Seleção Brasileira: Ancelotti sob pressão após vexame no Mundial

Debate sobre o futuro da equipe após a surpreendente eliminação nas oitavas do Mundial de 2026.
Redação NC News
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A eliminação da Seleção Brasileira para a Noruega nas oitavas do Mundial de Seleções, encerrada nesta semana, deixa Carlo Ancelotti no centro de um furacão esportivo e simbólico. O técnico italiano, que acumula cinco títulos de Champions League, vê seu modelo de jogo ser colocado em xeque justamente no país que fez do futebol ofensivo uma identidade nacional.

Crise de identidade em campo neutro

O impacto extrapola o simples tropeço em mata-mata. A queda nos Estados Unidos configura a pior campanha brasileira em Mundial desde os anos 1960 e reacende uma pergunta incômoda: que tipo de futebol a seleção pretende jogar daqui para frente.

A frase que ecoa nos bastidores da CBF resume o sentimento: “A eliminação precoce da Seleção Brasileira nas oitavas de final da Copa do Mundo diante da Noruega abriu uma crise de identidade e colocou o trabalho de Carlo Ancelotti sob forte questionamento”. A crítica não mira apenas o resultado, mas a maneira como o time se comporta em campo.

Contra a Noruega, o Brasil termina o jogo com 33% de posse de bola, recuado, reativo, à espera de um contra-ataque que nunca vem. A imagem contrasta com a memória afetiva de gerações acostumadas a ver a seleção ditar o ritmo, impor o talento e não ceder o protagonismo com tanta facilidade.

Receita de Madri, ingredientes do Brasil

Para entender o naufrágio brasileiro, o olhar volta inevitavelmente para o Real Madrid. As campanhas que levam o clube a títulos europeus recentes, em 2021/22 e 2023/24, ajudam a explicar a convicção de Ancelotti em um modelo que abre mão da bola, mas aposta na contundência.

“A estratégia de abrir mão da posse e apostar em transições rápidas, porém, não é uma novidade nos trabalhos de Carlo Ancelotti”. Em Madri, ela vira marca registrada. Números ajudam a ilustrar: diante do Manchester City, nas quartas de final, o Real avança após dois jogos com 38% de posse em casa, num 3 a 3, e 33% fora, num 1 a 1 decidido nos pênaltis.

O roteiro se repete contra o Chelsea. O time espanhol atua de forma cautelosa, termina o confronto com 43% de posse de bola e mesmo assim sai classificado, apoiado num hat-trick de Karim Benzema na ida e em mais um gol do francês na volta, após assistência de Vinícius Jr.

Em Madri, as noites de viradas improváveis se acumulam. Rodrygo entra contra o City, marca aos 90 e 91 minutos e empurra a decisão para a prorrogação, que Benzema resolve de pênalti. Diante do Bayern, Joselu, contestado pela torcida, sai do banco e faz dois gols em três minutos. A lógica é clara: o sistema protege atrás; na frente, alguém decide.

No Brasil, Ancelotti tenta copiar a fórmula. A transição rápida se torna o eixo da proposta. O time abre mão de controlar o jogo para tentar acelerar em poucos passes, muitas vezes diretamente para Vinícius Jr. e Matheus Cunha. Na fase de grupos, o plano parece, à primeira vista, funcionar: Vini marca 4 gols, Cunha faz 3. Juntos, respondem por todos os gols brasileiros na primeira etapa.

Sobrevivência no detalhe, colapso no coletivo

Os sinais de alerta, porém, aparecem cedo. “Durante a fase de grupos nos Estados Unidos, a Seleção Brasileira sobreviveu graças ao talento de seus atacantes”. O verbo não é por acaso. A equipe oscila, sofre para criar com a bola e depende de rompantes individuais.

No mata-mata contra o Japão, o enredo beira o déjà vu de Madri. O coletivo falha, o adversário se fecha, o tempo corre. Nos acréscimos, Casemiro arranca um empate salvador. No último lance, Gabriel Martinelli vira o jogo e arrasta o Brasil às quartas. A sensação é conhecida: o sistema sofre, a estrela resolve.

