Um inventário de R$ 99,9 milhões, referente à herança recebida por André Weiss, ex-diretor-geral executivo da Administração Tributária da Secretaria da Fazenda de São Paulo (Sefaz-SP), chamou a atenção do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) durante a investigação que levou à prisão do ex-número 3 da pasta.
O inventário foi concluído em julho de 2023 e registrou André como herdeiro dos bens deixados pelo pai, Eugen Weiss. Para os promotores, porém, o valor seria incompatível com o perfil e a trajetória profissional do falecido, que era engenheiro aposentado, pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e escritor.
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Diferença nos valores chamou atenção
Um dos principais pontos analisados pelo MP-SP é a diferença entre o valor registrado no inventário e aquele comunicado pelo próprio cartório ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Enquanto o inventário apontava R$ 99,9 milhões em bens, o cartório teria informado ao Coaf um valor de aproximadamente R$ 579 mil, com valor fiscal de R$ 223 mil.
Para os promotores, a discrepância levanta a possibilidade de que o inventário tenha sido superavaliado para criar uma aparência de origem lícita para recursos que, segundo a investigação, poderiam ter origem ilícita.
O MP-SP considera o inventário uma das peças que precisam ser analisadas para entender a origem do patrimônio acumulado por Weiss.
Movimentações milionárias também são investigadas
Além da herança, os investigadores encontraram movimentações bancárias consideradas incompatíveis com os rendimentos de Weiss como servidor público.
Segundo o relatório analisado pelo MP-SP, foram identificadas movimentações de aproximadamente:
- R$ 1,6 milhão no Santander, em dezembro de 2021;
- R$ 2,6 milhões no Banco do Brasil, em maio de 2023;
mais de R$ 2,4 milhões na Caixa Econômica Federal, em novembro de 2023.
Para os promotores, os valores são incompatíveis com os vencimentos recebidos por Weiss na Secretaria da Fazenda e precisam ser esclarecidos dentro da investigação.
Imóveis teriam sido registrados em nome de familiares
O MP-SP também afirma que Weiss teria utilizado familiares para ocultar patrimônio e dificultar a identificação de seus bens.
Segundo a investigação, diversos imóveis estavam registrados em nome da esposa, Beatriz Sbrissa Lucafó. Os promotores identificaram propriedades de alto valor em municípios como São Pedro, Piracicaba, Jundiaí e Rio das Pedras.
Parte dos imóveis, conforme a investigação, teria sido paga em dinheiro.
Os investigadores consideram que o uso de familiares para registrar bens pode ter feito parte de uma estratégia de blindagem patrimonial.
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Conversa gravada também entrou na investigação
Outra frente da investigação envolve uma conversa gravada durante um almoço de negócios em 27 de julho de 2023.
O áudio foi encontrado no celular de Artur Gomes da Silva Neto, conhecido como “Rei Artur”, que também é investigado no esquema.
Na gravação, Weiss demonstra preocupação com a possibilidade de ser preso e fala sobre os riscos de ostentar bens de alto valor. Ele cita, por exemplo, a compra de uma Mercedes de R$ 250 mil e afirma que uma aquisição desse tipo poderia chamar a atenção das autoridades.
A conversa ocorreu pouco antes da primeira entrega de propina relatada pelo ex-auditor fiscal Paulo Sérgio Siqueira do Prado, que posteriormente firmou acordo de delação premiada com o MP-SP.
Weiss também participou de decisões sobre o caso Ultrafarma
Durante o período em que esteve na cúpula da Sefaz-SP, Weiss também participou de decisões relacionadas à revisão de processos envolvendo o ressarcimento de ICMS no caso que envolve as empresas Ultrafarma e FastShop.
Segundo o MP-SP, em agosto de 2025, ele nomeou oito fiscais para integrar um grupo responsável pela revisão de processos, protocolos e normas relacionados ao ressarcimento do imposto.
Entre os escolhidos estava Arthur Rafael Gatti Alvares, que também aparece nas investigações sobre possíveis fraudes tributárias dentro da secretaria.
Operação Caldarium
André Weiss foi preso na quinta-feira (3), durante a Operação Caldarium, deflagrada pelo MP-SP para investigar um suposto esquema de corrupção envolvendo agentes da Secretaria da Fazenda paulista.
A investigação reúne suspeitas de pagamento de propina, fraudes tributárias e lavagem de dinheiro.
Weiss é apontado pelo Ministério Público como uma das pessoas que teriam integrado o núcleo público investigado. A apuração ainda busca esclarecer a origem dos recursos atribuídos ao ex-diretor e a participação de cada investigado.
Entenda o contexto
O inventário de R$ 99,9 milhões não é tratado isoladamente pelos investigadores. Ele faz parte de um conjunto de elementos que inclui movimentações bancárias milionárias, imóveis registrados em nome de familiares e conversas gravadas.
A principal suspeita do MP-SP é que mecanismos aparentemente legais, como a transferência de uma herança, possam ter sido utilizados para dar aparência lícita a recursos de origem supostamente ilícita.
A investigação ainda precisa esclarecer a origem dos quase R$ 100 milhões declarados no inventário, explicar a diferença em relação ao valor comunicado ao Coaf e verificar se houve relação entre o patrimônio de Weiss e o esquema de corrupção investigado na Sefaz-SP.
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