A Procuradoria-Geral da República (PGR) fechou um acordo de colaboração premiada com o empresário Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, apontado como responsável por intermediar repasses financeiros feitos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro relacionados ao filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.
O acordo coloca novamente o financiamento do longa no centro das investigações do caso Master, especialmente por envolver transferências destinadas ao fundo Havengate, sediado no Texas, nos Estados Unidos, e administrado pelo advogado Paulo Calixto, ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
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Entenda o que aconteceu
Freixo Júnior é dono da Entre Investimentos e Participações, empresa que teria sido utilizada para realizar transferências entre Vorcaro e estruturas ligadas à produção de “Dark Horse”. Segundo a reportagem, o empresário detalhou aos investigadores as remessas feitas ao exterior e outras operações financeiras realizadas a pedido do ex-controlador do Banco Master.
A colaboração ainda precisa ser analisada pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). O acordo já foi encaminhado ao gabinete do ministro, que deverá decidir se homologa ou não a delação. Não há prazo definido para essa análise.
Um dos pontos que interessam aos investigadores é descobrir o destino final dos recursos enviados ao Havengate e verificar se o dinheiro realmente foi utilizado na produção do filme ou se parte dele teria sido desviada para outras finalidades.
Quem é Antonio Carlos Freixo Júnior
Antonio Carlos Freixo Júnior é empresário do mercado financeiro e controla a Entre Investimentos e Participações. O grupo também é controlador da revista IstoÉ e da empresa de pagamentos Entrepay, que sofreu liquidação extrajudicial determinada pelo Banco Central em março deste ano.
A Entre Investimentos já havia entrado no radar das autoridades antes da atual colaboração. Em janeiro, a empresa foi alvo de busca e apreensão dentro das investigações relacionadas ao caso Master.
Freixo Júnior, no entanto, não está preso e, segundo a reportagem, também não utiliza tornozeleira eletrônica. Sua defesa informou que não se manifestaria sobre o conteúdo do acordo por se tratar de uma investigação sigilosa.
O que a delação revela sobre o Dark Horse
Segundo a apuração, Freixo Júnior confirmou aos investigadores ter realizado diversos pagamentos ao fundo Havengate, sediado no Texas.
Ao menos sete pagamentos teriam sido feitos pela Entre ao fundo, incluindo uma transferência realizada em 16 de setembro de 2025, apenas cerca de dois meses antes da prisão de Daniel Vorcaro.
A existência desse pagamento é relevante porque contradiz uma declaração anterior de Flávio Bolsonaro, que havia afirmado que os repasses para o filme tinham terminado em maio de 2025.
O caso ganhou força depois que mensagens atribuídas a Flávio Bolsonaro mostraram que o senador negociava com Vorcaro o envio de dinheiro para a produção do longa.
A negociação envolvia um valor total de aproximadamente R$ 134 milhões, embora os valores efetivamente transferidos sejam inferiores a esse montante. Parte dos recursos passou pela Entre Investimentos antes de chegar ao fundo americano.
Fundo nos Estados Unidos entra no centro da investigação
O Havengate Development Fund LP está sediado no Texas e é administrado pelo advogado Paulo Calixto, que mantém proximidade com Eduardo Bolsonaro.
É justamente a estrutura financeira no exterior que passou a despertar atenção dos investigadores. A intenção é obter registros que permitam reconstruir o caminho dos recursos e esclarecer quem recebeu efetivamente os valores enviados por Vorcaro.
A colaboração de Freixo Júnior pode ser utilizada para reforçar pedidos de cooperação internacional com autoridades dos Estados Unidos e permitir acesso a documentos e movimentações financeiras que não estão disponíveis diretamente no Brasil.
Investigadores querem saber se dinheiro chegou ao filme
Uma das principais dúvidas da investigação é se todo o dinheiro enviado por Vorcaro foi efetivamente utilizado na produção de “Dark Horse”.
A Polícia Federal e a PGR trabalham com a possibilidade de que parte dos recursos tenha sido destinada a outras finalidades, inclusive para custear despesas de Eduardo Bolsonaro no exterior. Essa hipótese ainda é objeto de investigação e não significa que tenha sido comprovada.
A produtora do filme e integrantes envolvidos no projeto sustentam que os recursos captados foram utilizados na produção do longa e que a obra foi financiada com capital privado.
Em maio, o deputado Mário Frias, produtor executivo de “Dark Horse”, afirmou que Flávio e Eduardo Bolsonaro não possuem sociedade no filme ou na produtora e que ambos apenas autorizaram o uso dos direitos de imagem da família.
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Novo repasse aumentou pressão sobre o caso
A investigação ganhou um novo elemento depois da identificação de um pagamento adicional de US$ 1,6 milhão, cerca de R$ 8,5 milhões na cotação divulgada nas reportagens, feito por Vorcaro em setembro de 2025.
Com essa transferência, os aportes atribuídos ao ex-banqueiro para estruturas relacionadas ao filme chegaram a aproximadamente US$ 12,3 milhões, segundo a apuração publicada nesta semana.
O valor também colocou em dúvida a versão de que os pagamentos haviam sido encerrados meses antes.
A produtora Go Up Entertainment afirmou que informou à Justiça os repasses recebidos e declarou que os recursos foram destinados integralmente à produção do filme, com documentação e contratos relacionados às operações.
Delação é a segunda ligada ao caso Master
A colaboração de Freixo Júnior é apontada como a segunda proposta de delação relacionada ao caso Master.
Nos últimos dias, também foi encaminhada ao gabinete de André Mendonça uma proposta de colaboração de João Carlos Mansur, dono da gestora Reag, empresa que administrava fundos relacionados a Vorcaro.
Mansur é investigado no contexto das movimentações financeiras atribuídas ao antigo controlador do Banco Master. A análise dos acordos poderá ampliar o conjunto de informações disponível para os investigadores sobre a estrutura financeira utilizada pelo grupo.
O que acontece agora
O acordo de Freixo Júnior ainda não produz automaticamente os efeitos de uma delação homologada. O próximo passo é a análise do material pelo ministro André Mendonça.
Caso seja homologado, o conteúdo da colaboração poderá ser utilizado formalmente na investigação, inclusive para orientar novas diligências e pedidos de documentos e informações a autoridades brasileiras e estrangeiras.
O foco dos investigadores é reconstruir o caminho do dinheiro, identificar os beneficiários dos repasses e esclarecer se os valores foram utilizados exclusivamente na produção de “Dark Horse” ou se tiveram outros destinos.
Entenda o contexto
O caso “Dark Horse” surgiu dentro das investigações envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master e ganhou dimensão política depois que vieram a público mensagens nas quais Flávio Bolsonaro aparece negociando com o ex-banqueiro recursos para a produção de um filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro. Os repasses teriam sido realizados por meio da Entre Investimentos, empresa controlada por Antonio Carlos Freixo Júnior, e destinados ao fundo Havengate, nos Estados Unidos. A investigação agora busca esclarecer o destino dos recursos e verificar se o dinheiro efetivamente financiou a produção do longa. A delação de Freixo Júnior pode fornecer informações importantes sobre as transferências e ajudar na obtenção de documentos no exterior. O acordo, porém, ainda precisa ser homologado pelo ministro André Mendonça. Até o momento, as suspeitas investigadas não equivalem a uma condenação, e os envolvidos citados têm direito à defesa.
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