O problema é que o Mundial não oferece garantias de repetição. Contra a Noruega, o ferrolho escandinavo resiste, a seleção abdica de comandar as ações, e o contra-ataque nunca se encaixa. Haaland encarna o papel de herói improvável que tanto apareceu a favor de Ancelotti na Europa. Só que, desta vez, ele está do outro lado.

A leitura recorrente entre analistas é que, ao tentar transplantar o modelo do Real Madrid sem as mesmas peças, Ancelotti engessa o meio-campo e isola os jogadores criativos. Casemiro, aos 34 anos, carrega sozinho a função de recuperar bolas, numa função que em Madri ele divide hoje com Tchouameni e Camavinga. Na seleção, a ausência de um substituto de perfil parecido expõe a zona mais sensível do sistema.

Choque de culturas e cobrança pública

A crítica à ideia de um Brasil submisso sem a bola não nasce apenas de uma memória romântica. Ela se alimenta de um dado objetivo: com 33% de posse na partida da eliminação, a seleção praticamente delega a iniciativa à Noruega, adversário que, historicamente, aceitaria esse papel coadjuvante.

O contraste com o Real Madrid é também de contexto. No clube espanhol, o elenco é montado ano após ano para potencializar o plano do treinador. Cada função tem dono claro e reservas de nível similar. O trabalho é contínuo, com pré-temporadas, semanas cheias de treino e uma cultura de vestiário acostumada à pressão.

Na seleção, Ancelotti assume às vésperas do Mundial, como quarto técnico do ciclo. Encontra um grupo fragmentado, pouco tempo de treino e um ambiente político agitado. A convocação mistura necessidade técnica, pressão popular e interferência de cartolas. Neymar, fora do alto nível competitivo há tempo, vira símbolo desse dilema.

Quando entra contra a Noruega, o camisa 10 desloca o tabuleiro. Saem Martinelli e Rayan, uma das poucas certezas da campanha. Endrick é empurrado para a direita, onde rende menos. Bruno Guimarães dá lugar a Éderson para cobrir a menor capacidade de marcação de Neymar. O resultado é um Brasil partido, com menos pressão na saída rival e ainda mais dependente de uma jogada isolada.

O modelo à prova fora de elencos estelares

O fracasso no Mundial reabre um debate que acompanha Ancelotti desde antes do retorno ao Real Madrid. Passagens discretas por Napoli e Everton já haviam levantado a dúvida: o modelo reativo, calcado em transições rápidas e soluções individuais, sobrevive longe de elencos recheados de jogadores capazes de decidir sozinhos?

Em Madri, a resposta recente é positiva. As conquistas de 2021/22 e 2023/24 reforçam a imagem de um treinador capaz de ler mata-matas, suportar sufocos e vencer com poucos golpes precisos. Na seleção brasileira, o mesmo plano esbarra em um elenco que não consegue reproduzir, jogo após jogo, o nível de intervenção individual de Vinícius Jr., Rodrygo, Benzema ou Joselu em seus melhores dias.

O que fica, neste momento, é um balanço incômodo. A campanha brasileira no Mundial expõe as limitações de um modelo que, sem tempo de treino e sem um coletivo bem estruturado, cobra um preço alto quando as estrelas falham. A torcida questiona, a CBF evita respostas públicas definitivas e Ancelotti vê seu prestígio ser medido não pelo passado em Madri, mas pelo presente em verde e amarelo.

O próximo capítulo está em aberto. A entidade discute internamente se mantém o italiano para a sequência das Eliminatórias e para a próxima convocação, prevista para os amistosos do segundo semestre, ou se aproveita a rachadura recente para iniciar uma nova reconstrução. O Mundial termina, mas a contabilidade sobre o futuro da seleção brasileira, e sobre o lugar de Ancelotti nesse futuro, está apenas começando.

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