Nelson Wilians movimentou mais de R$ 90 milhões com um dos principais investigados no esquema do INSS

Documentos das investigações apontam transferências milionárias entre o advogado e Maurício Camisotti; Wilians afirma que as operações são lícitas, documentadas e decorrentes de relações profissionais e negócios privados
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O advogado Nelson Wilians movimentou mais de R$ 90 milhões em transações financeiras com o empresário Maurício Camisotti, investigado no esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS. Documentos analisados nas investigações mostram uma sequência de operações entre os dois e ampliam o escrutínio sobre as relações financeiras mantidas pelo fundador do escritório NWADV.

Parte das movimentações aparece em relatórios de inteligência financeira encaminhados ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). O Ministério Público analisa se operações financeiras relacionadas aos diferentes casos nos quais o advogado é citado podem ter sido usadas para ocultar a origem e o destino de recursos. Wilians nega irregularidades e afirma que as transações são lícitas, documentadas e resultado de relações profissionais e negócios privados.

Transferências para Camisotti chegaram a R$ 67,3 milhões

Uma análise referente ao período entre julho de 2019 e outubro de 2025 identificou R$ 67,3 milhões transferidos diretamente por Nelson Wilians para Maurício Camisotti.

O valor é superior ao que havia sido mencionado publicamente durante as investigações anteriores. Na CPMI do INSS, em setembro de 2025, parlamentares chegaram a questionar Wilians sobre movimentações de aproximadamente R$ 28 milhões envolvendo Camisotti.

Na ocasião, o advogado não respondeu às perguntas sobre essas operações. Posteriormente, sua defesa afirmou que a relação mantida com o empresário era profissional e que parte das transferências estava relacionada a uma negociação imobiliária.

Leia também:

Delação de empresário do caso INSS entra na fase final e pode revelar quem comandava o esquema

 

Coaf recebeu comunicações sobre R$ 4,5 bilhões

Os documentos analisados pelas autoridades mostram que, entre 2023 e 2025, mais de 150 transações relacionadas a Wilians foram reportadas ao Coaf.

Somadas, as movimentações chegaram a mais de R$ 4,5 bilhões e envolveram contas pessoais do advogado ou vinculadas ao escritório NWADV.

Uma comunicação ao Coaf não significa, por si só, que houve crime. Instituições financeiras têm obrigação de informar determinadas movimentações consideradas atípicas para que os órgãos responsáveis possam analisá-las.

MP analisa circulação de recursos entre diferentes contas

Em uma das frentes de investigação, o Ministério Público apontou concentração expressiva de recursos em contas de mesma titularidade e transferências recorrentes entre instituições financeiras vinculadas ao escritório.

Os investigadores também identificaram circulação de valores entre pessoas físicas e jurídicas relacionadas aos negócios analisados.

Para o Ministério Público, o conjunto das movimentações precisa ser confrontado com documentos, contratos e a origem dos recursos para determinar se as operações possuem relação com os esquemas investigados.

Mais de R$ 45 milhões foram transferidos a ex-sócio

Outro conjunto de transações analisado envolve Fernando Cavalcanti, ex-sócio de Wilians e administrador da Valestra, empresa que anteriormente utilizava o nome NW Consultoria, Negócios e Soluções.

Entre 2023 e 2025, Wilians transferiu mais de R$ 45 milhões para Cavalcanti, segundo os documentos analisados na investigação.

A Valestra aparece em outra frente de apuração, a Operação Distrato, que investiga a comercialização de créditos de ICMS que, segundo o Ministério Público de São Paulo, não possuíam lastro legítimo.

Operação Distrato apura fraude bilionária com créditos de ICMS

A Operação Distrato investiga um esquema de comercialização de créditos tributários supostamente irregulares que teria provocado prejuízo estimado em R$ 3,8 bilhões aos cofres paulistas.

A hipótese investigativa do Ministério Público é de que uma estrutura jurídica teria sido utilizada para conferir aparência de legitimidade às operações, enquanto empresas ligadas ao núcleo financeiro teriam recebido e movimentado os recursos.

Wilians foi alvo de buscas nessa investigação em julho. A existência das movimentações financeiras e o cumprimento das medidas investigativas não representam, por si só, comprovação de participação em crimes.

Banco comunicou quase R$ 1 bilhão em movimentações atípicas

Outra frente dos documentos envolve uma conta empresarial relacionada a Wilians. Uma instituição financeira identificou movimentações consideradas atípicas de quase R$ 1 bilhão entre 2023 e 2024 e encaminhou as informações ao Coaf.

O relatório apontou incompatibilidade entre determinados valores movimentados e o faturamento mensal informado, além de operações que exigiriam análise adicional sobre origem, destino e beneficiários finais.

Entre os registros aparece o recebimento de R$ 6 milhões de uma empresa do setor de apostas que posteriormente se tornou alvo da Operação Arena, investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e ocultação de recursos.

Operação Arena também colocou Wilians sob investigação

Em agosto, a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão contra Nelson Wilians no âmbito da Operação Arena.

A investigação apura suspeitas de utilização de estruturas societárias e financeiras para ocultar a origem e a destinação de recursos relacionados ao setor de jogos e apostas.

A Justiça também determinou medidas patrimoniais que, considerando o conjunto de investigados, chegaram a até R$ 1,1 bilhão.

Wilians nega irregularidades nas transações

Nelson Wilians afirma que as transferências identificadas são lícitas e resultam de relações profissionais e negócios privados.

A defesa sustenta que documentos capazes de comprovar a origem e a regularidade das operações foram apresentados às autoridades e afirma que as transações não têm relação com os fatos investigados nas operações Sem Desconto e Distrato.

Wilians também ressalta que relatórios de inteligência financeira do Coaf servem para identificar e analisar movimentações que merecem atenção, mas não constituem, isoladamente, prova de irregularidade ou prática criminosa.

Veja também:

Operação contra fraude bilionária mira Nelson Wilians em SP

Entenda o contexto

Nelson Wilians passou a aparecer em diferentes investigações que analisam movimentações financeiras relacionadas ao escritório e a pessoas de seu círculo empresarial. Uma delas é a Operação Sem Desconto, que investiga o esquema de descontos indevidos em benefícios do INSS.

Maurício Camisotti é apontado nas investigações como um dos operadores financeiros do esquema. Ele foi preso pela Polícia Federal em setembro de 2025 e posteriormente passou a colaborar com as autoridades na apuração do caso.

Além da investigação relacionada ao INSS, Wilians foi alvo da Operação Distrato, sobre créditos de ICMS supostamente irregulares, e da Operação Arena, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro e movimentações relacionadas ao setor de apostas.

Os novos documentos ampliam os valores conhecidos das transações entre Wilians e pessoas investigadas, mas movimentações financeiras reportadas ao Coaf não comprovam, isoladamente, a prática de crimes. As diferentes operações seguem sob apuração das autoridades, e o advogado nega irregularidades.

Mais lidas do NC News:

 

Milton Leite se entrega à polícia após ser alvo de mandado de prisão

Adolescentes são baleados durante gravação de ‘novelinha’ sobre assalto

Lula diz que SUS terá canetas emagrecedoras, mas acesso ainda depende de etapas

Carregar Comentários