O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, demite nesta quinta-feira o delegado e deputado federal Carlos Alberto da Cunha da Polícia Civil paulista, após quase quatro anos de processo disciplinar. A decisão atinge um dos policiais mais famosos do país nas redes sociais e encerra sua carreira na corporação.
Da Cunha, conhecido como Delegado Da Cunha e hoje filiado ao União Brasil, é acusado de forjar e gravar uma operação de estouro de cativeiro para ganhar seguidores e prestígio digital. Ele segue no mandato parlamentar em Brasília, mas perde o vínculo com a polícia, onde estava afastado.
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Operação encenada e acusação de abuso de autoridade
O processo administrativo nasce de uma ação policial em 2020, na Zona Leste de São Paulo, que libertou uma vítima de sequestro e prendeu o responsável pelo cativeiro. Da Cunha chega atrasado à operação real, mas decide refazer a cena para as câmeras.
Segundo a Divisão de Crimes Funcionais da Corregedoria, o delegado manda a vítima libertada e o sequestrador retornarem ao cativeiro para atuar como figurantes. A reconstituição encenada é gravada com armas, viaturas e equipe da própria polícia e, depois, vira conteúdo em redes sociais e programas de TV.
“Da Cunha foi investigado pela Corregedoria da Polícia Civil, que o responsabilizou por abuso de autoridade e constrangimento ilegal durante uma operação em 2020”, registra a instituição. A avaliação interna é que o delegado usou a máquina pública para autopromoção e para ganhar dinheiro com plataformas digitais.
O Ministério Público denuncia o caso na esfera criminal. A Justiça transforma o delegado em réu por abuso de autoridade e constrangimento ilegal, em ação que ainda não tem julgamento concluído. Em paralelo, corre outro processo no qual ele responde por violência doméstica, acusado de agredir e ameaçar matar a ex-companheira em cidade do litoral paulista.
Quase quatro anos até a caneta do governador
O Processo Administrativo Disciplinar começa em 2020 e se arrasta até hoje. A Corregedoria conclui pela falta grave e leva o caso ao Conselho da Polícia Civil, formado por cerca de 20 delegados diretores. O colegiado recomenda a demissão de Da Cunha, “para o bem do serviço público”.
A Polícia Civil formaliza em 2022 o pedido de desligamento do delegado. Pela legislação estadual, porém, só o chefe do Executivo pode demitir delegados. “Pela lei, delegados de Polícia em SP só podem ser demitidos pelo governador”, diz a norma citada por integrantes do governo.
O processo atravessa o fim da gestão Rodrigo Garcia e chega integralmente à mesa de Tarcísio de Freitas no início do atual governo, em janeiro de 2023. Uma fonte envolvida na tramitação define o cenário: “A decisão estava parada na mesa de Tarcísio desde o início da gestão dele, em janeiro de 2023”.
Durante esse período, o caso permanece na Assessoria Jurídica do Governo, responsável por emitir parecer e preparar o ato final de demissão. Não havia prazo máximo para a sanção, mas o governo convivia com a perspectiva de prescrição administrativa se a decisão demorasse demais.
Delegado influencer perde distintivo, mas mantém mandato
Enquanto o processo avança lentamente no Planalto dos Bandeirantes, Da Cunha amplia sua presença digital e constrói carreira eleitoral. “Desde 2020, o delegado influencer posta vídeos de ações policiais para seus seguidores”, descreve seu próprio perfil público.
No YouTube, o canal de Da Cunha soma 3,7 milhões de inscritos. No Instagram, são mais de 2 milhões de seguidores, alimentados com vídeos de operações, bastidores de investigações e comentários sobre segurança pública. Essa vitrine virtual impulsiona sua eleição para a Câmara dos Deputados, onde ele chega com mais de 180 mil votos.
O delegado se afasta da Polícia Civil sem salário ao assumir o mandato em Brasília, primeiro por outro partido e depois já pelo União Brasil. Hoje, é candidato à reeleição e usa a bandeira da segurança pública como principal ativo político. A demissão, porém, atinge o coração dessa identidade: ele deixa de ser delegado de fato, ainda que mantenha o apelido nas redes.
Aliados de Da Cunha já haviam atuado para retardar a punição. Em 2022, um deputado estadual da área de segurança declara publicamente que pediu ao governo para “segurar” a demissão, na expectativa de que o colega se elegesse e “pagasse” pelos erros com trabalho parlamentar. A estratégia funciona por um tempo, mas não impede o desfecho de hoje.
Recado à tropa e disputa de narrativa política
No meio policial, a demissão tem peso simbólico. A Corregedoria, que muitas vezes é acusada de corporativismo, vê sua recomendação chancelada pelo Palácio dos Bandeirantes. Delegados e investigadores leem o gesto como recado direto ao uso de farda, viatura e arma para autopromoção.
A decisão também mira um fenômeno recente: o policial-influencer. O caso Da Cunha expõe o conflito entre espetacularização da atividade policial e limites legais da atuação do agente público. A mensagem agora é que encenação de flagrante, exposição de vítimas e uso de operações reais como palco não passam impunes.
No campo político, o episódio força uma reorganização de discursos. O governador Tarcísio, que constrói imagem de alinhamento com a tropa e com pautas da segurança, tenta equilibrar apoio à polícia e defesa da disciplina interna. Ao demitir um aliado com grande apelo nas redes, ele se apresenta como gestor disposto a bancar punições impopulares.
Para Da Cunha, o desgaste é imediato. Adversários devem explorar a demissão em debates e campanhas, contrapondo a imagem de herói das redes às acusações de abuso de autoridade e violência doméstica. Sua base de seguidores, porém, tende a reagir nas plataformas, tentando enquadrar o caso como perseguição política ou injustiça corporativa.
O União Brasil, partido do deputado, precisa medir o impacto na própria marca. Uma legenda que busca se consolidar no campo de centro-direita terá de decidir se abraça a narrativa de vítima ou se se distancia do agora ex-delegado, preservando espaço para outras figuras da segurança pública, como o Delegado Palumbo e colegas de perfil semelhante.
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O que vem a seguir
A demissão encerra o capítulo administrativo, mas não fecha o enredo jurídico nem político. As ações criminais contra Da Cunha continuam, com possibilidade de condenação por abuso de autoridade, constrangimento ilegal e violência doméstica. Cada nova decisão judicial pode reavivar o caso durante a campanha eleitoral.
O governo paulista reforça a posição de que não tolera manipulação de cenas policiais para redes sociais e abre brecha para discussão mais ampla sobre regras de exposição de operações na internet. A tendência é que corregedorias e ouvidorias cobrem mais rigor no uso de imagem de vítimas e suspeitos.
Instituições de outros estados, diante da repercussão, podem revisitar processos semelhantes e apertar o cerco sobre servidores midiáticos. A demissão de um dos delegados mais famosos do país passa a funcionar como referência para futuros casos em que a fronteira entre segurança pública e entretenimento digital se confunda.
Na política, a disputa agora se desloca para a interpretação do gesto de Tarcísio: sinal de independência diante da base da segurança ou movimento calculado para se apresentar como líder capaz de impor limites aos seus próprios aliados. A resposta virá nas urnas — e, até lá, na arena ruidosa das redes sociais.
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