e campanha fica sob escrutínio de adversários. O governo insiste que as funções são separadas, mas a sobreposição de rostos e estruturas alimenta críticas.
A médio prazo, o sucesso da estratégia será medido em duas frentes. Nas pesquisas e na rua, pela capacidade de Lula de manter ritmo de campanha sem perder o comando do governo. Nos tribunais e nas plataformas digitais, pela eficácia da rede jurídica e tecnológica em retirar do ar ou neutralizar conteúdos falsos antes que se tornem virais.
A engrenagem ainda está em montagem. À medida que o calendário eleitoral avança, a convivência entre os grupos internos do PT, a sintonia com aliados como o PSB e a resposta institucional ao avanço da inteligência artificial nas campanhas vão definir se o reforço vindo do Planalto dá a Lula uma máquina mais coesa ou apenas desloca para dentro da campanha as tensões já presentes no governo.